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	<title>Burgerz &#8211; MITsp 2020</title>
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	<description>7ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo</description>
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		<title>Quando voltaremos a respirar juntos?  por Clóvis Domingos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Malu Barsanelli]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 May 2020 17:52:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Burgerz]]></category>
		<category><![CDATA[O que Fazer Daqui para Trás]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando voltaremos a respirar juntos? por Clóvis Domingos   Escrevo esse texto buscando na memória a intensidade dos dez dias vividos na 7ª MITsp: muitos espetáculos, encontros, palestras, conversas com diferentes pessoas, deslocamentos na cidade, produção de escritas críticas, enfim, a aventura do convívio humano e artístico. Poderia afirmar que nesse período “respirei” teatro e [...]</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://mitsp.org/2020/quando-voltaremos-respirar-juntos-por-clovis-domingos/">Quando voltaremos a respirar juntos?  &lt;h6&gt;por Clóvis Domingos&lt;/h6&gt;</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://mitsp.org/2020">MITsp 2020</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h3>Quando voltaremos a respirar juntos?</h3>
<h6>por Clóvis Domingos</h6>
<p><img class="alignnone size-large wp-image-9679" src="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49633008737_2c9fe3a1ca_o-1024x717.jpg" alt="O que Fazer Daqui para Trás @Guto Muniz" width="1024" height="717" srcset="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49633008737_2c9fe3a1ca_o-200x140.jpg 200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49633008737_2c9fe3a1ca_o-300x210.jpg 300w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49633008737_2c9fe3a1ca_o-400x280.jpg 400w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49633008737_2c9fe3a1ca_o-600x420.jpg 600w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49633008737_2c9fe3a1ca_o-768x538.jpg 768w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49633008737_2c9fe3a1ca_o-800x560.jpg 800w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49633008737_2c9fe3a1ca_o-1024x717.jpg 1024w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49633008737_2c9fe3a1ca_o-1200x840.jpg 1200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49633008737_2c9fe3a1ca_o-1536x1075.jpg 1536w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Escrevo esse texto buscando na memória a intensidade dos dez dias vividos na 7ª MITsp: muitos espetáculos, encontros, palestras, conversas com diferentes pessoas, deslocamentos na cidade, produção de escritas críticas, enfim, a aventura do convívio humano e artístico. Poderia afirmar que nesse período <i>“</i>respirei” teatro e isso foi experimentado de forma coletiva e aconteceu numa acepção dupla: respiração (como ventilação e circulação de matérias, afetos e forças que regulam a própria vida) e respiro (possibilidades de oxigenação e restauração em tempos de autoritarismo e estrangulamento político e social). Sim, nos últimos tempos, a arte vem tentando criar espaços e frestas de respiro e insistindo em trazer um pouco mais de ar diante das ameaças de sufocamento e silenciamento das ideias, das expressões, dos corpos, das palavras e da diversidade de manifestações.</p>
<p>Dessa forma, posso dizer que voltei de São Paulo oxigenado, renovado, nutrido por ter respirado diferentes e instigantes ares junto a tanta gente. Mas o término da MITsp também se transformou no fim (ainda que temporário) de uma experiência fundamental para mim: ser espectador singular e ao mesmo tempo coletivo do acontecimento cênico. A pandemia do  coronavírus chegou para transformar radicalmente o mundo. Os últimos três dias da MITsp, com a necessidade de cancelamento de alguns eventos da programação, já prenunciava que algo muito grave já estava em curso. De repente tudo virou de cabeça para baixo: agora estamos (quase todos, é verdade) em isolamento social, confinados em nossas casas, impedidos de sair pelas ruas, de cumprir nossas agendas e rotinas, de frequentar lugares com aglomeração de pessoas. Com os teatros fechados, todos os espetáculos foram cancelados e as artes da presença agora se tornaram ausência, virtualidade e impossibilidade.</p>
<p>O que escrever daqui para frente?</p>
<p>Só é possível agora dizer daqui para trás?</p>
<p>Perdido em minhas anotações feitas durante a Mostra, passei os últimos dias da quarentena tentando encontrar um caminho por onde começar. Há momentos em que a respiração falta devido à angústia diante de tantas incertezas.</p>
<p>O que escrever daqui para trás?</p>
<p>Então me veio, depois de muito vazio e perplexidade, um desejo meio torto de tentar falar de alguns espetáculos da Mostra a partir de seus modos respiratórios, suas poéticas e temáticas que de alguma forma dialogam com o momento presente, e também trazer a memória de como respirei junto a esses trabalhos. Agora é como se eles me fizessem companhia, e mais, fossem meus aparelhos respiradores que me ajudam a permanecer vivo.</p>
<p>Começo então voltando ao espetáculo <a href="https://mitsp.org/2020/o-que-fazer-daqui-para-tras/"><i>O que Fazer Daqui para Trás?</i></a><i>, </i>de João Fiadeiro, em algumas de suas dimensões mais fortes: a respiração ofegante, o tempo intervalar, o espaço do palco vazio, os discursos fragmentados, a urgência a que somos condenados a viver. Entre presença e ausência, performers sempre correndo entre o dentro e o fora do teatro e a realidade sendo questionada e problematizada, as tentativas de descrição das coisas, dos fatos e das pessoas que sempre permanecem incompletas num cotidiano absurdo. Também são abordadas as questões do corpo em suas variações, percepções, limites e potencialidades. O que fica? O que resta? Quais memórias e afetos nos mobilizam diante da velocidade do mundo atual? Em qual direção seguir: para frente ou para trás?</p>
<p>No trabalho de Fiadeiro podemos pensar sobre o tempo atropelado para respondermos a todas as demandas que nos chegam. O cansaço nosso de cada dia. O futuro incerto. Tudo em movimento e desequilíbrio e somente o microfone no centro do palco é o personagem estabilizado. Correr, parar, falar, pensar, perder. Perguntar. Desacelerar. A plateia inquieta. A vida acontecendo em tempo real.</p>
<p>Nessa performance o próprio lugar das artes da cena é questionado: o que é um espetáculo? O que estamos fazendo juntos ali? O que significa aquele entra e sai dos artistas? O que aqueles discursos emitidos de maneira sôfrega têm a nos dizer? Entre vigor e exaustão, os artistas resistem, re-existem, re-insistem. Entre uma crise e outra de falta de ar, ainda assim alguma coisa se cria. Nessa correria sem tempo, sem ordem e sem sentido, uma camada espaço-temporal se funda. A necessidade de respirar é o que fica. Aproximando toda essa paisagem para os dias de hoje: como respirar em tempos de pausa forçada? Como ficará o teatro daqui para frente? Para qual direção? A nudez do palco agora vestida pelo silêncio de não se saber quando será habitada por uma nova palavra. Só nos resta, como os personagens de Samuel Beckett, esperar. Respirar&#8230;</p>
<p>Já em <a href="https://mitsp.org/2020/contos-imorais-parte-1-casa-mae/"><i>Contos Imorais &#8211; Parte I:</i> <i>Casa Mãe</i></a><i>, </i>da artista francesa Phia Ménard, fica a memória de minha respiração suspensa. Nessa performance física, o corpo como campo de batalha frente às forças naturais, as quais não dominamos. Um trabalho sobre a transformação das matérias, a impermanência das coisas, o fracasso das utopias do mundo ocidental. Uma metáfora de uma Europa devastada. Presenciamos a meticulosa construção de uma casa erguida (numa referência ao Partenon grego), a partir do esforço quase sobre-humano da artista. É possível ouvir sua respiração profunda e vigorosa para dar forma ao seu ambicioso projeto. Após a passagem de um tempo largo no qual acompanhamos sua empreitada, finalmente a casa está de pé. Em alguns momentos, há a sensação de que tudo pode se perder, o mínimo gesto pode comprometer a sólida morada que foi bravamente construída pelo suor e agressividade de uma mulher. Lembro que respirei aliviado.</p>
<p><img class="alignnone size-large wp-image-6021" src="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/02/Maison-Mere©️Jean-Luc-Beaujault-1024x597.jpg" alt="Maison Mere ©️Jean Luc Beaujault" width="1024" height="597" srcset="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/02/Maison-Mere©️Jean-Luc-Beaujault-200x117.jpg 200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/02/Maison-Mere©️Jean-Luc-Beaujault-300x175.jpg 300w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/02/Maison-Mere©️Jean-Luc-Beaujault-400x233.jpg 400w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/02/Maison-Mere©️Jean-Luc-Beaujault-600x350.jpg 600w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/02/Maison-Mere©️Jean-Luc-Beaujault-768x448.jpg 768w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/02/Maison-Mere©️Jean-Luc-Beaujault-800x467.jpg 800w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/02/Maison-Mere©️Jean-Luc-Beaujault-1024x597.jpg 1024w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/02/Maison-Mere©️Jean-Luc-Beaujault.jpg 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p>Missão cumprida? Pura ilusão. Bastam poucos minutos para que uma chuva desça sobre o palco. O papelão vai sendo encharcado até que o imponente templo, não suportando mais a força da água que se infiltra, desaba como um castelo de areia. Um céu cinza e fumacento transforma a paisagem num cenário apocalíptico. Tudo o que sobra é um depósito de restos. O Partenon, símbolo máximo da democracia, surge humilhado e afogado em detritos. A artista impassível apenas observa o dilúvio. Diante da catástrofe, não há nenhum tipo de ação e reação. Seria semelhante ao comportamento de cada um de nós diante da miséria que aniquila o mundo? Como mudar as realidades adversas que convocam nossa força e indignação? Estaremos todos indiferentes e anestesiados? Minha respiração se tornou curta. Impossível não pensar nos abrigos improvisados pelos imigrantes impedidos de viver nos países mais ricos e privilegiados economicamente.</p>
<p><i>Contos Imorais &#8211; Parte I:</i> <i>Casa Mãe </i>ficou para mim como o espetáculo mais provocador e emblemático que foi apresentado na MITsp. A imagem final com a exposição das ruínas, em minha leitura, fez e faz todo sentido para se pensar o contexto atual (mesmo antes da pandemia do coronavírus): como lidar com o desconhecido? Diante do mundo em colapso, qual valor tem sido o mais preponderante: o econômico ou o humano? O que fazer diante de tantas vidas desamparadas? Ainda mais agora que um vírus nos ameaça indistintamente, rompendo as fronteiras que sempre construímos para marcar as diferentes nações, eu me pergunto: quem ainda assim estará em melhores condições de continuar vivo? Quem continuará respirando? Que mundo poderá surgir depois de tudo isso?</p>
<p>Como nos lembra o filósofo camaronês Achille Mbembe em seu recente texto intitulado <a href="https://www.buala.org/pt/mukanda/o-direito-universal-a-respiracao" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><i>O Direito Universal à Respiração</i></a>, sobre a pandemia do  coronavírus:</p>
<blockquote><p>&#8220;Antes deste vírus, a humanidade já estava ameaçada de asfixia. Se tiver que haver guerra, portanto, não deve ser tanto contra um vírus específico, mas contra tudo o que condena a maior parte da humanidade à cessação prematura da respiração, tudo o que basicamente ataca o trato respiratório, tudo isso que a longo prazo o capitalismo confinou segmentos inteiros de populações e raças inteiras a uma respiração difícil e sem fôlego, a uma vida pesada. Mas, para sair disso, ainda é necessário entender a respiração além de aspectos puramente biológicos, como o que é comum a nós e que, por definição, escapa a todo cálculo. Ao fazer isso, estamos falando de um direito universal de respiração&#8221;.</p></blockquote>
<p>Isso me leva a pensar em três espetáculos presentes na Mostra nos quais o que se vê em cena são vidas condenadas a uma “respiração difícil e sem fôlego”: <a href="https://mitsp.org/2020/tu-amaras/"><i>Tu Amarás</i></a><i>, </i><a href="https://mitsp.org/2020/o-pedido/"><i>O Pedido</i></a><i> e </i><a href="https://mitsp.org/2020/burgerz/"><i>Burgerz</i></a><i>. </i>Em <i>Tu Amarás</i>, o debate gira em torno de um grupo de extraterrestres que se estabeleceram na Terra e como nós humanos agimos diante deles. Em <i>O Pedido</i>, a tônica recai sobre as falhas e injustiças perpetradas sobre a vida dos refugiados em busca de asilo político. Já em <i>Burgerz</i>, um ataque de ódio serve de mote para se mostrar como os corpos trans sobrevivem.</p>
<p><img class="alignnone size-large wp-image-9693" src="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49632712473_49a82f5abe_o-1024x717.jpg" alt="Tu Amarás @Nereu Jr" width="1024" height="717" srcset="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49632712473_49a82f5abe_o-200x140.jpg 200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49632712473_49a82f5abe_o-300x210.jpg 300w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49632712473_49a82f5abe_o-400x280.jpg 400w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49632712473_49a82f5abe_o-600x420.jpg 600w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49632712473_49a82f5abe_o-768x538.jpg 768w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49632712473_49a82f5abe_o-800x560.jpg 800w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49632712473_49a82f5abe_o-1024x717.jpg 1024w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49632712473_49a82f5abe_o-1200x840.jpg 1200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49632712473_49a82f5abe_o-1536x1075.jpg 1536w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p>São trabalhos que falam da questão da alteridade, do medo e da intolerância diante da diferença, da colonização e subalternização do outro, da criminalização do estrangeiro e do diferente como uma espécie de inimigo. Seja a partir de raça, identidade sexual ou cultura, há séculos as sociedades ocidentais vêm sempre buscando colocar o “mal” no outro, e, a partir de violências e segregações, tentam garantir sua supremacia diante dos demais. A proteção e a negação do outro não passam de projeções narcísicas que mais adoecem do que promovem saúde coletiva e planetária, e mais, ferem os direitos humanos, se convertendo em atos de perversidade no qual vidas são ceifadas.</p>
<p><img class="alignnone size-large wp-image-9836" src="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49646543566_3c87000da5_o-1024x717.jpg" alt="O Pedido (The Claim) @Nereu Jr" width="1024" height="717" srcset="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49646543566_3c87000da5_o-200x140.jpg 200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49646543566_3c87000da5_o-300x210.jpg 300w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49646543566_3c87000da5_o-400x280.jpg 400w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49646543566_3c87000da5_o-600x420.jpg 600w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49646543566_3c87000da5_o-768x538.jpg 768w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49646543566_3c87000da5_o-800x560.jpg 800w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49646543566_3c87000da5_o-1024x717.jpg 1024w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49646543566_3c87000da5_o-1200x840.jpg 1200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49646543566_3c87000da5_o-1536x1075.jpg 1536w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p>Pessoas negras, transexuais, mulheres, pobres, idosos, doentes, trabalhadores espoliados etc., na maioria das vezes, têm sua respiração interrompida por aqueles que acreditam que essas vidas não importam. É como afirma Travis Alabanza, artista transativista, para seu interlocutor numa cena do espetáculo <i>Burgerz</i>: “Eu sinto medo de estar no mesmo espaço com você. Você tem o meu pescoço em suas mãos”. Muitas vidas há séculos são estranguladas sem que haja algum tipo de reação, comoção ou políticas de proteção.</p>
<p><img class="alignnone size-large wp-image-10130" src="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-1024x717.jpg" alt="Burgerz @Nereu Jr" width="1024" height="717" srcset="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-200x140.jpg 200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-300x210.jpg 300w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-400x280.jpg 400w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-600x420.jpg 600w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-768x538.jpg 768w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-800x560.jpg 800w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-1024x717.jpg 1024w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-1200x840.jpg 1200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-1536x1075.jpg 1536w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p>Só agora, ao escrever este texto, me dou conta de que tudo não passa de quanto de ar nos é permitido sorver. Uns poucos sempre puderam respirar tranquilamente enquanto para outros isso nunca foi possível. E é no ar que compartilhamos hoje que se encontra um novo vírus que tanto nos amedronta e nos exige não somente cuidados e medidas de isolamento físico, mas também reflexões e transformações urgentes. Que mundo poderá surgir disso tudo? Quais cenas se constituirão?</p>
<p>Para finalizar retomo o título deste ensaio: quando voltaremos a respirar juntos? Não só no teatro, mas nas ruas, escolas, cidades, bares, camas etc.? Sei que essa pergunta não tem ainda uma resposta, mas nela minimamente respira uma fagulha de desejo. O desejo é um dos melhores modos de reencontrar o futuro. Frente à paralisia atual, desejar é uma forma de movimento.</p>
<p>Entre a memória dos espetáculos vistos e a possibilidade daqueles que ainda virão, já consigo respirar um pouco melhor agora.</p>
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		<title>O corpo ciborgue não será cis-burguês por Dodi Tavares Borges Leal</title>
		<link>https://mitsp.org/2020/o-corpo-ciborgue-nao-sera-cis-burgues-por-dodi-tavares-borges-leal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Malu Barsanelli]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Mar 2020 15:45:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Burgerz]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O corpo ciborgue não será cis-burguês por Dodi Tavares Borges Leal Travis Alabanza, em Burgerz, nos convida a uma imersão radical aos modos de se fazer gente. Debochada e raivosa. É assim que vemos uma chefe de cozinha conduzir a narrativa cênica que tem como ponto de partida um dia de abril de 2016 quando, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h3>O corpo ciborgue não será cis-burguês</h3>
<h6>por Dodi Tavares Borges Leal</h6>
<p><img class="alignnone wp-image-10130 size-large" src="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-1024x717.jpg" alt="Burgerz @Nereu Jr" width="1024" height="717" srcset="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-200x140.jpg 200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-300x210.jpg 300w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-400x280.jpg 400w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-600x420.jpg 600w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-768x538.jpg 768w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-800x560.jpg 800w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-1024x717.jpg 1024w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-1200x840.jpg 1200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662340927_fcabdd27c4_o-1536x1075.jpg 1536w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p>Travis Alabanza, em <a href="https://mitsp.org/2020/burgerz/"><i>Burgerz</i></a>, nos convida a uma imersão radical aos modos de se fazer gente. Debochada e raivosa. É assim que vemos uma chefe de cozinha conduzir a narrativa cênica que tem como ponto de partida um dia de abril de 2016 quando, ao atravessar a Waterloo Bridge, em Londres, foi atacada com um hambúrguer enquanto alguém gritava <i>tranny </i>&#8211; TRAVECO! Mais de cem pessoas presenciaram a situação e ninguém reagiu para apoiar. Entre quem atira e quem é atacada com hambúrguer é fácil notar quem é ciborgue e quem é cis-burguês?</p>
<p>A ruptura com os códigos racionalizantes, coloniais e brancos de corpo não pode se furtar da fundamental subversão dos dispositivos cisgêneros de corporalidade dominantes. Desde que Donna Haraway apresentou ao mundo a brilhante obra <i>Manifesto Ciborgue </i>no último quartil do século XX, tornou-se ainda mais evidente que as hibridizações e limites da espécie humana estão imbricadas de aspectos éticos e estéticos complexos. No entanto, a elitização do saber acadêmico, por onde tem passado majoritariamente a repercussão desse debate, leva a uma figuração da noção de ciborgue carregada de matizes tóxicos da cisgeneridade e da burguesia. E, não! O corpo ciborgue não será cis nem burguês.</p>
<p>Antes de fazer o hambúrguer, é preciso decidir em que caixa você o servirá. Aliás, uma vez que as ciências biológicas já resolveram a questão — <i>quem veio primeiro: o ovo ou a galinha? </i>— o espetáculo interroga: <i>quem veio primeiro: o hambúrguer ou a embalagem? </i>A peça é uma voraz crítica ao <b>cardapialismo </b>das siglas ligadas às dissidências sexuais e desobediências de gênero (LGBT, LGBTQIA+, LGB&#8230;), todas elas fracassadas pois fadadas à cisnormatividade, à monossexualidade e à escala. Estas tais letrinhas, quando justapostas, enganam pois carregam consigo a ideia de que <i>ou </i>você rompe com as hegemonias sexuais <i>ou </i>rompe com as hegemonias de gênero. Se no cenário da peça vemos um contêiner cheio de caixas, não é porque o <i>food truck </i>comercializa nossas corpas literalmente, mas porque é preciso denunciar que fazemos com nossas pulsões de vida o mesmo que não abrimos mão de fazer com nossa alimentação industrializada: arrumamos em caixinhas. E Travis nos diz: <b><i>não encaixota a xota! </i></b></p>
<p><i>Burgerz </i>é uma crítica à burguesia cisbranca. A versão brasileira mais nítida desta metáfora não são as caixinhas, mas sim os <b>coxinhas</b>. Jogadora de cena, Travis arranca o conforto do peito de um homem cisbranco que convida ao palco para trabalhar pra ile. E pergunta: desde a confiança que os dois mil anos de privilégios te proporcionou, você sabe como fazer um hambúrguer? Quando a trava preta manda ele pôr queijo pra ile, já não se faz um <b>cheeseburguer</b>, mas é ele mesmo que se passa a comer: o <b>cis-burguês</b>. E bota mais tempero porque ile tá com sangue no zóio. A peça abarca a reflexão sobre a precarização do trabalho em linha de montagem. Enquanto um outro ingrediente vem para se montar o prato, ile propõe falar sobre o racismo. O macho cisgênero frágil vai cortar cebola? Ile então pede pra falar sobre o choro dele. E pergunta: — <i>O que veio primeiro? O gênero ou a violência? </i>Ele hesita em responder. Ile arremata: <i>não se dê o trabalho de responder; gênero e violência são a mesma coisa. </i>Uma fita adesiva rosa é então amarrada em seus peitos, com dois pãezinhos feitos de teta. O corpo ciborgue só pode ser transgênero e inter-espécie. A antropofagia cis-oswaldiana do século XX não nos dá mais de comer.</p>
<p>Destaque especial para Maia de Paiva, performer e tradutora que mais do que mediar o improviso de cena que versa entre as línguas portuguesa e inglesa, ela é abusada e pilar para o coió que Travis se empodera a dar. O texto, de autoria de Travis, contém uma reflexão freiriana fundamental: <i>a liberdade dos opressores não depende da nossa liberdade. Mas eles só serão livres quando nós formos livres. </i>Se há alguém, ainda assim, que quisesse atacar com um hambúrguer, a luz impediria: um <i>black out </i>preparado para interromper atos futuros de violação dos corpos.</p>
<p><i>Burgerz </i>encerra a sétima edição da mostra, com o maior número de participação de pessoas trans de sua história. Como legado de 2020, ficamos com a expectativa para os próximos anos de ainda mais obras e atuações de pessoas trans na <b>MITsp &#8211; Mostra Internacional de Travestis</b>.</p>
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		<title>Para que algo nos (Trans)forme por Clóvis Domingos</title>
		<link>https://mitsp.org/2020/para-que-algo-nos-transforme-por-clovis-domingos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Malu Barsanelli]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Mar 2020 15:42:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Burgerz]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para que algo nos (Trans)forme por Clóvis Domingos Visibilizar as violências sofridas pelos corpos trans é uma das principais tônicas presentes em Burgerz, criação e performance de Travis Alabanza e direção de Sam Curtis Lindsay. Nesse espetáculo solo de alta voltagem política, presenciamos um rito de restauração pessoal e simbólica a partir de um ataque [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h3>Para que algo nos (Trans)forme</h3>
<h6>por Clóvis Domingos</h6>
<p><img class="alignnone wp-image-10132 size-large" src="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662059016_f66fb9e3b9_o-1024x717.jpg" alt="Burgerz @Nereu Jr" width="1024" height="717" srcset="https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662059016_f66fb9e3b9_o-200x140.jpg 200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662059016_f66fb9e3b9_o-300x210.jpg 300w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662059016_f66fb9e3b9_o-400x280.jpg 400w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662059016_f66fb9e3b9_o-600x420.jpg 600w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662059016_f66fb9e3b9_o-768x538.jpg 768w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662059016_f66fb9e3b9_o-800x560.jpg 800w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662059016_f66fb9e3b9_o-1024x717.jpg 1024w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662059016_f66fb9e3b9_o-1200x840.jpg 1200w, https://mitsp.org/2020/wp-content/uploads/2020/03/49662059016_f66fb9e3b9_o-1536x1075.jpg 1536w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p>Visibilizar as violências sofridas pelos corpos trans é uma das principais tônicas presentes em <a href="https://mitsp.org/2020/burgerz/"><i>Burgerz</i></a>, criação e performance de Travis Alabanza e direção de Sam Curtis Lindsay. Nesse espetáculo solo de alta voltagem política, presenciamos um rito de restauração pessoal e simbólica a partir de um ataque transfóbico real: enquanto atravessava a Ponte de Waterloo em Londres, durante o dia, Alabanza foi vítima de uma pessoa que jogou sobre ile (pronome não binário para substituir os pronomes pessoais “ela” ou “ele”) um hambúrguer. Tal acontecimento não gerou nenhum tipo de reação por parte dos transeuntes que o presenciaram, isto é, ninguém manifestou algum tipo de solidariedade diante da ofensa ocorrida. A cumplicidade silenciosa das pessoas e o ato repleto de ódio por parte do agressor acabaram por gerar ne artiste uma obsessão por hambúrgueres, e mais: como através deles seria possível abordar e refletir sobre questões como preconceito, classificações, lugares de privilégio e ausência de empatia.</p>
<p>Com fortes características de teatro documental, <i>Burgerz</i> se configura como um misto de conversa pública e show gastronômico ao vivo que conta com a efetiva participação do público, implicando-o de diferentes modos. Ainda que o espetáculo tenha no humor uma primeira porta de entrada, com o passar do tempo, sua dimensão dramática que faz com que reconheçamos num texto aparentemente leve, simples e poético, significativos e profundos atravessamentos de feridas sociais ainda abertas como gênero, negritude, dignidade trans e diferenças de classe. Ao convidar e escolher um homem cisgênero e branco da plateia para ajudá-le a preparar um hambúrguer, le artiste busca inverter a situação ocorrida e assim pode denunciar o desrespeito dirigido a pessoas trans nos mais variados espaços públicos.</p>
<p>A cenografia é composta de uma grande caixa como a das embalagens de sanduíche e que também pode ser lida como uma gaiola a aprisionar as sexualidades não normativas diante da regulação arbitrária dos gêneros, como se uma espécie de carne, não a de hambúrguer, mas a humana, fosse ali comprimida e sufocada por convenções. A abertura dessa caixa permite que uma cozinha seja instalada ao mesmo tempo que uma voz oprimida (a de Alabanza) possa ser escutada. Surgem então perguntas: “Quem veio primeiro: o hambúrguer ou a caixa? O homem ou a mulher? O gênero ou a violência”?, ao que le artiste responde: “Os dois são a mesma coisa. Mas como e por que enfiar as pessoas em apenas duas caixas”? Silêncio. Uma pergunta direta que não encontra uma resposta plausível, mas que revela que há pouca ou nenhuma diversidade e liberdade de escolha.</p>
<p>Na performance, o espaço da cozinha devotado para aproximar mundos e realidades tão distantes, quando não oponentes, é uma escolha poderosa por ser ali um lugar onde se transformam matérias, se prepara o alimento, se aquece o coração, se celebra o encontro. Ali se reúnem duas diferenças numa possibilidade de diálogo, escuta e troca. Ainda que le artista crie um ambiente acolhedor e simpático para seu interlocutor, as tensões não são dissipadas: le artiste chega a pontuar que sua vida inclusive corre sérios riscos por estar dividindo o mesmo espaço que um homem branco cisgênero e que ainda possui uma faca na mão quando corta as cebolas. “Você tem suas mãos em volta do meu pescoço”. E ainda arremata seu medo ao afirmar: “Eu aprendi isso com a história”. Sim, há mais de dois mil anos a cisgeneridade vem impondo suas normas aos corpos trans e dissidentes ao perpetuar estruturas que geram custosas condições de vida a essa comunidade como discriminações nos âmbitos familiares, escolares e de trabalho, além de imputar o apagamento dessas existências numa cadeia ininterrupta de violência.</p>
<p><i>Burgerz</i> (trans)torna as normas cisgêneras e o próprio lugar da arte ao produzir uma “encontra” e uma “pedagogia da teatra” (aqui me refiro ao <a href="https://mitsp.org/2020/category/eixos-mitsp/acoes-pedagogicas/encontra-de-pedagogias-da-teatra/">evento presente na atual programação da MITsp e que teve a curadoria de Dodi Tavares Borges Leal</a>), pela convocação e necessidade urgente para que saiamos de nossas cascas protetoras e rompamos com a apatia que nos insensibiliza diante de dores que não são as nossas. Não será o nosso narcisismo e autocentramento os motivos pelos quais ainda precisamos arremessar sobre outres nossos hambúrgueres apodrecidos? Como nos curar coletivamente? A arte transativista e cidadã de Alabanza, num simples ato de preparar um hambúrguer, mostra que colaborativamente podemos edificar um mundo minimamente mais justo e que respeite as diferenças. Como na peça: &#8220;Podemos fazer mais para sermos melhores&#8221;.</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://mitsp.org/2020/para-que-algo-nos-transforme-por-clovis-domingos/">Para que algo nos (Trans)forme &lt;h6&gt;por Clóvis Domingos&lt;/h6&gt;</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://mitsp.org/2020">MITsp 2020</a>.</p>
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