Para o encenador francês Joël Pommerat, as improvisações com os atores ao longo do processo criativo são oportunidades tanto de aprofundar as relações entre os personagens, a partir das perspectivas que cada ator apresenta, quanto de escrever de modo indissociável do espaço cênico. “Dirijo atores, nas improvisações espaciais, em situações muito específicas. A escrita é uma coisa que eu prefiro projetar no espaço, inscrever os corpos dentro de um espaço. Eu não separo as imagens das palavras, para mim é uma coisa única”, disse no Pensamento em Processo, encontro com o público da MITsp realizado no Itaú Cultural, com mediação de Johana Albuquerque.

A explicação sobre seu processo criativo diz respeito a espetáculos como Cinderela, que abriu a mostra deste ano. Contudo, Ça ira, mais recente em seu repertório e apresentado no Sesc Pinheiros, em alguma medida seria uma ruptura com alguns desses modos de trabalho. “Quando eu dizia que não diferencio espaço e cenografia do texto; quando eu afirmava que o teatro não é verbo, poesia teatral, mas uma coisa mais concreta e encarnada, Ça ira contradiz isso, porque a palavra está no centro do espetáculo e a palavra é ação”, disse. A diferença, porém, talvez seja mais sutil. “Eu escrevo ações. As ações poderiam ser mudas, silenciosas, mas em Ça ira a ação é a palavra”.

Ça ira traz também um despojamento da tecnologia para concepção da luz e das projeções que se via em Cinderela “para um lado mais bruto, menos refinado”, como diz o diretor, interessado em valorizar a força dos atores e das palavras. Mesmo aí, há paralelo para além da distinção. “O que liga esses dois espetáculos é o ator no centro do espetáculo; a presença de um tipo de simplicidade do ator. Eu adoraria que os espectadores vissem mais pessoas do que atores nos meus trabalhos.(…) Não sou um escritor de frases e palavras; a literatura, a teatral especialmente, não me interessa enquanto exercício de estilo, mas na medida em que ela pode falar da realidade humana”

Quanto à temática, Pommerat não busca ater-se a nenhuma em suas criações. Tampouco se interesse pelo que chama de “teatro político ou a maneira de fazer política no teatro”. “Sou um cidadão de uma sociedade, de uma realidade concreta, cercado por questões políticas que , num momento ou outro, são expressas nos meus espetáculos. Ça ira é sobre política” – disse, diferenciando de ser um “espetáculo político” -, sobre ideologia, sobre o pensamento do homem sobre a sociedade. Além da Revolução Francesa, fala de personagens que buscam criar uma organização humana mais justa e que possa ultrapassar a ideologia para criar uma realidade concreta. E isso é muito difícil”. O projeto deverá ter continuação, com uma segunda parte, Ça ira 2. “A revolução não para no momento em que a parte 1 para”, justifica o diretor.

Indagado pelo crítico e pesquisador Edélcio Mostaço sobre como se sente ao ver outros diretores montando seus textos, Pommerat disse que tende a pensar que tal procedimento “não é natural”, uma vez que não separa o ser diretor e o ser autor. “É uma divisão efetiva em algumas situações; quando um autor morre, é difícil de fazer de outro modo”, gracejou. “Mas é difícil ficar totalmente satisfeito. Penso que todo autor de teatro gostaria de ir até o final da criação, porque, se escreve para teatro, a finalidade não é o texto, mas a palavra relacionada à ação física e ao espaço. Penso que essa separação não é natural. Se me incomoda que outros diretores usem o meu texto? Não. Só não é natural mas a gente não faz só coisas naturais na vida”.

Foto de Cinderela, crédito: Estúdio Zut.

 

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