Um corpo escavado pelo vento

Crítica do espetáculo Vestígios

Por Ivana Moura

Vestígios

Somos ignorantes. No sentido mais brutal do termo. Quase todos nós. Desrespeitosos. Sem ligação com o passado recente e muito menos o remoto. Sambando em cima da memória. E preguiçosos para compreender a real grandeza da História. Fiquei matutando sobre esses “defeitos” diante da instalação coreográfica Vestígios, da bailarina e coreógrafa Marta Soares, artista nacional em Foco desta edição da Mostra Internacional de Teatro – MITsp. O trabalho de 2010 destaca a ação do tempo, a potência sensível da ancestralidade e a política do descaso, falta de memória, desconhecimento dos habitantes que viveram há mais de mil anos no Brasil, dos povos indígenas. Convoca marcas dos sepultamentos, fincadas no conceito de rastro do filósofo francês Emmanuel Levinas, que diz poeticamente que rastro é a ausência de uma presença.

Quando descemos ao porão do Centro Cultural São Paulo (o local escolhido para as apresentações produz novas camadas) encontramos a artista deitada sobre uma plataforma maciça de pedra, sustentada por um suporte de ferro, com seu corpo coberto de areia. Por baixo daquela aparente imobilidade, ela traça pequenas coreografias, invisíveis ao público, com movimentos sutis do corpo. Um ventilador sopra a areia, que lentamente vai revelando possíveis imagens de osso, concha, planta, paisagem.

O corpo-areia dança com o vento. Nessa lembrança sambaqui, a artista assume traços de falésias, que o tempo cuida de mudar. Aquele corpo escondido assume ares de altar, de muitos funerais dos antepassados dessa terra, muitas vezes violados. O corpo está em suspensão performativa com o sagrado.

Nos telões, lateralmente alinhados um ao outro, são projetados amplos horizontes com montes de areia que mudam devagar, esculpidos com o passar dos minutos, nuvens que formam desenhos e desejos, e voos eventuais de pássaros. Enquanto o ventilador cuida de desvelar o corpo da artista, sem pressa. Primeiro a sola de um pé.

Vestígios

Marta Soares dedicou anos de pesquisas aos sambaquis, cemitérios indígenas pré-históricos encontrados no litoral do Brasil. As imersões físicas nessas escavações arqueológicas deixaram suas marcas no corpo e na sensibilidade da bailarina. Ela que começou a dançar aos 20 anos, como uma necessidade de expressar para o mundo sua sensibilidade singular, absorveu nessas investidas nos sambaquis um elo como um passado pré-colonial.

“A fronteira entre arte e vida foi definitivamente borrada. Meu corpo foi profundamente impregnado por esses espaços, e a memória celular deles passou a constituir meu corpo, reverberando durante as performances”, confessou a artista em entrevista

Os “borramentos” de limites chegaram abraçados a conceitos das obras do escritor e pensador francês Georges Bataille (1897-1962), do fotógrafo surrealista alemão Hans Bellmer (1902-1975) e do butô de Kazuo Ohno (1906-2010), com quem estudou no começo dos anos 1990.

Aspectos monumentais e sagrados dos sambaquis são resgatados artisticamente. A transitoriedade da paisagem dilata ainda mais a temporalidade. Pleiteia outros entendimentos sobre morte e vida, fora e dentro. Camadas individuais e coletivas. Uma liturgia de exumação de um sepultamento pré-histórico. “Sou um corpo sepultado, em um ritual de exumação, atravessado por devires”, já disse a artista sobre o trabalho.

2019-03-31T10:17:20-03:0022 março 2019|Críticas|