Da ingenuidade à consciência

Crítica do espetáculo Cinco Peças Fáceis

Por Daniel Toledo

Cinco Peças Fáceis

Vivemos em um mundo social complexo, injusto e repleto de todo tipo de violência. Estamos todos em risco. Há quem prefira ignorar essa realidade, e há quem possa, ao menos por algum tempo, proteger-se dela. Enquanto alguns territórios, povos e indivíduos experimentam certa impressão de paz e bem-estar social, outros convivem diariamente com a privação, a violência e a injustiça. Sobretudo desde o advento colonial, determinou-se, sem que jamais fosse verbalizado, que algumas vidas valem mais, e outras, menos. Em território brasileiro, por exemplo, ficam cada vez mais nítidos os variados genocídios em curso. Há quem espere, já de início, por uma vida longa, e há quem reconheça, a cada dia e a duras penas, a dádiva de permanecer vivo.

Conduzida por sete atores e atrizes com idades entre onze e quatorze anos, a obra Cinco Peças Fáceis, do artista suíço Milo Rau, propõe ao público a reconstituição de um recente episódio traumático da história social belga: a trajetória do pedófilo e serial killer Marc Dutroux, condenado em 2004 pelo sequestro e abuso de seis meninas, tendo quatro delas sido assassinadas. Como potente camada que se acrescenta à dimensão narrativa da obra, a presença de crianças e adolescentes em cena convida o espectador a uma densa reflexão sobre a infância e as realidades sociais que a elas, como horizonte, oferecemos ou deixamos de oferecer.

Cinco Peças Fáceis

A partir de entrevistas, depoimentos e comentários que introduzem e por vezes atravessam a narrativa central, lembramos que não se deve pensar a infância e a adolescência segundo pressupostos como a ignorância e a ingenuidade. Estamos, como espectadores e cidadãos, diante de indivíduos que, como nós, têm acesso a experiências de vida, às notícias e à história. Indivíduos que têm consciência sobre a fragilidade da existência humana, a perspectiva da velhice e também sobre a violência que, em maior ou menor medida, nos forma e nos ronda. Consciência sobre as armas e sua letalidade, sobre a lógica de punições e recompensas que nos rege e, ainda, sobre as múltiplas expectativas sociais que, desde cedo, nos assombram. O que nos separa, então, talvez seja somente a oportunidade de se posicionar e discutir essas questões, participando efetivamente da problemática e exclusivista sociedade política que nos cabe, sempre, buscar ampliar e curar. E esse parece ser um dos exercícios – nada fáceis – a que se propõe o espetáculo.

É também a presença de crianças e adolescentes no palco, justaposta a atores e atrizes adultos em vídeo, que parece renovar, em certo sentido, os efeitos do uso intensivo de equipamentos de cinema no teatro, recurso bastante comum na obra de Milo Rau e na produção teatral contemporânea. Dando vida, quase sempre, a personagens adultos, tais quais um líder revolucionário, um rei, um velho, um policial e os pais de uma das vítimas de Dutroux, os jovens atores e atrizes que conduzem a obra evidenciam, aos nossos olhos, a persistência, na vida adulta, de traços geralmente associados à infância, tais quais fantasias, caprichos, fragilidades e ingenuidades. “Agora vem o tempo de justiça e liberdade”, afirma a atriz que, de modo comovente, discursa como o líder anti-colonial congolês Patrice Lumumba, em passagem que antecede a encenação de seu assassinato.

Ao investigar ainda a infância de Marc Dutroux, por circunstâncias familiares vivida em meio à violenta e desumana realidade colonial do antigo Congo Belga, Cinco Peças Fáceis parece indicar algumas pistas sobre as raízes inconscientes de sua infeliz e condenável trajetória. É na brutalidade dos colonizadores e do mundo colonial, afinal, que repousam as origens da violência contemporânea e de suas múltiplas redistribuições, seja no Norte Global ou, mais recorrentemente, no Sul do qual, como os congoleses, também fazemos parte.

“Gostaria de mudar algumas coisas, mas, como aconteceu assim, não é possível”, lamenta, já nos momentos finais do espetáculo, a atriz que conduz um dos momentos mais perturbadores da obra, único em que, não por acaso, a personagem a ser representada, uma das vítimas de Dutroux, é uma criança tão viva e consciente quanto ela.

2019-03-31T10:19:30-03:0020 março 2019|Críticas|