Armadilha inescapável

Crítica do espetáculo Mágica de Verdade

Por Ivana Moura

Magica de Verdade

Confesso que as fotos de divulgação da peça Mágica de Verdade, do grupo britânico Forced Entertainment,  não haviam me atraído de cara para assistir ao espetáculo. Aquelas fantasias amarelas de frangos, ou galinhas, só me lembravam os shows televisivos de apelo popularesco e escasso respeito pela inteligência do espectador. Mas o teatro gosta de dar socos no pré-conceito. Mágica de Verdade é recheado de desconcertante humor inglês, numa mistura de teatro e performance e aula fina de interpretação de três atores excepcionais: Richard Lowdon, Claire Marshall e Jerry Killick.

Game-show, cabaré, e um feroz percurso pelos estados do ser contemporâneo em suas tentativas de sucesso cotidianos, mas que está sempre às voltas com o fracasso. Com direção de Tim Etchells, o trio simula jogos de leitura da mente. Um deles, de olhos vendados, deve adivinhar, dentre todas as palavras do mundo em língua inglesa, uma específica que outro está pensando (e ostentando numa placa de papelão). A missão é por si só impossível.  E eles enveredam nesse círculo vicioso. O som de aplausos e risos gravados, funciona como o quarto elemento.

Criado em 1984, o Forced Entertainment forjou um jeito singular de se conectar com o público, num teatro que flerta com a representação da realidade e a mídia. E, ao tratar de questões aparentemente banais, abarca a política e carrega muitas referências das artes visuais, da música e do cinema.

Com situações absurdas e cômicas, Mágica de Verdade, está pontuada de flutuações políticas e sociais, da sociedade da pós-verdade, com a política infectada pela corrupção e a triste cruel constatação de que são repetições sem saída. Os três jogadores insistem e erram. A atuação provoca abalos sísmicos de risos. O poder magnetizante dos atuantes, nas suas exaustivas clonagens, passam por estados diversos – euforia, perplexidade, frustração, raiva, exaustão, tédio, tristeza, desespero, esperança de novo. Essas variações são de uma riqueza na condução do riso à melancolia diante daquelas situações absurdas e que remetem para outros absurdos mais reais e mais insolucionáveis.

Tem outro lado, que parece profundamente perverso nesse processo de repetir, tentar, existir; como um dia após o outro, sem saídas. Esforços, erros, tentativas, mais falhas, e assim eles seguem nessa armadilha da qual não conseguem se desvencilhar. Mas, depois da derrota, nova esperança, como mais uma chance. No entanto, os sistemas que dão segundas chances não podem mudar as regras.

Nos vários loopings, repetidos à exaustão, eles trocam de papéis: apresentador, adivinhador e pensador. Nas placas de papelão estão escritas as palavras “caravana”, “álgebra” e “linguiça”. Mas eles só repetem “eletricidade”, “furo” e “dinheiro”.

“Qual é a palavra, Claire? Qual é a palavra que Richard está pensando?

“É a palavra … dinheiro?”

Não.

É assustador como os três ocupam o lugar do não pensar, como que hipnotizados pela televisão, publicidade, Internet e, o mais grave no caso brasileiro, pelos políticos e suas mentiras.

Nesse quebra-cabeças, eles revezam os trajes de frango com roupas íntimas, vestido brilhante, terno e peruca desgrenhada.

Uma das cenas mais impactantes é quando a resposta está na cara do adivinhador. Mas ele não vê. Com seu olhar perdido no infinito. E entram novamente nessa tortura absurdamente divertida. Requintado exercício em que três artistas, com seis palavras, muitas expressões faciais ampliam ao infinito a palavra possibilidade.

2019-03-31T10:36:25-03:0020 março 2019|Críticas|