Crítica sobre Vigiada e Punida, de Safia Nolin e Philippe Cyr | Théâtre Prospero.
Por Malu Barsanelli.
Nas primeiras páginas de Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão (1975), ensaio de Michel Foucault sobre a evolução histórica da legislação penal, de técnicas de punição e coerção, o filósofo apresenta o relato de uma execução ocorrida em 1757, detalhando o suplício de um parricida condenado à tortura e ao esquartejamento em praça pública.
Lida hoje, a cena poderia soar anacrônica, mas não por sua crueldade. Causam semelhante sensação de náusea os ataques sofridos pela cantora canadense Safia Nolin ao longo dos anos. São insultos que depreciam sua aparência física, sua orientação sexual, sua condição de mulher, sua origem argelina, sua forma de se vestir. Em sua maioria, são comentários feitos por meio de redes sociais e sites, mas também em programas de rádio (que tocavam suas músicas enquanto pediam a ouvintes que falassem mal dela) e por meio de frases pichadas nas ruas – foram contabilizadas ao todo 25 mil palavras de ofensa. A agressão foi tamanha que ela precisou se mudar para a França durante alguns meses para tomar distância dos ataques.
O corpo de Safia é motivo de ódio, um campo de batalha. Mas não é a confrontação direta o que busca o espetáculo Vigiada e Punida. O diretor Philippe Cyr coloca em cena um coro de mascarados, duas dezenas de algozes a transformar em canto os insultos recebidos pela cantora. Interpretam o libreto de injúrias sobre um chão coberto de tapeçarias de crochê, um emaranhado de cores e formas diversas, mas que formam um todo, uma rede imbricada.
Causa certo estranhamento ver esse discurso transmutado em música, essa cena hostil passada em um cenário de ar fofo, aconchegante. Porém, esse incômodo não surge à toa. Quando rodeamos a figura da cantora, quando achamos graça da maneira pitoresca como são cantadas as ofensas a ela, a montagem nos coloca como parte dessa rede que julga, que destila uma violência contra esse corpo não aceito, constantemente vigiado e punido, e que ajuda a fomentar o ódio. É como se fôssemos um fio entrançado desse crochê.
Ao entrar em cena, contudo, Safia quebra com a lógica da batalha da qual seu corpo é o campo. Ela se depara com seu alter ego (aqui, interpretada pela atriz Katia Lévesque), segue num abraço, em gestos de carinho. Elas se despem, admiram seus corpos, depois se banham, se massageiam, comem juntas, brincam com os fios de macarrão como se fossem crianças. E Safia canta. Canta em seu estilo folk, voz suave, como resposta às agressões sofridas, num tom dolorido e delicado.
Não há grandes recursos na encenação, mas muito do que conduz a narrativa é a contraposição de camadas, entre a realidade da violência desinibida e a transcendência do jogo no palco. Estão, sim, as frases de ódio, as pichações em paredes, as ameaças de morte, a gravação de uma conversa com a polícia, que diz nada poder fazer, muito menos “tirar o medo” que a aflige. Também está a inversão da realidade de quem a ataca, questionando se não seria ela própria a culpada pela ofensiva – “Quem é você, Safia? Quem é você? A vítima ou o carrasco?”, canta o coro repetidamente.
Safia está lá para interromper o concerto, para rejeitar o veredito do seu julgamento e inverter a dinâmica. Mesmo quando desmascara seus algozes (uma cena de uma simplicidade gigante, mas não menos pungente), ela se distancia de um discurso inflamado ou verborrágico que se poderia esperar quando a vítima toma a palavra, toma o palco. Ela busca transcender, romper o paradigma, sublimar o ódio como forma de refletir sobre maneiras de quebrar os ciclos de violência.
Não que o faça de maneira idealizada, trata-se de um processo de expurgo doloroso. Afinal, o sublime pode ser visto como um “prazer negativo”, como definiria Kant (Crítica da Faculdade de Julgar, 1790). Isto é, um sentimento de prazer permeado por desprazeres, como o medo ou a dor. E Safia canta: “Não estou morrendo, mas dói”.
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Numa mostra marcada por obras que discutem a violência, muitas fazendo uso de recursos biográficos e de autoficção, chama a atenção a capilaridade de Vigiada e Punida. O espetáculo não tem o apuro técnico dos trabalhos da alemã Schaubühne, por exemplo, que apresentou duas peças baseadas na literatura do francês Édouard Louis: História da Violência e Quem Matou Meu Pai?, esta última com atuação do próprio escritor best-seller. Mas parece tecer com mais primor a transposição da dor pessoal para a cena.
Apesar de mergulhar em um caso tão particular, a montagem canadense parece abrir ainda mais o espaço para a identificação de quem assiste. Não apenas pelo tema de violência e ataques pessoais, mas também por ressoar tudo o que nos cerca como sociedade. As ameaças que recebe, muitas delas insultos misóginos vistos tão largamente hoje em dia nas bocas de grupos red pills, remete à ideia de aparato de poder teorizada por Foucault. Esse armamento de subjugação de corpos, de vigilância, humilhação e silenciamento. No fim das contas, quais os limites dessa nossa liberdade de expressão?
Mas a força de Vigiada e Punida está em sua sutileza, no combate à impotência pelo acolhimento, no delicado chamamento à desobediência. Safia nos revela a beleza que pode surgir dos destroços.