Ministério da Cultura
e Redecard apresentam

 13 a 23 
 de Março 
 de 2025 

13 a 23 de Março de 2025

Uma odisseia no abismo

por Vinicius Araguaya

Tudo escuro, luzes laterais e verticais cruzam o palco criando uma grade. Duas palmas de mãos ensanguentadas na contra-luz, emoldurando um caixote de ferro, uma cabeça de mulher se defende: “eu não fiz nada!”. Logo depois, a narradora revela a premissa narrativa: estamos em  um presídio, houve a fuga de cinquenta detentas-mães. Em Parto Pavilhão, o tom instaurado no começo é um teatro narrativo, em que o som e a imagem se articulam umbilicalmente à narração.

Fios de crochê descem do teto, onde se penduram bexigas na cor carmim que parecem corações e placentas. Somos apresentados ao ardil de Rose para libertar as detentas-mães. É ela quem precisa enganar a agente carcerária Glória.

Para ganhar tempo com Glória e seu molho de chaves, Rose tece e destece uma toquinha de bebê. Conforme Rose narra, conseguimos visualizar todos os detalhes da gaveta destrancada e até o amor que sente pelo filho da sua companheira de cela.

Enviesando a minha fonte helenista da roça, de greco-goiano, não só ardil do tece-destece de Penélope, mas outros elementos nos remeterão à Odisseia. A narradora-personagem Rose diz no início “eu minto!”. Além de mentir, é capaz de organizar o ardil que as libertará. A inteligência dela se irmana de Odisseu. Esse é marcado pela inteligência múltipla, conhecido pelo epíteto de polythropos/polymetis, por traçar ardis tortos, enviesados, como o famigerado Cavalo de Troia.

Mas a sua busca, que é a volta pra casa (nostos) é baseada na conquista da Glória (Kléos) pelo não esquecimento dos seus feitos. Odisseu ele precisa retornar, se lembrar do que fez e contar o que fez.  A “glória” que subjaz o retorno à casa, se estrutura em manter vivo e contar sua própria história, mesmo mentindo e enganando.

Parto Pavilhão se desabrocha como uma odisseia no abismo. Nossa Rose, que é Penélope e também Odisseu, é o corpo que acumula funções, acumula trabalhos, dentro e fora de casa. Corpo preto, de mulher, que depende da sua inteligência múltipla, dos seus artífices, dos seus ardis, das suas manhas e da sua coragem.

Só assim, bancará o retorno de 50 mulheres e bebês ao lar. Mas nossa Rose também é – por ser/ter memória – a própria musa que sopra sua própria história. Tudo ser para não perecer: a luta total contra o desamparo.

A dramaturgia de Jhonny Salaberg é impecável, linguagem verbal direta, articulada, que dá amplo espaço à criação da atriz. E sobre essa, a performance de Aysha Nascimento não há o que dizer além de vida pura e criação. Nutrição e alento, nessa primeira noite fria de outono.


Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.

Vinicius Araguaya é dramaturgo e fazedor de filmes, formado em Audiovisual na ECA/USP e Dramaturgia pela SP Escola de Teatro. Foi produtor executivo na EBC/TV Brasil e é diretor da Transficção Filmes. Publica suas crônicas e outros escritos no vinidrama.substack.com.