por Mariana Barioni
Cris Moreira inicia Quadra 16 assim:
– Boa noite! Queria agradecer a todos por terem vindo. Aviso que posso chorar, posso esquecer o texto…
A minha expectativa era de testemunhar uma atriz em total vulnerabilidade, tendo momentos de quase catarse, confrontando a dor imensurável da perda de um filho, especialmente ao relatar sobre a experiência de dar à luz a gêmeos. Parir dois filhos, mas retornar para casa somente com um deles. Não é o que se apresenta.
Essa minha expectativa não se mostrou condizente ao que a apresentação se propõe, uma palestra performance, cujo texto tem destacada precisão, profundidade e possui todo o potencial para ser encenado.
A diretora, através da escolha do gênero palestra, criou uma distância, um espaço que me impediu de imergir e fiquei à margem da experiência daquela mulher. Eu gostaria de ter imergido. Gostaria de ter embarcado ao lado dela enquanto (re)encontro a minha própria dor de ter perdido um bebê com 4 meses de gestação.
Particularmente, gosto quando há, como se diz no jargão do fazer teatral, “espelhos” gigantes em cena. Mas intuo que a palestra não seja sobre a identificação. Talvez seja intencional o voo solo, simbolizando a solidão de cada mãe que perdeu seu filho, nascido ou não.
O texto é apresentado de maneira expositiva, muitas vezes há pouco ou nenhum tempo para reflexão ou sensação. Penso que seja um paralelo com o momento que ela teve de voltar para casa sem um dos filhos, tendo que dar conta da vida que seguiu, sem tempo nem espaço para fazer seu luto.
A melancolia e a tristeza permeiam toda a apresentação. Ao compartilhar sua dor, a atriz nos convida a refletir sobre a complexidade do luto, a importância de dar voz à dor na maioria das vezes silenciada. Eu, que estava preparada para chorar aos soluços, apenas ouço e vejo. Quadra 16 é o resultado de uma bela pesquisa de uma mãe-atriz, que já elaborou sua perda, fez seu luto tardio e apresenta ao público como uma aceitação da perda.
Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.
Mariana Barioni é atriz, produtora, diretora de arte, mãe de dois. Estuda teatro desde os 8 anos, formada no curso técnico de Artes Cênicas em 1996 e formada em Cinema pela Escola Internacional de Cine e Televisão de San Antonio de Los Baños (Cuba).