Ministério da Cultura
e Redecard apresentam

 13 a 23 
 de Março 
 de 2025 

13 a 23 de Março de 2025

Não é preciso dormir para sonhar

Não é preciso dormir para sonhar

por Thamires Araújo

Foi impossível chegar ao Teatro B32, atravessar a escultura da baleia de prata e não me sentir um pouco como Pinóquio já no fim de sua jornada. Engolida por essa criatura fantástica, fui transportada para um outro tempo, um outro espaço – não de escuridão e medo, mas de descoberta e encantamento.

Ali, vi Tonheta, personagem de Antonio Nóbrega, no começo de sua vida, em seus embates com a Morte e em seu rejuvenescimento pelo riso. Ouvi músicas acompanhadas pela zabumba, pelo violino, pelo violão. Ri com malabarismo, com palhaçaria. Assisti a trechos do documentário Brincante (Walter Carvalho, 2014). Acompanhei coreografias (e eu mesma dancei, ao final de tudo, quando todos fomos chamados ao palco). Ali, tudo era possibilidade.

É assim que Mestiço Florilégio atravessa a memória e os registros dos 40 anos de trabalho de Antonio Nóbrega e Rosane Almeida: em forma de festa. E todos estão convidados. A arte, aqui, é um território de encontro. No vaivém entre o clássico e o popular, o moderno e o ancestral, o palco italiano e a ciranda, o espetáculo reafirma a arte como espaço de convivência e ritual da coletividade – ritual este que precisa, cada vez mais, ser reafirmado na sociedade fragmentada e de culto ao indivíduo em que vivemos.

Afinal, é evidente que poesia e política andam de mãos dadas. Não sem razão homenageado da 10ª edição da MITsp, Nóbrega parece saber disso muito bem, não só pelo caráter agregador de sua obra (presente, aliás, em ambas as palavras que dão nome ao espetáculo), mas também por incluir em seu repertório, por exemplo, uma música em defesa da democracia e em oposição à anistia pelo 8 de janeiro.

Como é bom sair feliz do teatro. E não porque, ali, nos esquecemos do mundo, mas porque, por um instante, ele pareceu possível de novo. Afinal, Mestiço Florilégio faz do teatro o que ele sempre foi: o lugar de um maravilhamento atento, desperto, em que, como canta Nóbrega acompanhado por Zé Pitoco, “nem era preciso dormir para se sonhar”.

Foi assim que, saindo da peça, de novo em terra firme, me transformei de boneca de madeira (engessada pelas dores e tarefas cotidianas) de volta em menina de verdade. E, cuspida pela baleia em plena Faria Lima, mesmo já com o asfalto nos pés, ainda fui capaz de ouvir os ecos das palavras mágicas do início do espetáculo – respeitável público, o mundo recomeça agora.


Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.

Thamires Araújo é dramaturga, atriz e tradutora. Bacharela em Letras (USP), pós-graduada em Dramaturgia: Cinema, Teatro e Televisão (Escola Superior de Artes Célia Helena), técnica em Dramaturgia (SP Escola de Teatro). Dramaturga e dramaturgista do Coletivo Nascente.