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 13 a 23 
 de Março 
 de 2025 

13 a 23 de Março de 2025

A quem interessa o luto de uma mãe?

por Renato Izepp

A provocação primordial de Quadra 16, com Cris Moreira, é o questionamento sobre a quem seria de interesse o luto de uma mãe.

Ao chegar, notei a atriz no palco, de pé, recebendo o público com o olhar. Uma mesa com um cesto, algumas laranjas, uma toalha de mesa, uma cadeira, um pequeno lixo e duas plantas – uma delas uma samambaia – compunham o cenário. Delicado. Acolhedor. Talvez só um ambiente assim pra receber uma história tão sensível e profunda como a que iria começar.

A atriz trouxe à cena o relato da sua gravidez de gêmeos (João e Francisco) e a consequente perda de um deles dois dias após o nascimento (Francisco). São compartilhados imagens e documentos, o que torna essa peça, além de autobiográfica e narrativa, também uma obra documental. Fotos do ultrassom e imagens do filho que sobreviveu (João). Esses elementos, em comunhão com o texto (excelente) e seu encadeamento (primoroso), acrescidos de metáforas (pontuais), inevitavelmente nos comovem.

Além da dor da perda do filho, a mãe relata todas as outras que teve que passar. Desde o termo pejorativo para condição de seu útero na gravidez (insuficiente) até perguntas e colocações descabidas de quem quer “ajudar”, à falta de cuidado por parte da equipe médica, entre outros. Apesar de toda dificuldade e dureza que passou, a atriz-mãe nos acolhe para sua história de forma delicada, como o cenário.

Quadra 16 desencadeia memórias. Lembrei que minha mãe, antes de me gerar, teve uma gestação interrompida com poucos meses. Eu nunca tive coragem de perguntar para ela sobre o ocorrido, com receio dessa lembrança afetá-la, por ser muito emotiva. Só imagino que meu nome, Renato, deva ser uma homenagem a esse irmão mais velho que não tive.

E, falando em nome, a própria explicação do nome da peça gera reflexão e traz uma potência para obra. Quadra 16 é como funcionários do cemitério identificam o local onde as crianças são sepultadas.

Retomo a indagação inicial: a quem interessa a história de uma mãe enlutada? Ouvindo o relato de Cris, aprendi sobre a grandeza e humanidade que uma mãe nessa condição pode carregar e o quanto a sociedade precisa se preparar para acolher mulheres que passam por isso.  

Quadra 16 é uma homenagem. Uma forma de fazer Francisco aqui, presente. É onde podem estar (em algum nível simbólico) essas crianças. Faz com que nós lamentemos sua perda e desejar abraçar todas as mães que perderam seus filhos no mundo. Mas é sobretudo uma homenagem a todas as mães em condição de luto silencioso e solitário. É sobre uma sociedade que precisa aprender a acolher esses lutos. Cris se acolheu e corajosamente divide essa história conosco.


Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.
Renato Izepp é ator formado pela Escola de Artes Célia Helena e com passagem pela Escola de Arte Dramática (USP). Faz parte do grupo Núcleo Teatro do Indivíduo. Idealizador e ator do espetáculo Pai-Brasil, que aborda relações militares, masculinas e paternas.