Crítica sobre o espetáculo Revolting Music – Inventário das canções de protesto que libertaram a África do Sul, por Valmir Santos (Teatrojornal – Leituras de Cena/ DocumentaCena)                                                              

Qual a extensão do poder da arte? Ela se manifesta ancestral, no caso do músico e compositor Neo Muyanga. Ou presume o calor da hora, a urgência, segundo a performance poético-política assim definida e concebida pelo DJ e ator-MC Eugênio Lima com mais de uma dezena de atuadores. Ambas as práticas e discursos sociopolíticos e criativos complementaram-se na mesma noite no Centro Cultural São Paulo. À apresentação do solo Revolting Music – Inventário das canções de protesto que libertaram a África do Sul seguiu-se a ação coletiva Em Legítima Defesa. O público da Sala Jardel Filho navegou pelas consciências musical, crítica e cidadã dos artistas negros que interligaram palco e plateia feito ágora africana, o continente-pólis-mãe que teve no Brasil uma das suas diásporas da escravidão cujas feridas ainda não cicatrizaram.

O sul-africano Muyanga logo avisa sobre a tarefa de dar a ver, sozinho, os cantos de luta que influenciaram sua visão de mundo na infância e na adolescência em Soweto, junto às comunidades afetadas pelo regime de segregação racial, o apartheid. Acompanhado de suas “máquinas”, um piano acústico, violão e pedais que criam efeitos de voz adicionais à habilidade natural de modular o registro vocal, de fato enxergamos e escutamos nele a capacidade de povoar o espaço com sua presença.

Não se trata de show com estrita sequência de músicas. A atmosfera de celebração e rito se faz com despojamento no set de instrumentos, na postura dialógica e bem humorada com o público, nas breves e pacientes introduções a cada canção ou bloco, no tratamento antiespetacular da luz amortecida em brancos e azuis de alguma melancolia – como a lembrar que a tristeza é senhora nessas história de dor e de esperança.

Cantando em inglês e, sobretudo, em dialetos africanos, Muyanga concentra na expressão de voz a sua linha de força. A voz é convertida em dispositivo cênico de imantar. Por meio do canto construímos imagens, por exemplo, do líder religioso de origem zulu, Isaiah Shembe (1869-1935), fundador de uma igreja que subvertia a proibição governamental da entrada de negros no local. Ou viajamos nos momentos mais percussivos quando mostra uma composição que tem raízes indianas, indonésias e chinesas, apesar da matriz africana, e emenda uma evocação a Fela Kuti (1938-1997), o ativista e multi-instrumentista nigeriano.

Em sua produção estética em que a melodia e os arranjos soam como extensões orgânicas do corpo, Muyanga parece um inventor de poemas fonéticos, visuais e evidentemente sonoros, numa integração que coloca a mensagem de protesto em outros modos de recepção, como o do espiritual e o da sensibilização. A veemência concreta se permite a delicadeza, também ela poderosa na arte – estamos diante de um criador parceiro do artista plástico conterrâneo William Kentridge, presente na 1ª MITsp com Ubu e a Comissão da Verdade, junto à Handspring Puppet Company.

Enquanto o pensamento era atiçado pelos afetos e consciências ali encerrados, na frontalidade com o palco e no estreitamento do vão, subitamente fomos recolocados em outra dimensão com os versos dos Racionais MCs: “A cada 4 pessoas mortas pela polícia, 3 são negras”, de Capítulo 4, versículo 3. É a deixa para o público girar o pescoço em direção aos fundos da sala e ver a fila de atores negros – a maioria ligada a outros coletivos da cidade de São Paulo – encarregados de propagar por entre as fileiras da plateia, em vários ângulos, outro formato de inventário à maneira da realidade brasileira contemporânea.

Como pesquisador e integrante do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos e da Frente 3 de Fevereiro, Eugênio Lima compilou ou sampleou discursos, depoimentos pessoais, músicas, poemas e outras referências sobre racismo, a afirmação da negritude e a contextualização histórica da diáspora negra. O público foi exatamente deslocado para enxergar no olho dos homens e mulheres da performance as desigualdades flagrantes. Ao verbo forte da resistência direta Em Legítima Defesa, entreouvimos nuances como a abordagem da homoafetividade e o lançamento do princípio africano do “ubuntu”, originário da cultura Bantu, que significa: “Sou o que sou devido ao que todos nós somos”.

Nessa noite em que se deu margem ao improviso e à rigorosidade formal dos criadores e dos espectadores-criadores, testemunhamos como a arte emana seus poderes quando não admite concessões e ambiciona sua razão poética de ser o invisível e gritar sua existência.

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