Crítica sobre galhada, em tempos de fissura, do Teatro do Instante.
Artur Kon.
A palestra-performance virou uma moda do contemporâneo, quase um produto de linha de montagem. Multiplicam-se peças no formato, e há até oficinas prometendo a cada participante sair com a sua em poucas semanas (por um preço módico). O modelo parece sintoma de um presente em que todos queremos falar (ouvir, já nem tanto); desejamos não só estar do lado certo, mas convencer o mundo disso. Como se acreditássemos que, se apenas o resto do planeta pensasse igual a nós, não viveríamos esta crise generalizada.
Isso ganha ainda mais força quando as artes, ainda mais precarizadas e sufocadas do que sempre, encontram um raro espaço de respiro na universidade (não tão menos precarizada assim, é verdade). Tudo isso poderia nos fazer desconfiar da criação do Teatro do Instante, grupo ligado ao Departamento de Artes Cênicas da UnB, onde são professoras a atriz e diretora Alice Stefânia e a diretora Giselle Rodrigues.
A sinopse diz que veremos “uma pesquisadora [que] expõe ideias em torno dos desafios planetários vividos hoje pela humanidade em colapso ambiental”. No papo com Cecília Salles após a apresentação (parte da ação “Pensamento-em-processo”), as próprias criadoras relataram uma vontade de didatismo, e que até têm se apresentado em contextos educacionais.
A obra, porém, nos obriga a repensar o que pode significar ser didático, como ideias podem ser expostas num palco, e como uma forma engessada pela repetição ainda pode ser decomposta por dentro – para virar adubo.
Antes que qualquer coisa seja dita, aparece na grande tela ao fundo o rosto da mesma mulher que está em cena; na imagem a vemos submersa na água e, embora o loop seja perceptível, o tempo do vídeo produz a sensação de que seu ar está acabando. No palco, a atriz cobre o rosto com a gola rolê da blusa marrom enquanto da coxia vem o som de uma motoserra. Será ela uma árvore prestes a ser abatida? Os ruídos se misturam a rugidos de fera e ao som de uma corda sendo retesada até quase arrebentar, enquanto a atriz se contorce sobre a mesa com as mãos tensionadas em garras. Sentimos no corpo a urgência, a iminência de colapso, e uma imensa angústia.
Talvez a angústia seja mesmo o afeto dominante da peça, por vezes transmutado em raiva ou desespero. Ou, para usar uma expressão em voga, parte-se da ecoansiedade reinante. Como nas palestras-performance que pululam por aí, uma questão absolutamente real.
Mas a peça não recusa a ficção, ainda que não se trate de uma fábula dramática tradicional. A pesquisadora que vemos não é simplesmente a atriz-pesquisadora (mas talvez também não deixe de ser?). É uma especialista num campo científico cujo extensíssimo nome seria impossível reproduzir sem cola, mas que entendemos concernir o meio-ambiente e sobretudo seu colapso.
Desde a piada com a impronunciável ciência, a peça se permite zombar do academicismo. Nisso difere de tantas palestras-performances que temos visto, inclusive estrelando celebridades da teoria.[1] Veja-se ainda o modo como a pesquisa bibliográfica aparece – ou melhor, não aparece: está integrada ao texto e à encenação sem ser explicitada. Diferente de obras que usam autores da moda em argumentos de autoridade, aqui as referências são palavras vivas na voz da atriz, por vezes até cantadas, e conceitos encarnados à flor da pele. Sim, está no programinha: ela leu Krenak, Viveiros de Castro, Leda Maria Martins etc. Mas sabe que o teatro não é bom meio para transmitir teorias. Leia os livros quem quiser, aqui a tarefa é outra.
Ainda assim, podemos pedir ajuda à filosofia para pensar essa tarefa. Por exemplo, pode (ou não) advir de Donna Haraway a introdução de elementos de ficção científica ou fabulação especulativa: ao longo da peça, são relatadas notícias datadas de séculos futuros, em que acontecimentos fantásticos passam a afetar a fauna e flora do planeta.
Um deles ganha centralidade ao atingir a própria personagem: seres humanos estão se transformando em plantas. O que poderia nos remeter a um ideal ingênuo de integração humanidade-natureza, pouco provável dada a atual animosidade entre os dois polos. Mas não é essa a aposta aqui: a mutação chega a ser descrita como uma estranha forma de câncer, tumores cutâneos provocados por uma alteração genética inexplicável. Uma canção resume a hipótese com ironia cruel: “a humanidade deu metástase”.
Mas, diz Hölderlin, “onde mora o perigo cresce também o que salva”. É esse germe mortífero – ao destruir o que já somos, o que nos trouxe até este ponto insustentável (na mesma canção, “do eu” se funde em “doeu”) – que abre o espaço onde pode surgir algo diferente.
Pode, apenas pode. O espetáculo não oferece solução. Mesmo no fim, quando frases projetadas sugerem o convívio mais próximo com animais e plantas, a imagem criada pelo corpo da atriz nos força a imaginar outras versões dessa utopia. Coberta por uma capa brilhante, com galhos formando chifres e o rosto novamente escondido pela gola marrom, ela dança como numa balada ao som de música eletrônica. Longe de qualquer idílio de reconciliação harmoniosa.
Também não ouvimos uma exposição que nos permitisse sair do teatro mais informados, mais conscientes ou seguros da nossa inteligência – objetivo assumido por parte do teatro político tradicional (e também certo teatro contemporâneo supostamente menos dogmático). Ora, isso não significa antiintelectualismo nem resignação. Mas sim rir de si, abrir-se à crítica, não escamotear contradição e não-saber, recusar a confortável pureza moral que julga à distância “os inimigos” (embora eles sejam nomeados).
Para citar de novo Haraway, a peça prefere ficar com o problema. Ou habitar a fissura citada no subtítulo. Assumir nossa impotência talvez seja o primeiro passo para descobrir uma potência diversa daquela em que vínhamos apostando.
A peça tem a coragem de não ser ativista. Muito mais “pós-ativista”, como propõe o filósofo nigeriano Báyò Akómoláfé (trazendo nossa própria citação bibliográfica). Troca a compulsão do agir – marca da modernidade ocidental (inclusive no teatro, na própria palavra drama) e corresponsável pela situação atual – pela abertura para outros sujeitos:
Uma fenda espumante se abre no chão, quebrando a totalidade e a cognoscibilidade inconsútil das coisas, perturbando a exclusividade da ação e da investigação humanas, dispersando a vitalidade e expandindo a sociabilidade para incluir coisas que não havíamos considerado. Tudo muda, torna-se mais estranho. […] Quando chegamos ao fim da linha, ao próprio fim do mundo, e não há mais palavras.[2]
[1] Como Grada Kilomba, que veio à MITsp de 2016 com Descolonizando o pensamento (ou melhor, Decolonizing Knowledge), ou Bruno Latour, cuja Trilogia Terrestre foi apresentada ano passado a São Paulo (já sem a presença do próprio autor, morto em 2022).
[2] Báyò Akómoláfé, “What I Mean by Postactivism”. https://www.bayoakomolafe.net/post/what-i-mean-by-postactivism.