Críticas

Dançar o Inenarrável

Crítica sobre Cavucada – A Festa Não Será Amanhã, da Cia Dançurbana.

Por Malu Barsanelli.

A campo-grandense Cia Dançurbana carrega algumas décadas de história. Nasceu em 2002 como um ponto de encontro para jovens participantes de projetos sociais, um espaço de preparação profissional focado em vivências das danças urbanas. Aos poucos, as práticas do coletivo foram se expandindo para outras linguagens coreográficas, e o grupo foi criando redes de colaboração e articulação com outros artistas da região.

Cavucada – A Festa Não Será Amanhã é uma espécie de celebração desses mais de 20 anos de existência da companhia. E o que se propõe em cena é efetivamente uma festa, num ambiente permeado por efeitos de globo de luz e fumaça cênica. Os espectadores são convidados a entrar e participar da pista em meio aos atores, embaralhando a ideia de quem é elenco e quem é plateia. De dentro da festividade, surgem coreografias individuais e coletivas, que perpassam uma diversidade de gêneros. Entram em cena o funk, o vogue, o hip-hop, o axé, a dança contemporânea e até coreografias do TikTok. Como um grande pot-pourri de linguagens da dança.

O espetáculo-festa, que conta com encenação dos diretores convidados Jorge Alencar e Neto Machado, de Salvador, aparece ainda como um gesto retrospectivo: um trabalho que revisita criações da companhia, atmosferas e impulsos que atravessaram mais de duas décadas de atuação do grupo. A proposta, explicam os artistas, é explorar as memórias e individualidades do elenco, formado por corpos bastante diversos. É “contar o inenarrável”, diz uma das atrizes durante a apresentação.

Essa sucessão de quadros e rememorações, no entanto, nem sempre produz deslocamentos significativos. Não existe uma narrativa que se estruture como um todo conectado de significados, mas cenas soltas que nem sempre se relacionam ou criam camadas de sentido. Ao apresentar uma colagem de coreografias populares costuradas a fragmentos de espetáculos anteriores do grupo, sem contexto ou referência, perde-se o fio da trama e o jogo com o público – importante partícipe dessa montagem.

O gesto de revistar a história, que poderia abrir espaço para outras fricções e reinterpretações críticas, acaba por limitar-se a uma sequência de gestos que apenas evocam o passado, sem se aprofundar ou questionar em suas próprias premissas.

Do título (Cavucada é um passo do brega funk que mexe a pelve e todo o corpo com vitalidade) e do subtítulo do trabalho (A Festa Não Será Amanhã), pode-se presumir uma ideia hedonista, uma proposta de carpe diem, aproveitar o momento, o aqui e agora, com intensidade. Mas como partilhar dessa festa em que nos faltam significados?

Cavucada é apresentado na MITbr dentro do projeto Conexões Centro-Oeste, um valoroso esforço para visibilizar produções de uma cena ainda muito pouco conhecida nos palcos paulistanos. Nesse caldeirão de referências do espetáculo, contudo, a sensação é a de que há muita informação, uma certa cacofonia, e nos faltam ferramentas para apreender, de fato, a identidade dessa produção.