Crítica sobre Quem matou meu pai, de Édouard Louis, com direção de Thomas Ostermeier | Schaubühne.
Por Amilton de Azevedo.
Édouard Louis começa Quem matou meu pai, o livro, com uma rubrica que aponta como seria seu início caso este fosse um texto teatral: “Um pai e um filho estão a alguns metros um do outro num grande espaço, vasto e vazio”. Thomas Ostermeier faz de Quem matou meu pai, a peça, um monólogo onde Louis desesperadamente busca a atenção do pai, uma poltrona vazia. “Só o filho fala”, segue a rubrica, “as primeiras frases que diz são lidas numa folha de papel ou numa tela, ele tenta se dirigir ao pai, mas, não se sabe por quê, é como se o pai não pudesse ouvi-lo”. Enquanto o público encontra seus assentos no Teatro Paulo Autran, Louis está diante do computador. O gesto de emular o momento, o ato da escrita, é a aposta da encenação: Ostermeier faz de Louis, ator, intérprete de Louis, autor.
No cenário, uma cadeira atrás da mesa onde está o computador e mais alguns elementos cênicos, outra cadeira ao lado, que recebe um abajur; uma poltrona vazia, representação da ausência (do pai, mas também do filho), outra cadeira, plástica, precária, de aparente fragilidade (do filho diante do pai) e três microfones. O painel que recebe projeções ao fundo e também o piso se parecem muito com os de História da Violência; a lida com as possibilidades dos livros operada por Ostermeier parecem seguir a mesma lógica, sendo as encenações quase irmãs, diferenciando-se a partir das estruturas oferecidas pelos livros em questão.
Tais semelhanças, assim como algumas das escolhas do diretor, são uma espécie de eco do conjunto literário de Louis: um quebra-cabeça onde algumas peças se sobrepõem, repetidas no recontar de histórias que se reorganizam no próprio contar; e poucas faltam, no sentido da autoridade do autor sobre as narrativas apresentadas que quase não deixa lacunas. Em Quem matou meu pai, a dimensão e os ritmos da videografia são, ao lado da trilha sonora, principais moduladoras da encenação. Vemos estradas enevoadas, cidades vazias e a desolação de paisagens, como que ambicionando resgatar o irretornável do passado presentificado; e o vazio dessas imagens de algum modo confronta-se com o domínio quase total de Louis sobre o narrado, vivido, percebido, elaborado. As palavras do autor já são habitadas por sua voz quando lidas; no encenar, o que pode o teatro enquanto linguagem?
Ao escolher fazer do palco uma cena de escrita, Ostermeier torna a peça uma reiteração do real do livro, talvez confiando na força da mera presença de Louis como artífice não dos acontecimentos de sua vida e de seu pai, mas da representação do tempo de suas percepções, reflexões e a escrita sobre o que se viu, testemunhou, viveu. Pode-se pensar que Quem matou meu pai, o livro, fixa aquela narrativa, enquanto o teatro a reapresenta, talvez dando a ver uma maior possibilidade de transformação, em especial na denúncia do final, onde os nomes de políticos franceses são ditos em voz alta e algo como um ritual se produz em cena. No todo, verifica-se uma frieza do contar: Louis parece restrito a uma interpretação quase monocórdica das próprias palavras.
Em diversos momentos de sua obra, Louis fala sobre “provocar a literatura” (Monique se liberta); sobre “escrever contra a literatura” (Lutas e metamorfoses de uma mulher); ao mesmo tempo em que sabia que ela seria uma das ferramentas que o levariam a uma nova vida(Mudar: Método). Em Quem matou meu pai, escreve que não tem medo de se repetir pois o que ele diz “não atende às exigências da literatura, mas às da necessidade e da urgência, às do fogo”. Certa vez, Georges Bataille escreveuque “a literatura é mesmo, como a transgressão da lei moral, um perigo. Sendo inorgânica, ela é irresponsável. Nada repousa sobre ela. Ela pode dizer tudo”. Diante do tudo que se pode dizer nos livros, o que diz o teatro? Ainda: como diz o teatro? Levar à cena a obra de Louis implicaria encenar contra o teatro?
Tudo que está em Quem matou meu pai está, de algum modo, no livro. A miséria, as violências, o desejo do olhar, do amor paterno. Também a consciência profunda do autor, uma perspectiva que arrisca ser percebida como cinismo, arrogância. As composições de Ostermeier redimensionam a cena de (re)escrita que se torna a obra. Sua direção, sua visão da obra, revela-se nas escolhas de deslocamentos da fruição: a recorrência de números de dança e lipsync e o investimento na teatralidade do momento em que a narrativa torna-se abertamente manifesto político.
No primeiro caso, são três lances sobre a relação entre pai e filho, criança viada: o momento em que Louis descobre, por meio de sua mãe, que seu pai já dançou; o momento em que seu pai desvia o olhar para não ver a coreografia de Barbie Girl; o momento em que seu pai deu o presente desejado, o VHS de Titanic. Ver além do que se pressupunha; não ser visto; ser visto. Ostermeier não desenha cenas coreografadas ou faz destes momentos radicalmente espetaculares; há algo de bobo, ingênuo, um brincar infantil. Ajoelhar-se diante da poltrona vazia enquanto Celine Dion canta “you’re here, there’s nothing I fear” (“você está aqui, não tenho nada a temer”) é uma imagem triste, uma ação que dá a ver o quase-ridículo, quase-insuperável, desejo do filho pelo olhar do pai.
Ostermeier parece compreender a potência da identificação do público com essa criança quebrada, e talvez seja a partir disso que se opera as mudanças da lógica cênica na direção do manifesto: Louis veste capa, chapéu e máscara, como a fotografia de si criança que se vê projetada, e é como se Quem matou meu pai buscasse unir os tempos, trazendo narração e ensejo de ação política no momento presente para elencar o nome daquelas e daqueles cujo poder condenou e condena multidões. O autor-ator faz de si herói e resulta algo de irônico na composição daquele ritual, quixotesco entre o denunciar de primeiros-ministros e o estalar de estalinhos e a fumaça em uma vasilha.
Abandonada a naturalidade que havia no contar de tudo o que se disse antes, o gesto teatral faz da (necro)política a materialidade que povoa a encenação. Uma criança em sua camiseta do Pokémon, uma família pobre de uma pequena cidade do interior da França, um acidente numa fábrica, decisões tomadas a uma lonjura insuperável daquela realidade: Quem matou meu pai encena distâncias e ausências enquanto mantém suspensa a questão de como a presença pode fabular a si mesma.