Crítica sobre as obras da PERFORMA12h.
Por Amilton de Azevedo.
Anunciado como desejo antigo para a programação, a 11ª MITsp realizou pela primeira vez a PERFORMA12h. O Instituto Brasileiro de Teatro (iBT) recebeu cinco obras de coletivos e artistas pretos entre quinta e sexta-feira. A ação integra a MITbr – Plataforma Brasil, que neste ano pulverizou-se em distintos eixos, entre convocatória nacional, espetáculos convidados, aberturas de processo, Conexões Centro-Oeste e essa virada performativa. Sob a curadoria de Rodrigo Severo, a PERFORMA12h orientou-se pelo título Resistência Festiva: Corpos em Festa, Corpos em Luta. Nos cinco trabalhos, estéticas e organizações radicalmente diversas seguiram-se noite adentro; este texto buscará falar brevemente sobre cada manifestação e depois articular reflexões a partir da dramaturgia que se compôs no acúmulo, na fricção da fruição da sequência vista em palcos, salas, salões e praças nessas quase doze horas, compreendendo-a no contexto de uma mostra internacional de teatro.
Aparição, Nego Fugido
Fazer-se retinto: peles negras, máscaras negras. Com carvão e óleo, integrantes do Nego Fugido de Acupe, no Recôncavo Baiano, paramentam-se como Negas e Caçadores enquanto são observados pelo Capitão do Mato, pelo Rei e sua guarda, fardada como policiais militares. Não é simples categorizar Aparição, Nego Fugido, que habita um lugar entre tradição, representação, ritual e performance. A linguagem é um dos muitos cruzos da manifestação. Entre dar a ver um transe e estar em transe, algo se mantém suspenso na compreensão do que está realmente acontecendo. Desde o início, no iBT, a transformação do espaço se percebia também na transformação da energia. Ao chegar na Praça da Sé, acompanhado do badalar do sino da catedral, uma Nega mancha de sangue o marco zero. Representação histórica de lutas de libertação, riso e violência coexistem no brincar do popular, entre súplicas e combates. Aparição, Nego Fugido sintetizou um mês de festejos em cerca de duas horas, dando a ver seu recontar anual da história que não deixa de lado a contradição, a dor, a permanência, a repetição. Após a aparição, o grupo queima as saias de folha de bananeira, finalizando o ritual; na imagem, reforça-se o incooptável, incapturável de certas manifestações, ainda que inseridas em circuitos de arte.
Cabeça de Cabaças
Keila-Sankofa, paramentada, surge nas escadarias da Catedral da Sé. Ainda ouvem-se os tambores e cantos que reverberam o final de Aparição, Nego Fugido quando o Cabeça de Cabaças agita suas cuias; umas e outras caem, uma viatura passa com seu giroflex, a cidade mistura-se com outros sons, sons outros. Uma menina curiosa tenta chamar sua atenção, uma mulher da praça quer entregar-lhe flores e um abraço. Já entre as pessoas, um homem tromba agressivamente na presença manifestada. Ataques, revides, algo de impensável; Cabeça de Cabaças organiza-se então como contrafeitiço. Agora vemos o rosto de Keila-Sankofa e o percurso entre a Sé e o iBT será da ordem das perturbações, provocações, mas também do afeto; entregar uma flor a um homem que senta sob um cesto de lixo, brincar e caminhar de mãos dadas com integrantes do Nego Fugido. Cabeça de Cabaças é um eco de outros tempos, de subterrâneos, quando soa e quando silêncio. Correr, correr, chegar, parar, olhar, falar, manifestar: sobre o peso de carregar o mundo na cabeça, sobre o tanto de invisível; e fim.
Axexê da Negra ou O Descanso das Mulheres que Mereciam ser Amadas
Renata Felinto conduz um pequeno cortejo entre o subsolo do iBT e o Palco Praça. Enrolado em seu peito, algo que poderia carregar um bebê. Em Axexê da Negra seus moveres são de zelo, cuidado, mistério, segredo. Nas paisagens sonoras lentamente construídas, sons e cantos, chaves e portas. Ranger, entrever: num gesto demorado, Felinto circula enquanto mostra representações de mulheres pretas e crianças brancas. Sem pressa, distribui escolhendo a quem, enquanto cada vez mais pessoas querem ganhar esses pequenos retratos. Tempo, atenção, tranquilidade. Tempo para ver e então tempo para enterrar. A Negra de Tarsila do Amaral surge ampliada; despedir-se dessas representações. Enterra-se imagem a imagem. O tempo do destrançar, do repouso. Ao se banhar, Felinto se faz renascer, vestindo o que carregava nos braços.
Transcrições Consanguíneas
Panamby diz sobre aparições e coisas não-vistas. Vemos sombras nas suas costas, marcas e dizeres que ficaram das agulhas de Transcrições Consanguíneas anteriores; a performance se dá na ordem de acúmulos: sonoros, visuais. Os efeitos da escarificação, do tatuar sem tinta, que inicialmente apenas é, é o ato, o acontecimento, aos poucos vão se vendo no artista, no público. Dói, há uma matriz sacrificial ainda que sutil na aparição literal, no ver nascer palavra encarnada. Uma caixa de cordas e pedras é mobilizada por Panamby, sua voz feita atmosfera, suas mãos criando loops, sonoridades se imiscuem, quase não se ouve o zumbido da máquina de tatuagem. Nos vídeos, fractais, repetições, outras performances, partes, escritos, detalhes. Nas palavras, falas-aforismos, histórias e pérolas. Um futuro sangue. Transcrições Consanguíneas é uma obra de composição e distorção. Uma performance aos de antes, dos de agora.
Mandinga Major Ball
Na madrugada, a MITsp recebe uma ball. Depois da primeira edição realizada em Salvador (BA), Puma Camillê e o coletivo multiartistico LGBTQIAPN+ Capoeira para Todes trazem sua Mandinga Major Ball para a PERFORMA12h. Lá estão os códigos da ballroom, lá está sobretudo sua comunidade; três categorias e as falas e acontecimentos que dão a ver que se trata de questões muito além do ganhar e do perder. Travestis pretas em estado de resistência e realeza, corpos e corpas celebrades em suas belezas. Na trilha, o DJ e seus beats, mas também atabaques, pandeiros, berimbaus, uma guitarra. Ball, terreiro, capoeira; vogue, ginga, samba. A presença de uma mãe de santo, de quilombolas, receber, respeitar, acolher, agradecer, reconhecer o que veio antes, transformar todo o fundamento em axé e festa.
PERFORMA12h
Cada uma das performances lidou com diferentes materialidades e recursos cênicos (rituais?) para manifestar o visível e o invisível dos tempos. Estéticas de políticas latentes e estéticas de políticas imanentes. Iniciada e encerrada com acontecimentos coletivos da ordem das manifestações, onde o público é tornado parte e feito comunidade, a PERFORMA12h manteve-se vibrante, ainda que não se tenha efetivamente preenchido as doze horas consecutivas propostas, com durações menores que as previstas e intervalos que se tornaram respiros e lacunas.
Passado, presente e futuro se atravessam, portais se abrem e se fecham, e, dentro de uma MITsp, a curadoria de Rodrigo Severo faz pensar sobre o que é uma performance e como certas ações e aparições se inscrevem em determinados enquadramentos. Quais os modos de circulação do ancestral no circuito das artes? Como se vinculam tradições ao pensamento artístico contemporâneo; o quanto ele se dilata para absorver aparições sem cooptá-las? Como fruir o incapturável, como nomear o inenquadrável?
DESFAZER TRAMAS
Na composição de uma dramaturgia das cinco aparições, emerge da Resistência Festiva uma possibilidade de desfazer tramas em lances entre transe e representação histórica (Nego Fugido), no habitar percurso de som e movimento (Cabeça de Cabaça), no enterrar simbólico e no gesto cotidiano (Axexê da Negra), no meditar do sangue feito relato poético (Transcrições Consanguíneas) e no celebrar beleza e comunidade (Mandinga Major Ball). Ação, fúria, descanso, palavra, festa. Territórios e contextos, movimentos e transformações: uma mesma cantiga de capoeira é entoada em Aparição, Nego Fugido e na Mandinga Major Ball, separadas por horas da PERFORMA12h e por séculos, mas irmanadas pelo que não se encerra em si.