Crítica sobre Vogue Funk, de Patfudyda | Quafá Produções.
Por Malu Barsanelli.
Patfudyda, nome artístico da performer, coreógrafa e artista visual Wallace Ferreira, conta que seu trabalho se apoia numa estratégia de hackeamento: infiltrar o sistema e a engrenagem do mercado artístico não pelo confronto direto, mas pelo desvio, pela ginga. Esse movimento de esquiva seria uma tática de sobrevivência de corpos como o seu, negro e não binário, mais suscetíveis em situações de embate. “É como eu permaneço viva, como eu atravesso e escapo das coisas. […] Acredito muito que os meus trabalhos buscam criar uma nova possibilidade de existência. Não uma nova, mas uma outra possibilidade”, explicou em entrevista à edição 2025 da revista Cartografias, da MITsp.
Artista da dança desde muito nova (estudou balé, jazz, danças urbanas), ela foi ganhando reconhecimento em outro circuito, o das galerias de arte. Aos poucos, começou a ser notada e a ocupar mais e mais os palcos, mas o trânsito de linguagens permaneceu na sua obra, sempre aberta a ocupar locais distintos. Não é difícil imaginar como o seu processo de hackeamento possa ter levado a essa maleabilidade, uma das maiores forças de suas criações.
É o que se vê em Vogue Funk, que conta com sua direção-geral. O espetáculo propõe uma costura entre as culturas do ballroom e do baile funk, movimentos nascidos em momentos e contextos distintos, mas que ainda assim guardam semelhanças nas suas origens, periféricas e predominantemente pretas, além da sua essência: símbolos de resistência política, social e cultural.
No espaço cênico, encontram-se performers dessas duas vertentes, referências em suas linguagens – caso da própria diretora, que leva o título de Legendary, concedido a figuras de destaque na cultura do ballroom. Trazem uma variedade de movimentos típicos, criando um tráfego entre os dois gêneros. Um passinho do funk leva a um catwalk do vogue; o gesto de um desemboca no outro, quase como algo dado, familiar. Há cenas solo, de dança, performance, texto e canto, mas o que tece a narrativa é o coletivo. São coreografias feitas, muitas vezes, no estilo das batalhas comuns às danças urbanas. Mas este campo não é de disputa, e sim de encontro, de festa, de conciliação. Existe espaço para a identidade, assim como para a fluidez.
Algo que de certo modo une esse coro são as sobreposições de imagens, de poses “insubordinadas” dos performers, semelhante ao que se vê na trilogia de Repertórios, criação de Patfudyda e Davi Pontes, cuja última parte foi encenada na MITbr um ano antes. Trata-se de momentos de contemplação daqueles corpos, posicionados de modo escultural. E também de provocação, de refletir sobre quem pode ocupar aquele espaço e de que maneira, de projetar novas possibilidades de existência.
As imagens “insubordinadas”, que atravessam gêneros, não se limitam aos corpos, mas também às indumentárias. Como a performer que manipula um chicote como se fizesse as vezes de instrumento de dominação, cauda animalesca e símbolo fálico. Ou a personagem mascarada, de vestido bufante ilustrado de símbolos estadunidenses (de Abraham Lincoln à Estátua da Liberdade), que atravessa o espaço em um pulsante duckwalk – aquele saltar agachado, acompanhado de movimentos marcados de braços. Ou ainda a imagem de um par de chinelos (calçado de boa parte do elenco) deixado sozinho sobre o piso branco do palco, como se fosse ele mesmo protagonista da cena.
Há ainda uma ironia na ideia de dar voz a essas personagens comumente marginalizadas. Quando uma delas pede a palavra (“eu quero falar!”), logo é munida de um conjunto de microfones ao seu redor, um foco de luz e um silêncio que antecede a ação. Mas o que tem a dizer, por vezes, é apenas um tintilar de unhas ou um sacudir de quadris. Afinal, é delicado esse deslocamento de levar a rua, a cultura da periferia, para tomar o palco, para tomar o protagonismo de um espaço cênico tão central. E há um cuidado no espetáculo em fazer essa transposição sem perder a essência do jogo e da vivência da rua.
Vogue Funk transita o tempo todo nessa chave da fluidez. De fazer denúncia com humor, de mesclar linguagens, de confundir convenções de gênero. De combater pelas bordas.