Crítica sobre Epílogo, da companhia chameckilerner.
Por Daniel Guerra.
A diversidade, antes de virar discurso progressista e abstração da cultura empresarial, é dimensão concreta da vida biológica. De fato, em nenhum dos oito corpos nus expostos na arena de Epílogo, criação da companhia chameckilerner, encontramos quaisquer traços iguais entre si, fora a evidência, em todos, de duas pernas, dois braços, um torso, uma cabeça e um órgão reprodutor.
É nessa materialidade, esteticamente sustentada pelo enfoque quase exclusivo nos corpos, que Epílogo se fia para efetivar o que enuncia desde a sinopse. Neste conhecido elemento cênico da arte contemporânea, que, em certos casos, torna-se tão significativo quanto qualquer outro, está dito que ela pretende desafiar “o fetichismo da juventude eterna” e subverter “o corpo normativo”.
A trama conceitual de chameckilerner (companhia fundada no início dos anos 90, em Nova York, por duas paranaenses, e ainda veremos como essa informação pode ser importante) não se restringe, é verdade, apenas à sinopse, de modo que isso já bastaria para distinguí-la de outras tantas produções similares: aqui, os conceitos, não importa o quão superficiais ou elaborados (na verdade, tal como escritos, beiram o clichê da contemporaneidade), são verdadeiramente intrínsecos à estrutura artística.
Portanto, ao isolar corpos de carne, emoldurando-os como superfícies discursivas (estratégia já tradicional da dança contemporânea) nas quais se inscreveriam – segundo a sinopse – “histórias pessoais” e “experiências acumuladas”, a cena de Epílogo põe duas instâncias em conflito: o ideal ocidental da beleza versus a concretude carnal dos indivíduos.
Isso de fato acontece, ao menos no primeiro movimento da peça. Durante o seu desenvolvimento, a própria impossibilidade material de os corpos individuais sustentarem as poses pictóricas – extraídas de diversas pinturas, esculturas e fotos, todas antigas, clássicas ou modernas – que garante, a um só tempo, a suspensão tensa dos conflitos e o jogo imaginário com a paisagem cênica.
Cria-se então um coletivo provisório que, não sendo sequer formado por corpos especializados em dança, se rebela, quase que passivamente, contra a própria malha coreográfica que executa. É um paradoxo bonito de se ver. Cada pequeno fracasso gestual vai passo a passo significando muito, até que todos eles, juntos, constituem uma só atmosfera de cumplicidade, espraiada por entre o público, que está apropriadamente disposto ao redor e pode se olhar mutuamente, enquanto os sujeitos atuantes, dentro da arena, podem nos olhar e são por nós olhados.
O mais interessante nesse primeiro movimento é, portanto, essa leve e fresca oscilação, à qual o espectador pode se entregar, entre a contemplação mais ou menos desinteressada da coreografia e a articulação dos pensamentos que a memória e a imaginação, em lúdico conluio, vão gestando.
Caso insistisse só nos mecanismos da primeira parte, Epílogo seria um bom representante de certa dança contemporânea que, pelo menos desde os anos noventa, se especializou na crítica, negativa e radical, às superestruturas sociais imiscuídas em cada corpo assujeitado. Acontece que essa negatividade será rapidamente abandonada, antes mesmo de se consolidar em impulso estético determinado. O irônico é que nessa virada atua uma ideologia ela também noventista (para ser mais preciso, nasce igualmente nos primeiros vagidos da globalização e do multiculturalismo), mas que segue, como veremos, viva e forte entre nós.
Assim, a negatividade crítica será abandonada em prol de um outro projeto, quase imperceptível no início, mas bem evidente logo em seguida. Nele, aquelas marcas privadas, mas muito concretas, vão se transformando, paulatinamente, em pequenas idiossincrasias pessoais, miríade acumulativa de abstrações positivas; como se a tessitura de cicatrizes, outrora eloquentes em si, porque cheias de conteúdo histórico e social, tivessem de ser urgentemente harmonizadas num só jardim de peculiaridades afetuosas.
Então cedo, cedo demais, o que era complexidade relacional se torna adesão ao conhecido e reconhecido: o que era diferença concreta se dissolve em igualdade ideal. É, em suma, quando a depressão de um homem negro ou as seis cicatrizes cirúrgicas de uma mulher estarão passíveis de ser confundidas e niveladas pelo vício de alguém por, digamos, paçoca.
De modo que, a partir do segundo tempo, aquele gramado sintético que lhes serve de chão deixa de ser campo ambíguo em que se conjugavam ironias e descobertas e passa a representar algo como um céu transcendental. Pensando bem, um paraíso, muito similar àqueles que se vê em panfletos cristãos, com a diferença de que aqui não há “famílias brancas”, mas sim “corpos diversos”. A trilha sonora, intermitente mas onipresente, colabora com a impressão: harpejos sintetizados fluem e refluem em pulsos techno.
A partir de então, o espectador (ideal ele também, por que não, se a obra, de certa maneira, cria seu público) tem duas escolhas: ou fruir, sorrindo evidentemente, dessa vida além-vida como se ela fosse a incorporação terrena e efêmera de um ideal secreto e esperado; ou aguardar pacientemente pelo fim dessa espécie de pesadelo sorridente de uma ideologia que, descendo em forma de arte, nua e crua, flutua agora à sua frente, mostrando-lhe suas chagas e pedindo-lhe para que lhe creia (como na Revelação, sem a poder tocar, porém); mas, acima de tudo, intimando-lhe para que se integre – antes que seja tarde demais – ao coro dos confortáveis-apesar-de-tudo, que, provavelmente, ao apagar das luzes, e apesar do peso das suas dores, mas já libertos, desde o início aliás, de coisas como luta de classes e heranças coloniais, subirá, luminoso e aureolado – salvo, limpo, fofo – para o eterno colo-de-vó das trivialidades compartilhadas.