por Simone Waissman
Vagabundus é uma experiência sensorial. É aquele espetáculo que volta para casa com a gente. Saio diferente de como entrei. No final do espetáculo, olho para uma pessoa ao lado, mesmo sem conhecê-la, trocamos olhares de cumplicidade, como quem acabou de vivenciar uma experiência tão única. Saímos com uma sensação coletiva. Todos cantarolando a melodia da última música. E, assim, sigo cantarolando a música até chegar em casa.
A musicalidade do espetáculo nos conduz nessa experiência. Ao misturar músicas contemporâneas, tradicionais, gospel e barrocas, somos lembrados da importância do canto na História. Por muitas vezes, os cantos foram uma forma de manter vivas as tradições e ancestralidades de muitos povos, adaptando-se às necessidades de cada tempo e espaço.
Também por vezes, aqueles 13 corpos se tornaram 1 unidade, às vezes 2, 3, 4, 5 unidades. Tantas versatilidades que podem ser vistas e sentidas. Transitando do individual ao coletivo. Para além das músicas cantadas, o espetáculo tem sua própria melodia. Cada movimento é colocado de forma harmônica com movimento anterior. Essa sequência de movimentos nos transporta para a jornada desses povos. Foi possível sentir um pouco do dia a dia de seus vilarejos, sentir a tensão dos campos de batalha, ver os rituais espirituais, olhar as invasões e torcer pela resistências.
Vimos aqueles povos pedirem piedade, piedade, piedade! O papel do feminino também é marcado por movimentos, principalmente nos campos de batalha onde os comandos são dados por uma mulher. Através daqueles corpos na nossa frente, abrimos um portal para um passado-presente que se desloca no tempo e se traveste de outras formas.
O teatro, mesmo que ao vivo, ainda assim, acaba sendo uma experiência individual. Em Vagabundus, somos transportados para uma experiência coletiva. Somos convidados a fazer parte dessa unidade que se forma. Somos um grupo. O grupo das pessoas que escolheram estar naquele lugar e naquele momento, não importava se você era o público ou performer. Todos formamos uma unidade e terminamos com alegria! Uma energia indescritível se formou naquele teatro, para a gente jamais esquecer, como a alegria é revolucionária.
Chorei, me arrepiei, sorri, cantei e até dancei! Sim! Algo que somente quem estava ali poderia ter sentido.
Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.
Simone Waissman é cientista de dados e atriz, pós-graduada em Data Mining. Há mais de 5 anos integra arte e dados no mercado corporativo e agora explora essa fusão no teatro. Como atriz, dedica-se à autoficção, investigando narrativas e padrões.