por Jullia Leite
Um pedido de presença antes mesmo de entrarmos no espaço onde aconteceria o Repertório N. 3, de Davi Pontes e Wallace Ferreira. Um pedido de presença em uma quinta-feira às 21:00. Um pedido de presença para uma fila de pessoas em seus próprios vendavais.
Cheiro de incenso no espaço. Em meio à cidade, a gente se esconde nesse grande retângulo de cimento, cujo nome é Centro Cultural São Paulo.
A plateia refletida sempre me instiga. Todos se olhavam ansiosos pela entrada dos artistas. Era possível sentar em qualquer lugar, cadeiras, chão, andaimes. As pessoas ansiosas trocavam de lugar de tempos em tempos, procurando sempre pela melhor experiência. Se enganavam que existe um lugar específico para isso, pois a melhor experiência já tinha sido anunciada pouco tempo antes: a presença.
Pontes e Ferreira entraram: completo silêncio, concentração, admiração. O tempo foi suspenso por uma hora.
Sabe aquelas pessoas na sua vida que você não precisa dizer absolutamente nada pois elas te lêem com o olhar? É um tipo de conexão que encontramos em raros e necessários momentos. Pontes e Ferreira pareciam como essas pessoas, um para o outro.
Inicia-se um fluxo de movimentos, que me impressiona por sua sincronia do início ao fim, mas não só por isso. Dois corpos – vivos – em completa entrega. Dois corpos tão diferentes do meu e completamente nus. Completamente não! Os tênis eram figurinos e trilha sonora. O barulho da borracha do solado no cimento era a única sinfonia cabível. Além da cereja do bolo, uma unha de acrigel nas mãos de Ferreira: impecável.
Dos artistas, uma feição de tranquilidade, sustentando cada um dos seus movimentos, o que deixava tudo muito mais completo. Olhavam-me no olho, como olhavam para toda plateia. Movimentos repetitivos, sincronizados e sempre surpreendentes.
Retomada de espaços em meio ao público. Em completo silêncio, expressavam tudo.
Toda vez que eu entro em um museu e vejo algo esteticamente perfeito, sinto certa paz de espírito, como se por um momento tudo do mundo estivesse em seu lugar. Eu me sentia exatamente assim na apresentação: duas esculturas, o suor escorrendo pelos corpos e dando certo brilho. Mas não só por isso que eles brilhavam.
Aqueles corpos existiam em todas as dimensões ao mesmo tempo. Eles criavam símbolos e provocavam a plateia de maneira bastante firme. Imprevisíveis. Tanto quanto as marcas do suor no cimento e os desenhos que se formavam.
Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.
Jullia Leite estudou na Globe, Oficina dos Menestréis, Escola de Atores Wolf Maya, Academia Internacional de Cinema, Be True, Estúdio Estrela Strauss. Atuou na série Desejos e nas peças (In)Confessáveis e Álbum de Família.