por Eduardo Godoy
Sentado naquela cadeira, em frente ao palco, eu já sentia a força de Antonio Nóbrega. Era como se eu não estivesse em um teatro. Com Mestiço Florilégio, obra de Nóbrega e Rosane Almeida, fui transportado para o Nordeste. Ao ouvir o som do violino, não pude conter as lágrimas. Em minutos, a dupla mostrou a potência de artistas excepcionais.
Eu estava em São Paulo, mas, com aqueles setenta minutos, viajei para Caruaru, Arcoverde, Ceará, Bahia, Recife… Tal qual seu personagem Tonheta, eu estava de malas prontas para a melhor viagem do mundo: revisitar o Nordeste. Nóbrega e Rosane Almeida têm o que há de mais preciso nos artistas. A carreira deles é imensurável, mas estávamos diante de Nóbrega, mostrando sua humanidade de forma crua. No momento em que bilionários moldam nossas vivências, ele não hesita: “FUCK TRUMP”, “FUCK ELON MUSK”, deixando evidente o pensamento crítico do artista.
Quando Nóbrega diz que gosta de ser ator – mas se sente mais confortável como músico, ele embala músicas, incluindo uma inédita, “SEM ANISTIA”. O teatro inteiro ecoa o coro, reforçando: “Sem anistia para golpistas”, seguido de aplausos como protesto ao absurdo que presenciamos.
Em paralelo aos crimes do dia 8 de janeiro e aos pedidos de anistia, estávamos todos ali, gritando junto: “Não, não terá anistia para quem planejava um golpe”. Ao longo da peça, Nóbrega menciona o Brasil que agora respira, dizendo: “Conseguimos, né, minha gente?”, se referindo ao resultado da última eleição presidencial.
Esse é o Brasil de Nóbrega e Rosane: o Brasil dos que acreditam na democracia e nas artes. Esse é o Brasil que acredito e luto, como artista e ser humano. Como não linkar com a morte, representada por Rosane, que sugere mortes horríveis para Tonheta (personagem de Nóbrega)? Ele responde: “Se for pra morrer, que seja de rir”. Eu, que sou ator e comediante, me sinto representado por essa fala..
A peça segue desdobrando todo tipo de arte. E como não mencionar Nóbrega atuando como uma personagem na Av. Paulista passando despercebido? Ele, colorido e feliz, lembrava que a vida pode ser boa e que, às vezes, é preciso ser “cores” em meio ao cinza. Teatro bom é aquele em que o tempo passa e nem percebemos.
Ao final, Rosane pergunta: “Vocês querem ir embora? E se a gente finalizar com uma ciranda?” A plateia nem hesitou. Eu já estava em pé. Segurei a mão de Nóbrega e fui. A cultura do Nordeste merece ser exaltada todos os dias, seja na Faria Lima ou em qualquer lugar do mundo. A nossa cultura nos transforma e nos faz melhores. Licença que vou rodar no carrossel do destino.
Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.
Eduardo Godoy, natural de Recife, é formado em Teatro pela Escola Fiandeiros. Atuou em mais de dez espetáculos e hoje integra o Coletivo Impermanente. Atualmente vive em São Paulo.