Ministério da Cultura
e Redecard apresentam

 13 a 23 
 de Março 
 de 2025 

13 a 23 de Março de 2025

Repertório de resistência para existir no mundo

Repertório de resistência para existir no mundo

por Gui De Rose

Aclamado por ocasião da 35ª Bienal de São Paulo em 2023, Repertório N. 3 volta à capital paulista para a 10ª MITsp. Trata-se do terceiro episódio, que encerra a trilogia Repertório, fruto da profícua parceria entre Davi Pontes e Wallace Ferreira.

Com esse ciclo de trabalhos, que já foi apresentado em distintos palcos ao redor do mundo, Davi e Wallace estabeleceram uma linguagem em que corpo é resistência. Dessa forma, a trilogia Repertório, por meio da performance e da dança, denuncia a violência contra os corpos pretos, além de estabelecer, através de suas coreografias, formas de resistência e de estar no mundo.

Com base nessa premissa, a investigação dos artistas ocupa-se em desenvolver capacidades de se defender. Nesse sentido, as coreografias do espetáculo atravessam caminhos híbridos entre a dança e a autodefesa. O trabalho artístico ocupa-se em desenvolver táticas de sobrevivência, por meio de seu repertório coreográfico, onde se destacam gestos repetitivos, movimentos precisos e sinais de exaustão.

Digno de nota ainda é a inserção nas coreografias de Repertório N. 3 de poses e gestos do universo queer, que ampliam a materialização do ato de resistência para outros grupos expostos à violência diária e tidos como minoritários.

Hannah Arendt, filósofa política alemã, dizia que “toda dor pode ser suportada, se sobre ela puder ser contada uma história”. Segundo a mesma filósofa, “não se nasce igual, mas torna-se igual”. Em Repertório N. 3, são contadas diversas histórias sobre essas dores, mas não vemos vitimização. Há o corpo que dança, o corpo que resiste e torna-se igual, o corpo que ocupa espaços físicos ou se insere em meio ao público durante a performance, o corpo que se defende e não se sujeita a ninguém, o corpo que incansavelmente cria possibilidades de presença e existência em meio violência do mundo.

Repertório N. 3 traz essa mensagem de resistência e esperança, ante à longa história de violências sistemáticas sofridas por corpos pretos e outras minorias no Brasil e no mundo.

Recorrendo novamente à Hannah Arendt, “vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”. Para Pontes e Ferreira, o medo parece não existir. Tampouco haveria possibilidade de perda da esperança. O que existe em cena são corpos, dança e formas de resistência. 


Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.

Gui De Rose é ator, licenciado em Letras Português pela Universidade de Brasília (UnB), tecnólogo em Comércio Exterior pela Unisul, especialista em Relações Internacionais pela UnB, servidor público federal e analista de comércio exterior.