por Gui De Rose
Aclamado por ocasião da 35ª Bienal de São Paulo em 2023, Repertório N. 3 volta à capital paulista para a 10ª MITsp. Trata-se do terceiro episódio, que encerra a trilogia Repertório, fruto da profícua parceria entre Davi Pontes e Wallace Ferreira.
Com esse ciclo de trabalhos, que já foi apresentado em distintos palcos ao redor do mundo, Davi e Wallace estabeleceram uma linguagem em que corpo é resistência. Dessa forma, a trilogia Repertório, por meio da performance e da dança, denuncia a violência contra os corpos pretos, além de estabelecer, através de suas coreografias, formas de resistência e de estar no mundo.
Com base nessa premissa, a investigação dos artistas ocupa-se em desenvolver capacidades de se defender. Nesse sentido, as coreografias do espetáculo atravessam caminhos híbridos entre a dança e a autodefesa. O trabalho artístico ocupa-se em desenvolver táticas de sobrevivência, por meio de seu repertório coreográfico, onde se destacam gestos repetitivos, movimentos precisos e sinais de exaustão.
Digno de nota ainda é a inserção nas coreografias de Repertório N. 3 de poses e gestos do universo queer, que ampliam a materialização do ato de resistência para outros grupos expostos à violência diária e tidos como minoritários.
Hannah Arendt, filósofa política alemã, dizia que “toda dor pode ser suportada, se sobre ela puder ser contada uma história”. Segundo a mesma filósofa, “não se nasce igual, mas torna-se igual”. Em Repertório N. 3, são contadas diversas histórias sobre essas dores, mas não vemos vitimização. Há o corpo que dança, o corpo que resiste e torna-se igual, o corpo que ocupa espaços físicos ou se insere em meio ao público durante a performance, o corpo que se defende e não se sujeita a ninguém, o corpo que incansavelmente cria possibilidades de presença e existência em meio violência do mundo.
Repertório N. 3 traz essa mensagem de resistência e esperança, ante à longa história de violências sistemáticas sofridas por corpos pretos e outras minorias no Brasil e no mundo.
Recorrendo novamente à Hannah Arendt, “vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”. Para Pontes e Ferreira, o medo parece não existir. Tampouco haveria possibilidade de perda da esperança. O que existe em cena são corpos, dança e formas de resistência.
Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.
Gui De Rose é ator, licenciado em Letras Português pela Universidade de Brasília (UnB), tecnólogo em Comércio Exterior pela Unisul, especialista em Relações Internacionais pela UnB, servidor público federal e analista de comércio exterior.