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 13 a 23 
 de Março 
 de 2025 

13 a 23 de Março de 2025

O lago de espelhos de Guillermo Cacace

O lago de espelhos de Guillermo Cacace

por Thiene Okumura

Puxei o ar até que tivesse a sensação de que o peito fosse explodir e submergi num lago de espelhos. Eu era Nina, Masha, Arkadina, Boris ou Kostia. Quanto tempo  aguentaria o meu ar preso? Ar que insiste polvorosamente em se libertar, mudar de espaço e forma. O meu ar também era uma gaivota morta, alí.

Na remontagem Gaivota, dirigida por Guillermo Cacace, os pensamentos se apresentam junto da fundura das dores, amores e frustrações das personagens, interpretadas de maneira visceral e intensa, como na vida, por cinco atrizes. Desafiando as convenções teatrais.

Numa disposição cênica em formato de arena, com uma mesa em seu núcleo, elas se sentam junto ao público em uma leitura dramatizada cheia de símbolos e sutilezas. Fazendo com que o mesmo interaja ali, ocupando um lugar de voyerismo. Mais que isso até: sendo parte dos pensamentos mais íntimos de suas personagens.

Atrizes nuas de vaidade e alegorias, vestindo roupas cotidianas, ao redor de uma mesa, acompanhadas de microfones em pedestais, fazendo com que a projeção vocal se fizesse desnecessária, trazendo a densidade que o texto pede e “encasulando”, ainda mais, atrizes e público presentes naquela cúpula, numa atmosfera angustiante e aprisionada.

No início do espetáculo, Cacace coloca sobre a mesa informações do processo de feitura do trabalho. Advindo do isolamento causado pelo período pandêmico em 2020. Suas inteligentes escolhas vieram a partir de encontros on-line, até que chegassem naquele simples, intimista e hipnotizante formato.

Das escolhas que nos aproximam e que nos fazem “sentir parte”, destaca-se o uso da rubrica em primeira pessoa, fazendo da ação, movimento de pensamento da psique das personagens. Além de trazer a visão de Masha, personagem secundária no texto original, como o olhar primordial para a ramificação dos conflitos. É a partir dela que se constroi a história, em sua versão.

Adentramos a “cabeça” do Theatro Municipal de São Paulo e das personagens de Tchekhov.


Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.

Thiene Okumura é atriz, diretora de movimento e mãe. Graduada em Licenciatura em Teatro (UFPEL). Sócia-fundadora na Doma Dança, integrante do Coletivo Impermanente de Teatro e pesquisadora do teatro butô e suas ressonâncias.