por Angie Rodrigues
No espaço cênico de Graça, da Giradança, três corpos de mulheres ocupam o palco: Francisca Angélica, Jânia Santos e Joselma Soares. Estavam pintadas de vermelho e lilás, mas cada uma com detalhes distintos em suas pinturas corporais. Os olhos delas, pintados de vermelho, estavam fechados. Já os meus olhos estavam bem abertos e presos à imagem estática que as três compunham.
Eu me flagrei pensando no que deveria estar passando na cabeça daquelas três “estátuas” que aguardavam a entrada do público. Será que estariam curiosas para saber de nós tanto quanto estávamos para saber delas?
O movimento nasce no tempo dilatado. O início é sutil, quase imperceptível. Aos poucos, o olhar se ajusta, amplia-se, até que o gesto se torne legível. Graça convida à contemplação sensorial. Desde o primeiro instante, exige um olhar disposto a expandir-se, a captar o que se desenha na cena. Em dado momento, no meio do frame em câmera lenta, uma gota de suor escapa do rosto de uma das performers. No instante em que toca o chão, torna-se evidente a força despendida para realizar os movimentos sem demonstrar esforço.
Quanta força é necessária para sustentar a leveza? Como manter a graça em um mundo brutal para as mulheres? E, sobretudo, para mulheres pretas e PCDs, cujos corpos são constantemente postos à prova? São esses corpos que moldam e ressignificam imagens já conhecidas das representações femininas na sociedade. Com suas presenças e sonoridades, rompem o vazio da tela branca, preenchendo-a com delicadeza e força. No domínio do gesto e na condução de nossos olhares, emergem variações de ritmo, som e movimento – um jogo entre potência e sutileza, onde cada detalhe carrega muitas possibilidades de significados.
O prazer e o êxtase emergem organicamente, manifestando-se na explosão dos movimentos, nas cores que se misturam ao toque dos corpos. No encontro com o outro, há troca: desfaço-me de algumas das minhas cores e carrego comigo as suas. Graça não é apenas uma performance a ser vista, mas um acontecimento que nos atravessa, nos modifica, nos altera. É impossível sair o mesmo depois de um encontro que toca.
Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.
Angie Rodrigues é atriz, artista visual e produtora cultural, formada em Teatro (FURB). Faz parte do elenco artístico e da atual gestão da ONG Canto Cidadão, integra o elenco da peça O que meu corpo nu te conta?, do Coletivo Impermanente e direção de Marcelo Varzea.