por Nailanita Prette
Parto do julgamento que é impossível falar de dança “no” e “do” Brasil sem citar o coreógrafo Alejandro Ahmed, que fundou e solidificou sua carreira no Grupo Cena 11. Todavia, no ano de 2023, Ahmed passa a assinar como diretor artístico do Balé da Cidade de São Paulo. Quando eu soube da notícia, confesso que fiquei entusiasmada, dado meu apreço pelo trabalho do Cena 11. Mas, minha curiosidade maior era sobre como seria a direção artística dele.
Réquiem SP nos clama a refletirmos acerca do ritual de passagem da vida para a morte. Em uma cidade megalomaníaca, como a selva de pedra onde tudo acontece ao mesmo tempo, onde o tempo para a fruição, para os rituais são escassos, como fazer emergir as pausas que um luto requer?
A coreografia explorou a repetição, mas uma repetição que visava chegar à demasia, o esgotamento, mas aqui a peculiaridade de outros corpos que não foram ou estão construindo-se no habitat do coreógrafo e sua equipe parceira ditou as regras. Em cena, corpos verticalizados e que não se entregaram à gravidade gerada na dança clássica, ou seja, eram formas simétricas de corpos treinados na rigidez do balé.
Mas o que isso nos diz? Que aqueles moveres eram as suas fabulações, os seus anseios de pausa e de luto. São as suas formas de gritar.
Réquiem SP me fabulou a ideia de modernidade e, para explicitar a minha fabulação, convido para a conversa o ensaísta, crítico e pesquisador em dança André Lepecki. Para o autor, a modernidade é um projeto cinético do ocidente, que propicia a produção de corpos imersos em uma subjetividade que visa performar, no caso da dança, a motilidade exacerbada, que exerce referência para a vida cotidiana, de corpos obrigados e/ou coagidos a produzir.
Nesse sentido, elenco a ideia de corpo sem vontade da pesquisadora e coreógrafa Helena Bastos, uma ideia de corpo analisada por um viés expandido, que estabelece relações entre cidade, meio ambiente, contextos econômicos e sociais, política e estética. Nas palavras de Helena, um corpo sem vontade não exerce o desejo de existir nesta tendência produtivista que vivemos hoje. Cujo o mover sucede-se a partir da necessidade de outrem, das instâncias de poder. Ao apreciarmos Réquiem SP, que se constrói a partir do compromisso com movimentos ininterruptos, uma dança pautada na disciplina do corpo que precisa produzir, afinal estamos em SP.
Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.
Nailanita Prette é pesquisadora, crítica de dança e capricorniana. Doutoranda em Artes Cênicas pela USP/FAPESP, graduada em Dança pela UFV. Trabalha com pessoas em privação de liberdade, interessada nos modos de dançar e suas reverberações políticas e estéticas.