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 13 a 23 
 de Março 
 de 2025 

13 a 23 de Março de 2025

Entre o caos e a dança: a hipnotizante experiência de Réquiem SP

por Angie Rodrigues

O espetáculo Réquiem SP é uma verdadeira experiência sensorial, que joga o público no ritmo acelerado e caótico de São Paulo. Criado, dirigido e coreografado por Alejandro Ahmed, o trabalho mistura estilos de dança como balé, jumpstyle e danças urbanas populares, construindo uma linguagem própria e eletrizante. É como se a cidade ganhasse corpo no palco, pulsando sem parar.

A trilha sonora, com a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coral Paulistano, sob regência de Maíra Ferreira, é um show à parte. O contraste entre as composições de György Ligeti e o som eletrônico intenso de Venetian Snares (Aeron Funk) cria uma atmosfera que ora conduz ora desafia os bailarinos e o público. O som parece puxar o movimento, mas também bagunça as referências, tornando a experiência ainda mais instigante.

A peça é um espetáculo visual impressionante. Cada cena parece um quadro cinematográfico que se forma e se dissolve diante dos olhos, como se estivéssemos assistindo a um filme sendo editado ao vivo. Os jogos de luz e os enquadramentos transformam os corpos em elementos de um grande quebra-cabeça em movimento, onde tudo se conecta e se fragmenta ao mesmo tempo.

A performance oscila entre explosão e pausa, mas nunca deixa de vibrar. No segundo ato, a krumper convidada Bill Valkyrie rouba a cena com sua presença arrebatadora, expressões marcantes e um domínio corporal hipnotizante. Sua dança dialoga com a energia do Balé da Cidade de São Paulo, criando momentos de pura força e intensidade.

Réquiem SP não é um espetáculo fácil ou previsível. Ele provoca, incomoda e exige que o público mergulhe na experiência. Algumas pessoas reagem com estranhamento. Mas essa inquietação faz parte da proposta – a obra prende, desafia e não permite a indiferença.

As camadas de dança, música, luz e vídeo constroem um turbilhão sensorial que reflete o cotidiano frenético da cidade. Assim como São Paulo nunca para, a peça mantém seu fluxo contínuo, onde até os momentos de pausa são carregados de tensão. Como bem sintetizado pelo “intervalo”, mesmo quando respiro e paro, eu não paro. Réquiem SP não é apenas sobre morte e a cidade – ele é a cidade em movimento e a morte é o movimento final da vida, um turbilhão que engole, fascina e reverbera muito depois que o espetáculo termina.


Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.

Angie Rodrigues é atriz, artista visual e produtora cultural, formada em Teatro (FURB). Faz parte do elenco artístico e da atual gestão da ONG Canto Cidadão, integra o elenco da peça “O que meu corpo nu te conta?” do Coletivo Impermanente e direção de Marcelo Varzea.