por Mariana Barioni
Na mesa, havia taças de vinho, garrafas de água, guardanapos usados, o que eu via, como se diz no jargão do teatro, era um ambiente típico de “trabalho de mesa”, mas não foi o que Gaivota me fez sentir. A trilha sonora, que o próprio diretor Guillermo Cacace reproduz, melancólica, somada ao estado anímico das atrizes, era como estar à beira de um abismo emocional, e, no entanto, havia uma beleza indescritível nessa vulnerabilidade compartilhada.
Em meio à fumaça, avistei uma colega atriz, vestida toda de vermelho, com a pele branca e cabelos pretos, se destacou, linda (!), parecia uma cena de um filme de David Lynch, me fez questionar minha vocação: é assim que uma atriz deve apresentar-se ao mundo (?). Ri ao pensar que Arkadina poderia dizer algo assim e me recordo de um trecho: “Pensas que eu seria capaz de sair por aquela porta, nem que fosse só para vir ao jardim, de roupão e com o cabelo em desalinho? Jamais!”
Mas, à minha frente e ao meu lado, estavam cinco atrizes prestes a começar a função, sem artifício nenhum, vestidas apenas de suas vulnerabilidades. Senti que estavam prestes a dar um mergulho profundo. A função começou. E, de repente, estavam Arkadina, Kostia, Nina, Trigorin e Masha. A entrega foi tão intensa que consegui vê-las todas e visualizar o lago, a casa, o jardim.
Na excelente adaptação de Juan Ignacio Fernández, Masha tem maior protagonismo. Como se a conhecesse, me peguei sorrindo. Ela estava sendo vista. Desabei a chorar. Essência mais pura de Masha: a carga de viver sem pulsão de vida. Sombra exposta, mas acolhida sem julgamento.
Cacace consegue, através de suas atrizes, nos hipnotizar. É inconsciência crua, realidade nua, porém concisa. Desprovidas de qualquer ornamentação que possa desviar impactos emocionais, as atrizes se entregam, em uma escuta ativa e viva. Sombras continuam a ser expostas.
Apenas uma mesa e cinco atrizes e uma mãe, que se agarra desesperadamente a si mesma criando um abismo entre ela e seu filho, sombra poderosa da mãe narcisista. Consigo vê-la sem julgar, pois compreendo o mergulho que é a maternidade e o quão doloroso e trabalhoso é retornar a si mesma.
Apenas uma mesa e cinco atrizes e posso enxergar a dor de um filho abandonado pela mãe, a luta incessante de existir em sua mãe e, assim, existir.
Apenas uma mesa e cinco atrizes e sou completamente inundada pelas minhas próprias sombras. Saí do teatro em profunda introspecção.
Apenas uma mesa e cinco atrizes e ganhei uma sensação que ainda não havia experimentado, mas desconfio que essa sensação está no mesmo espaço-tempo que o amor de um diretor por suas atrizes.
Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.
Mariana Barioni é atriz, produtora, diretora de arte e mãe de dois. Estudando teatro desde os oito anos, formada no curso técnico de Artes Cênicas em 1996 e formada em Cinema pela Escola Internacional de Cine e Televisão de San Antonio de Los Baños (Cuba).