Ministério da Cultura
e Redecard apresentam

 13 a 23 
 de Março 
 de 2025 

13 a 23 de Março de 2025

Do som ao sopro

Do som ao sopro

por Renato Mascarenhas

É possível ser feliz na guerra? tReta, uma invasão performática faz imersão num cenário que se assemelha ao que os mais desavisados poderiam chamar de distópico ou pós-apocalíptico. Mas não estamos falando de um futuro hipotético ou de uma realidade fictícia. Em meio à escuridão, ouvimos ruídos e percebemos movimentações que não sabemos ao certo do que se tratam e nem podemos saber. A vida dos que se atrevem a viver deve ser conduzida com sigilo e cautela. Não é permitido ser livre.

O público é um corpo estranho na peça. Não se sabe de onde veio e por que está ali, mas, à medida em que demonstra não oferecer nenhum risco, os artistas se revelam na penumbra em suas atividades de expressão, num contexto histórico e social em que manifestações culturais, identitárias ou políticas são reprimidas e marginalizadas. E as sirenes da opressão estão sempre à ronda: vigilantes.

Em dado momento, tenho a sensação de estar em um cenário de guerra, mas sou surpreendido quando vejo manifestações de alegria e afeto quando os corpos se encontram, se unem, se apoiam, se abraçam e dançam. A dança está presente o tempo todo, como forma de afirmar a liberdade pessoal e coletiva em um mundo em que grupos dominantes tentam controlar ou impor normas sobre o corpo, o movimento e a expressão. Quando os corpos se juntam, percebemos a importância dessa união para não só sobreviver, mas também lutar. Lutar para existir, para ter voz, contra desigualdades sociais, econômicas e contra o apagamento cultural.

Ao sair do espetáculo, outro espectador me perguntou se aquela estética e linguagem me incomodavam de alguma forma, considerando que venho de uma bolha da classe média bem diferente da realidade retratada ali. De imediato respondi que não, que aprecio e admiro o trabalho apresentado, mas logo comecei a refletir sobre como é mais fácil responder isso em 2025.

Talvez, há quinze ou vinte anos, essa performance teria me causado algum estranhamento, mas, além das experiências pessoais que ampliaram o meu olhar com o passar dos anos, a própria sociedade passou por mudanças (com ajuda da tecnologia, de políticas públicas e da mobilização de grupos ativistas) que facilitaram a propagação de manifestações artísticas tão potentes quanto a do Original Bomber Crew. Isso só comprova a importância de trabalhos como tReta, no qual a arte tem o poder de transformar a sociedade, seja por meio da reflexão ou até mesmo como um convite a também participar dessa luta.


Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.

Renato Mascarenhas é ator formado pela Escola de Atores Wolf Maya, iniciou-se no teatro em 2006 em sua cidade natal: Goiânia. Participou de grupo de estudos do Grupo Tapa. Na oficina de autoficção de Marcelo Varzea, redescobriu a escrita, à qual se dedica atualmente.