por Marcio Tito
Dambudzo atravessa luz e sombra, ação e pausa, atuantes e público. Dá a ver um plano sequência itinerante e, por meio de estratégias tão simples quanto bem articuladas entre si, desperta na paisagem movimentos cujas imagens finais nos agarram reminiscências até então adormecidas.
Sombras, pés conduzindo bolas e vozes cujos pontos de partida não se definem por inteiro lentamente nos incluem em espaços públicos e familiares; portanto, à contraluz, também políticos, sociais e capazes de transparecer não somente dados culturais, mas também um tipo de sólida e densa expressão da vida.
Sensações, desejos e todos os tipos de interação entre aqueles e aquelas que compartilham ações, bem como entre aqueles e aquelas cujos pontos de vista vislumbram o estado de graça das relações humanas quando livres da violência, da exploração e dos demais efeitos colaterais do mundo como o reconhecemos nos dias atuais, formam a ideia de um espetáculo cuja sintaxe exercita o expediente da dança, contudo, no contexto do presente material, a “dança” como objeto autocentrado parece substituída pela ideia de um material cênico que faz dançarem as luzes e o espaço, mas também os corpos que representam e os corpos que assistem.
Comungando a supracitada atitude cênica, num misto entre presença e narrativa, tais configurações tornam o espaço um ritual festivo e vocacionado às interações não hierárquicas, horizontais e de livre associação, conforme os símbolos da cena se mesclam às experiências idiossincráticas, mesmo quando performadas de modo coletivo, como numa partida de futebol disputada no campo da memória.
Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.
Marcio Tito é dramaturgo e diretor teatral. Idealizador, editor e entrevistador no site Deus Ateu.