por Brenda Nadler
Quando terminou o espetáculo, os aplausos vieram tímidos, pois todos nós fomos arrebatados com a violência que Desmonte, do Grupo Girino, nos apresenta: a morte anunciada, a tragédia esperada e a impotência humana diante de tamanha crueldade.
Tive literalmente vontade de dormir um sono profundo e esperar que, ao acordar, estivesse em outra realidade. Um desejo de quem já passou pela “peneira” da morte inesperada.
Os “mortos” trazem as narrativas de suas vidas cotidianas. Vidas simples, mas que contêm a figura de todos nós: a mulher grávida que está ansiosa com a chegada do bebê; a anciã que costura roupas de noivas, borda, cuida das plantas e faz café; o operário da fábrica que está atento ao horário e cumpre sua função de fazer a mina funcionar.
Então, é notório que o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, na cidade de Brumadinho, em Minas Gerais, também “rompesse” para o lado mais vulnerável socialmente. E a pergunta que fica em nossas mentes é: até quando vidas serão aniquiladas pela federação, pelo governo, pela prefeitura, pela medicina, pela polícia, pela política, pelo feminicídio, pela impunidade, pela… pela…?
A morte anunciada, essa morte em primeiro plano, infelizmente já faz parte do cotidiano. E Desmonte nos faz concluir que estamos anestesiados como forma de sobrevivência.
A execução da trilha sonora é o fio condutor da história. As personagens se potencializam na atuação com bonecos, além da execução de câmeras e da disciplina rigorosa dos movimentos em cena. A luz do espetáculo é milimetricamente calculada. Destaque para a construção dos bonecos, das maquetes e miniaturas, da cenografia, da maquiagem e toda a técnica do audiovisual.
Por 50 minutos, o Grupo Girino fez reviver as 270 mortes e seus parentes, a fauna, a flora, os animais, os rios e a poluição. Todos estavam presentes ali, com suas dores, seus sonhos, suas raivas… Por isso, tão profundamente cruel. Por isso, tão profundamente humano.
Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.
Brenda Nadler é bailarina, coreógrafa, atriz, preparadora de elenco. Em 2021, foi codiretora e diretora de movimento em (In) Confessáveis, direção de Marcelo Varzea. Em 2023, foi coreógrafa e preparadora de elenco das novelas do SBT Poliana Moça e Romeu e Julieta.