por Rafael Ventuna
Na 5ª série, na aula de História, enquanto líamos sobre a Grécia Antiga, surgiu a pergunta:
– O que significa xenos?
A professora respondeu:
– Pros gregos, todo mundo que não era grego era chamado de xeno.
E seguimos a leitura, imaginando as lutas sangrentas dos espartanos e a vida elitista e dionisíaca dos atenienses.
Não foi criada a oportunidade para a gente discutir sobre alteridade. E cresci achando os gregos da Antiguidade muito autocentrados, a tal ponto de não fazerem distinção entre chineses, indianos, eslavos e árabes. Fosse lá quem fosse seria tratado como um “xeno qualquer”.
A gente também aprende que teatro, nos moldes eurocêntricos, também foi uma criação grega. Mas, depois que o mundo se conectou através da internet, descobrimos que o que de fato os gregos inventaram foi a ideia hegemônica e supremacista de uma sociedade ocidental. Afinal, no planeta, sociedades milenares já estavam sofisticando uma miríade de invenções, entre elas, as artes cênicas.
É muito simbólico que Vagabundus, um trabalho assinado pelo moçambicano Idio Chichava, tenha recebido a incumbência de abrir a programação da 10ª edição da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Aparentemente, esta alcunha de festival de teatro arregaçou de vez suas fronteiras e classificações de gêneros artísticos, tensionando mais temáticas do que linguagens, mais estéticas do que liturgias, mais conteúdo do que forma.
Vagabundus é, antes de tudo, uma experiência sensorial completa e generosa. Não apenas se vê, mas se ouve, se sente, nos arrepia e nos movimenta coletivamente. Pouco a pouco, a plateia vai se juntando aos que vagam, em referência ao povo maconde, cuja territorialidade cultural foi retalhada na partilha da África.
Vagabundus não é teatro, não é dança, não é performance, não é ópera, não é qualquer classificação jamais criada. É uma vagabundice inclassificável que mostra sua potência justamente por colocar em cena 13 corpos plenos em suas capacidades expressivas. E assim não faz diferença se a maioria das falas e cantos são em shimakonde. A gente vai se tornando aquilo ao fazer parte daquilo.
Porque não há vetor que venha comunicar “vocês não são como nós”. É o contrário: a mensagem é que estamos juntos na mesma travessia.
Se este for o anúncio do fim do teatro, que venha a completa vagabundice!
Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.
Rafael Ventuna é jornalista cultural, crítico de arte, MBA em Bens Culturais (FGV), mestrando em Artes Cênicas (USP), pesquisador vinculado ao LAPETT-ECA-USP-CNPq, diretor executivo da Ventuna Digital, colaborador da revista Bravo! e surfista nas horas mágicas.