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 13 a 23 
 de Março 
 de 2025 

13 a 23 de Março de 2025

A incerteza, os perigos, as sombras: a sensação de ser periférico

A incerteza, os perigos, as sombras: a sensação de ser periférico

por Renato Izepp

Ao adentrar aquele porão imenso todo escuro para ver tReta, uma invasão performática, com Original Bomber Crew, repleto de cheiros, luz e sons indistinguíveis que deixavam de cara um clima tenso no ar, logo me perguntei: o que será que vai acontecer aqui?

O público era uma massa de sombras naquele ambiente inquietante. Vultos mascarados passavam por mim e sumiram. Outro corpo passou, rápido, e também sumiu na escuridão/multidão. Latidos. Sirenes. Tensão. O que eu deveria temer?

Corpos chacoalharam, serpenteiaram, convidaram, provocaram. Havia um perigo sempre iminente. As performances aconteceram pelo espaço, obrigando o público a se mover. Fui provocado a me relacionar com tudo e todos naquele ambiente. Sentia como se estivesse em um transporte público lotado de manhã. Havia um clima de batalha, como também é imposto na realidade da coletividade periférica.

Por um átimo de segundo, eu temi esses corpos que passam provocando o público. Deveria temê-los? Reflito, então, sobre como as mídias em geral nos fazem temer corpos jovens periféricos.

Tudo ali queria espaço. Alguma coisa acontecia a alguns metros. Não dava pra ver. Havia muita gente na frente. Sempre tem gente na nossa frente! Seja nas multidões periféricas da cidade, seja nos transportes públicos.

tReta é uma peça sensorial que aflora os sentidos que a cidade provoca. Em especial, num corpo periférico, que precisa estar em relação a tantos outros corpos nos entremeios e espaços coletivos.

Escrevendo isso no metrô no dia seguinte pela manhã, percebo que cruzar São Paulo é uma batalha diária.

Um dos intérpretes dançou diante de mim e a cena acabou tão rapidamente quanto começou. A sensação de ser descartável permeia, assim como a reflexão sobre quais corpos são mais descartáveis nas urbanidades. 

tReta é sobre a borda. Recordei minha infância em Pirituba, onde a vergonha de ser periférico me acompanhava. Hoje, vejo a coragem desses jovens que não têm medo de se afirmar e expressar suas realidades.

Iniciou-se uma coreografia dos discursos moralistas. Fé. Há salvação? Se você é jovem e periférico, há um céu nessa nossa urbanidade pra você?

O Hino Nacional tocou e os corpos, antes dispersos, se encontraram, buscando coletividade. Sem as máscaras, se tornaram garotos que ensaiam um cabo de guerra, simbolizando a luta na urbanidade.

Ao final, um dos intérpretes apareceu com uma lata de spray que soltava chamas, evocando um clímax de tensão. Ele se posicionou na porta de saída. Uma voz do público pergunta “será que deveríamos pulá-lo para sair?”. Então, o intérprete abriu a porta, foi pro lado e sorriu. Respondi à voz mentalmente: “o perigo não são esses jovens”.


Este texto é uma produção para as Escritas Primordiais, da Prática da Crítica, no eixo Olhares Críticos da 10ª MITsp. A atividade é coordenada por Rafael Ventuna, com supervisão de Sayonara Pereira e produção de Alice Mogadouro.

Renato Izepp é ator formado pela Escola de Artes Célia Helena e com passagem pela Escola de Arte Dramática (USP). Faz parte do grupo Núcleo Teatro do Indivíduo. Idealizador e ator do espetáculo Pai-Brasil, que aborda relações militares, masculinas e paternas.