Por Letícia Manso

O discurso de um adolescente australiano recrutado pelo Estado Islâmico e uma chamada telefônica que virou meme na Colômbia são duas das falas interpretadas pelo elenco de Suíte n° 2, espetáculo que abriu a 5ª MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, na última quinta-feira (1).

“Achei necessária a utilização desses enunciados porque, de certa forma, produzem um impacto no mundo”, afirma o responsável pela criação e direção da peça, Joris Lacoste, artista em foco desta edição da MITsp.

O dramaturgo francês reuniu-se com o público para dialogar a respeito de seu processo criativo no sábado (3). O evento, parte da série de encontros Pensamento-em-Processo, ocorreu no Itaú Cultural e contou com a mediação de Lígia Souza de Oliveira, doutoranda da ECA-USP que estuda a linguagem no teatro contemporâneo.

“Nosso objetivo é questionar o lugar do texto no teatro”, disse, sobre o projeto Encyclopédie de la Parole (Enciclopédia da Fala), precursor do ciclo de suítes para coral produzidas por ele. O coletivo de artistas pesquisa a oralidade através da catalogação de gravações de áudio das mais variadas situações cotidianas.

Segundo Lacoste, o interesse reside “na singularidade da forma dos discursos, não no conteúdo”. Por isso, os arquivos são organizados de acordo com suas especificidades sonoras (timbre, origem, saturação, melodia). Como exemplo, o dramaturgo reproduziu um poema de Patti Smith e a narração em francês de uma corrida de cavalos, assemelhando-os em relação ao ritmo.

A vontade de compartilhar o conhecimento adquirido em anos de estudo levou o acervo aos palcos. “Um dia, pedi para uma atriz reproduzir um dos áudios. Parecia interessante a ideia de todas as falas atravessarem o mesmo corpo, ampliando as semelhanças e diferenças entre elas.”

Ao mesmo tempo, essa também é a maior dificuldade relatada por ele: “Como os espetáculos devem basear-se completamente em falas reais, embora extraídas de seus contextos originais, não é possível improvisar ou inventar situações, somente encaixá-las”, explicou.

Em Suíte n° 2, cinco atores e cantores europeus revezam-se para interpretar fielmente discursos em 15 línguas (inglês, japonês, francês, árabe, holandês, alemão, português, espanhol, russo, croata, lingala, chinês, dinamarquês, sânscrito e urdu), unificados pelo conceito de enunciados performativos, cunhado pelo filósofo britânico J. L. Austin.

O diretor usou os verbos “prometer”, “declarar” e “separar” para explicar o conceito ao público. “A partir do momento em que essas palavras são ditas, a realidade se transforma. Elas têm força ativa, não somente descritiva”. A peça explora a atuação desse tipo de linguagem no palco.

Uma novidade em relação a Suíte n° 1 também foi abordada: a participação do compositor Pierre-Yves Macé. Segundo Lacoste, o desejo de trabalhar, ao mesmo tempo, a harmonia da fala e a essência caótica do mundo foi o que impulsionou uma presença mais intensa da música no espetáculo.

Lacoste foi questionado sobre a representatividade e o lugar de fala, visto que, na obra, são reproduzidos discursos de pessoas de diferentes contextos. Alguns são considerados polêmicos, como a ameaça do jovem combatente do Estado Islâmico ou a discussão por telefone transformada em meme.

“Seria uma renúncia não os utilizar por causa do politicamente correto”, declara. Ele ainda contou que a produção procura sempre representar esses discursos de forma justa para desviar-se do caricato. A escolha e preparação do momento de cada fala é a principal ferramenta usada para esse fim.

Para Lacoste, “todas as falas do espetáculo trazem questões de representação”. Suíte n° 2 é, em suas palavras, “teatro de ação a partir de falas”.

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