PONTO DE VIRADA

--PONTO DE VIRADA

Crítica panorâmica a partir da programação da MITsp 2018, por Laís Machado (Plataforma Araká/BA)

Em meio ao caos político no qual estamos inseridos – com estabilização do golpe, aumento do discurso fascista e incertezas sobre as próximas eleições – aconteceu a quinta edição da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp). Em sua estrutura, nos materiais de divulgação e nas ações transversais, a mostra se propôs a dialogar com o momento político atual, questionar os limites da atuação da arte, o papel da crítica, o lugar do corpo e do discurso. E ao optar por se posicionar, expôs, de forma intencional ou não, aspectos muito importantes para pensar a política e a estética na contemporaneidade.

O primeiro aspecto apresentado é o lugar da palavra, que domina a cena e transforma-se em espaço de experimentação e de afirmação. Desde Suite nº2, passando por todos os espetáculos presentes na mostra oficial, a palavra possui uma centralidade na construção cênica, e aparece ainda nas três performances que também integravam a programação:Troco pontos de vista, AudioReflex e A gente se vê por aqui.

É curioso pensar que até poucos anos, a linguagem não verbal e/ou o discurso não linear tinham um certo domínio sobre a cena teatral contemporânea. No entanto, esse movimento percebido na MITsp faz sentido se observarmos que, mundialmente, estamos vivendo de maneira escancarada uma disputa de narrativas, na qual quem detém a versão hegemônica se vê ameaçado pelas narrativas marginais e diversas que historicamente foram silenciadas. É com esse universo que a arte dialoga, assumindo-se sóciopoliticamente engajada ou não.

Em Suite nº2, que faz parte do projeto intitulado enciclopédia da fala, do diretor francês Joris Lacoste, as palavras perdem remetente e seus discursos são incorporados numa sinfonia, orquestrados como se fossem instrumentos e recebendo, aos poucos, novos significados. O trabalho com a música, a assunção da necessidade de poucos elementos cenográficos e o ritmo crescente assumido pela obra convidam o espectador de maneira bastante generosa a mergulhar na atmosfera proposta e a construir novos sentidos.

Entretanto, todas essas vozes foram entregues a corpos brancos e europeus, que, dentro da lógica hegemônica, se pressupõem neutros, não racializados e universais. E ao assumirem vozes latino-americanas, negras ou de classes economicamente desfavorecidas acabavam por transformá-las em caricaturas risíveis.

Em Árvores abatidas, por outro lado, em que o universo é assumidamente ficcional, mais de quatro horas de peça dão voz à burguesia e seus conflitos existenciais. Neste espaço, a voz encontra seu corpo mais adequado, mas a minha pergunta é: A quem interessa ainda tais conflitos? A peça possui um cenário grandioso, e o trabalho de composição de seus personagens é bem executado, mas suas pausas longas, o tom de suas falas sempre tão parecidos provocam um cansaço evidente e gradativo, e se prolonga por tanto tempo, que me pergunto: o que mantém um espectador nesta experiência, a não ser que ele esteja diretamente implicado em tais conflitos?

“O que é arte”, “o que é o artista”, a vaidade, o ego e a hipocrisia da instituição familiar são discussões que surgem na história do teatro na segunda metade do século XIX. Época em que a burguesia, que ascendia em importância social, reivindicava se ver representada na cena. O curioso é que vivemos um momento semelhante de reinvindicação, mas por parte de grupos historicamente marginalizados pela burguesia e que geralmente encontram como resistência afirmações de que “a arte não deve nada a ninguém” ou que “a estética vem sendo negligenciada em prol da política”.

Essa discussão não foi ignorada pela MITsp, que trouxe na programação do eixo Olhares Críticos uma mesa intitulada Crítica não é censura: De quem é a arte que pode tudo?. Embora não se dispusesse a discutir diretamente o lugar social representado em Árvores Abatidas, foi uma mesa que deu visibilidade à fala destes grupos que têm reivindicado a cena.

Entretanto, apesar de a mostra ter aberto esse espaço no eixo de reflexões críticas, não foi possível ampliar a discussão para o debate estético. Isso se deve ao fato de que os espetáculos escolhidos para a mostra eram todos europeus, ou com algum vínculo com países europeus (somente as performances brasileiras surgiam como exceção a essa regra). Além disso, apenas uma obra possuía autoria não branca: sal., monólogo de Selina Thompson.

Para que a conversa sobre este paradoxo contemporâneo – representação x representatividade – possa avançar em termos estéticos, é preciso assumir que estamos falando de um terreno fértil e experimental. Novas narrativas pressupõem novas formas, e novas formas vêm sendo experimentadas não só internacionalmente, mas nacionalmente – sobretudo quando se leva em consideração a diversidade geográfica e cultural do país. E por se tratar de uma mostra internacional de teatro que tem tanta importância no cenário brasileiro, é preciso que a curadoria mergulhe nessa busca, a fim de conseguir compartilhar um panorama mais diversificado da produção teatral.

É necessário adotar uma postura decolonial de desierarquização dos saberes, das produções e dos modus operandi para que possamos entender o papel do fazer artístico diante do cenário sociopolítico que se desenha à nossa volta.

Este aspecto da discussão me faz lembrar da performance intitulada Troco pontos de vista, realizada na praça da República, onde a performer Ana Luisa Santos, vestindo um bodydoor, conversava com os passantes sem necessariamente impor nenhum assunto. Conversavam sobre o tema que surgisse, e, como sabemos, a rua é espaço da imprevisibilidade. Em alguns casos, a performer oferecia o ingresso de uma das peças da MITsp e se disponibilizava a assistir a essas obras com quem aceitasse o convite, para que pudessem seguir trocando pontos de vistas depois.

Pontos De Vista

Essa performance, em sua execução, não dispunha de nenhum elemento espetacular através do qual pessoas que não estivessem diretamente nela implicadas pudessem observá-la como espectadores. Porém, nos provocava a pensar no tom imperativo que as palavras têm assumido nas relações sociais. A ideia de trocar pontos de vista desierarquiza o saber e assume a existência de lugares de fala diferentes, mas reforça a possibilidade de diálogos entre eles.

Entretanto, horizontalizar as perspectivas não significa deixar de posicionar-se. Trata-se de uma abertura para o diálogo e para a trama de afetos que se engajam nas relações. Trata-se do reconhecimento dos privilégios históricos e da adoção de uma postura ativa em relação às questões que se propõem a discutir.

Na MITsp temos três exemplos nos quais a palavra, por ser insuficiente para traduzir a crueldade dos conflitos envolvidos, assume um caráter atenuador que coloca estas obras em um lugar neutro, e a neutralidade corrobora geralmente com o discurso hegemônico. Tais obras são: Campo Minado, Palmira e País Clandestino.

Em Campo Minado, a diretora argentina Lola Arias escolhe trabalhar com ex-combatentes não atores para pensar os efeitos do conflito das Malvinas em suas vidas. No entanto, ao “resolver” a questão em um nível pessoal, utilizando-se dos depoimentos desses veteranos sobre a guerra, o pós-guerra e sobre a convivência “forçada” durante o projeto, não se posiciona em relação ao aspecto macropolítico da Guerra das Malvinas. Palmira, por sua vez, deposita toda a responsabilidade de resolução do conflito no espectador. Abre a quarta parede, mas não cria nenhum dispositivo que mobilize a plateia a questionar as estruturas que estavam em jogo, inclusive, espaciais. E dessa forma, não se posiciona em relação ao conflito colocado na cena. Já em País Clandestino, que escolhe tratar da configuração política e social numa escala geograficamente mais ampla, ao colocar cinco países em relação, desconsidera os lugares sociais dos atores envolvidos. Com isso, os atores-personagens assumem pouca ou nenhuma responsabilidade em relação aos cinco conflitos políticos apresentados no começo da peça. Além do mais, as possibilidades de re-existência colocadas na cena só são possíveis às pessoas pertencentes ao único grupo social representado no espetáculo: branco, classe média e cisgênero.

Para finalizar, é preciso chamar a atenção para uma outra questão: o domínio da palavra, da enunciação, do depoimento, ofuscou um elemento que vem sendo debatido nacionalmente, diante das tentativas de censura e do avanço fascista: o corpo. A palavra, a enunciação, o depoimento, podem estar encarnados. E este engajamento entre o que dito e o corpo que diz não se fez presente na mostra oficial de espetáculos. Será um reflexo do que temos vivido no cenário político ou apenas uma diferença cultural entre o Brasil e o continente europeu?

No último dia da mostra, foi realizada uma mesa na Avenida Paulista, intitulada Amor e o Ódio ao corpo no Brasil, na qual participei como artista debatedora, ao lado de Gaudêncio Fidelis, curador do Queermuseu, e da atriz Leonarda Glück. Talvez pelo tema, ou pelo tom inflamado assumido durante a conversa, ou talvez pela simples exposição de nossos corpos na rua, alguns transeuntes que passavam pela avenida decidiram permanecer ali para acompanhar o debate. E ao se dirigirem ao microfone a fim de fazerem suas interferências, engajavam todo o corpo naquela simples ação. E nem estou falando de artistas do corpo, mas de pessoas muitas vezes externas ao campo da arte, que geralmente eram colocadas como “eles” nas discussões em que se homogeneizava o “nós”, durante a MITsp.

MESA-REDONDA – Amor e ódio ao corpo no Brasil

O corpo é memória, experiência, desejo e conexão. O corpo é o nosso modo de estar no mundo. E é também para onde os modos mais violentos de controle são direcionados. Que lugar o corpo deve assumir na cena contemporânea? E de que forma ele deve se relacionar com as narrativas que agora escapam de anos de silenciamento? O corpo e tais narrativas são coisas distintas?

Nenhuma dessas questões pode ser respondida, porque temos um problema anterior: não tivemos na grade da mostra oficial a diversidade discutida e presentificada nos Olhares Críticos, para que possamos criar outros critérios de análise e adotar padrões de referências diversos. Para que se avance na discussão da cena contemporânea, e simultaneamente na eficiência da atuação da produção artística no cenário político atual, é necessário reconhecer as outras vozes, e se permitir ser afetado de igual para igual por esses outros corpos, nossos corpos que reivindicam o lugar de sujeitos. Não sendo assim, não vejo saída. Nem política, nem estética.

Post scriptum: Na mesa O Amor e o Ódio ao Corpo no Brasil, comecei a minha fala perguntando se o corpo negro já vivenciou no Brasil algo que se aproximasse do que chamam ‘amor’. Argumentei que a censura que nossos corpos vivenciam é a invisibilização e a morte. Apontei que antes de essa crise moralista e violenta alcançar os corpos historicamente privilegiados, já consumia nossos corpos negros há bastante tempo, mas tal evento não era digno de comoções nacionais. E que por mais assustador (e ao mesmo tempo familiar) que seja o cenário que se desenha, não nos calaremos, pois já conhecemos o volume da nossa voz. Digo isso tudo apenas para lembrar que Marielle Franco vive.

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2018-03-19T19:03:22+00:00 19 de Março de 2018|Críticas|