CONVIDADOS SEM CONVITE

--CONVIDADOS SEM CONVITE

Crítica de atravessamento sobre programação da MITsp, por Renan Ji (Questão de Crítica/RJ)

Numa disputa cênica – e política – entre dois atores por um martelo, ser o espectador a tê-lo nas mãos. Acompanhar um jantar e sentir, na cadeira do teatro, o enfado de quem está à mesa, o peso de uma situação social e ideologicamente insustentável. Enfrentar a alteridade radical de um corpo e uma imaginação desviantes. Muitas das experiências proporcionadas pela MITsp envolveram uma qualidade de espectador que geralmente foge àquilo que normalmente se espera do teatro. Primeiramente, trata-se de um processo que está fora das dimensões de gosto pessoal, ou seja, fora do que se pensa à primeira vista acerca de gostar ou não gostar de uma obra de arte, ou ainda sobre a dose de entretenimento que ela nos oferece. Em segundo lugar, refiro-me a situações que até mesmo não se sobreponham totalmente à complexidade da experiência estética, imprimindo ao espectador algo que à primeira vista não é propriamente da ordem da ambiguidade de sentidos, da dimensão política ou formal da obra.

Explico: falo de um dado imediatamente concreto da recepção da obra da arte, de um lugar físico e afetivo que envolve a experiência teatral. A dimensão empírica de se estar no teatro parece ser um dado constitutivo de determinados espetáculos da mostra deste ano. É como se os trabalhos estabelecessem um lugar de fricção com as determinações concretas da presença do espectador, sujeito que se encontra sensorialmente implicado durante determinado espaço de tempo em tensão com a experiência cênica. Falo aqui de um espectador “incomodado”, que se encontra submetido a condições às vezes extremas de presença na plateia.

“Tensão” é aqui uma palavra decisiva: porque peças como Árvores Abatidas, do polonês Krystian Lupa; Palmira, de Nasi Voutsas e Bertrand Lesca; e Hamlet, dirigida por Boris Nikitin, parecem desafiar a percepção e o lugar do espectador no palco italiano. Não são operações de desmonte da estrutura tradicional do teatro, como o formato de arena, as dramaturgias itinerantes ou as que se dão no espaço urbano, por exemplo. Trata-se, antes, de um certo sentimento de desconforto físico e emocional, que envolvem afetos como o cansaço, o tédio, a inação indecisa ou até mesmo a exasperação. São peças que nos colocam em posições difíceis diante de um espetáculo, cujo desafio nos provoca de maneira pungente a questão: sou capaz de aderir a essa experiência?

Tal responsabilidade perpassa, claro, qualquer trabalho de arte. Assentir ou não a um espetáculo é etapa básica de toda e qualquer experiência teatral. No entanto, talvez pelas condições sensoriais árduas disponíveis ao público, essa dimensão de escolha se coloca de forma mais aguda: dramatiza-se, nessas peças, o dilema de nossa capacidade de assumir o compromisso de espectador. Em Árvores Abatidas, não apenas as quatro horas e quarenta minutos de peça cansam os sentidos, mas o próprio excesso discursivo embalado por longas sequências musicais desafiam nossa capacidade de acompanhar o ritmo da cena. A dramaturgia de Krystian Lupa instaura modulações sutis que à primeira vista enfadam a plateia. Porém, logo em seguida, o espectador parece se embriagar com esse tédio, conectando-se fisicamente com o grupo de artistas intelectuais decadentes, bêbados e tenazes na sua socialidade inútil. Saímos tão derrotados quanto os personagens, sentindo, junto aos atores, os limites de uma condição física quase insustentável.

Palmira

Em Palmira, por outro lado, o dado da exaustão nem é de longe um fator constitutivo. Porém, a oposição geopolítica e cultural que se estabelece entre os atores, possibilitada pelo jogo puramente cênico entre eles, leva a narrativa a um ponto de tensão que, na dramaturgia da peça, deve ser resolvida pelo espectador. No experimento de Nasi Voutsas e Bertrand Lesca, a demanda da dramaturgia de que o espectador resolva aquela ficção de repercussões colonialistas impõe um engajamento de cunho ético: um opressor pede a dado espectador que guarde um martelo; quando o oprimido lhe solicita este mesmo martelo, devemos dá-lo? Permitiremos a escalada do ódio ou equilibraremos um jogo de forças? As implicações desse dilema não permitem a passividade; observar, dependendo do caso, pode nem ser uma opção. Algo deve ser feito para a peça continuar e isso nos coloca como responsáveis diretos pela cena, demovendo-nos da zona de conforto da plateia.

Hamlet

Por fim, o Hamlet com Julian Meding, a meu ver, é um dos experimentos mais extremos em relação à desconstrução do espectador tradicional. Chama atenção o fato de que não há nenhuma alteração significativa na configuração estrutural da posição do espectador. Contudo, a presença de Meding no palco descortina uma experiência profunda de alteridade. A dramaturgia apresenta o corpo e a imaginação do jovem estabelecendo com os elementos biográficos um jogo de aparências. A identidade de Meding avança e recua constantemente, num espetáculo que se recusa a ser documento, mas se funda na singularidade. Não há a procura de um ‘nós’, de um contrato de qualquer natureza com o espectador: o corpo lânguido e a postura cínica de Meding encaram frontalmente a plateia e afirmam a totalidade de um universo estranho. O trabalho dirigido por Boris Nikitin não procura empatia imediata e, por isso, exige um esforço inaudito de solidariedade. Um teatro que esgarça as relações entre ator e espectador de maneira a quase estabelecer um enfrentamento. O outro se afirma por si e cabe a nós mergulhar na sua complexidade, sem concessões.

Enfim, são cenas que simulam dilemas de ação no espaço cênico, ou que afirmam a opacidade de um universo individual e singular, ou que ainda nos vencem pura e simplesmente pelo cansaço. Apesar da difícil formação de um canal de comunicação com o trabalho teatral – em que vários fatores influem, como o cansaço físico, a origem social, as referências culturais –, o espectador certamente sai fortalecido do embate, percebendo que, muitas vezes, pode ser um convidado “indesejado” no teatro. O espectador deve perceber que nem sempre a arte acolhe: ela muitas vezes nos desampara, para que duvidemos dela e de nós mesmos.

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2018-03-12T18:03:11+00:0012 de março de 2018|Críticas|