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	<title>Cinco Peças Fáceis. &#8211; MITsp 2019</title>
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		<title>Da ingenuidade à consciênciaPor Daniel Toledo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[maducato_admin]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Mar 2019 17:47:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Cinco Peças Fáceis.]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Da ingenuidade à consciência Crítica do espetáculo Cinco Peças Fáceis Por Daniel Toledo Vivemos em um mundo social complexo, injusto e repleto de todo tipo de violência. Estamos todos em risco. Há quem prefira ignorar essa realidade, e há quem possa, ao menos por algum tempo, proteger-se dela. Enquanto alguns territórios, povos e indivíduos experimentam [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h3>Da ingenuidade à consciência</h3>
<h4>Crítica do espetáculo <strong><em>Cinco Peças Fáceis</em></strong></h4>
<p>Por Daniel Toledo</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-4742" src="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0129.jpg" alt="Cinco Peças Fáceis" width="886" height="620" srcset="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0129-200x140.jpg 200w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0129-300x210.jpg 300w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0129-400x280.jpg 400w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0129-600x420.jpg 600w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0129-768x537.jpg 768w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0129-800x560.jpg 800w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0129.jpg 886w" sizes="(max-width: 886px) 100vw, 886px" /></p>
<p>Vivemos em um mundo social complexo, injusto e repleto de todo tipo de violência. Estamos todos em risco. Há quem prefira ignorar essa realidade, e há quem possa, ao menos por algum tempo, proteger-se dela. Enquanto alguns territórios, povos e indivíduos experimentam certa impressão de paz e bem-estar social, outros convivem diariamente com a privação, a violência e a injustiça. Sobretudo desde o advento colonial, determinou-se, sem que jamais fosse verbalizado, que algumas vidas valem mais, e outras, menos. Em território brasileiro, por exemplo, ficam cada vez mais nítidos os variados genocídios em curso. Há quem espere, já de início, por uma vida longa, e há quem reconheça, a cada dia e a duras penas, a dádiva de permanecer vivo.</p>
<p>Conduzida por sete atores e atrizes com idades entre onze e quatorze anos, a obra <em>Cinco Peças Fáceis</em>, do artista suíço Milo Rau, propõe ao público a reconstituição de um recente episódio traumático da história social belga: a trajetória do pedófilo e serial killer Marc Dutroux, condenado em 2004 pelo sequestro e abuso de seis meninas, tendo quatro delas sido assassinadas. Como potente camada que se acrescenta à dimensão narrativa da obra, a presença de crianças e adolescentes em cena convida o espectador a uma densa reflexão sobre a infância e as realidades sociais que a elas, como horizonte, oferecemos ou deixamos de oferecer.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-4743" src="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0405.jpg" alt="Cinco Peças Fáceis" width="886" height="620" srcset="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0405-200x140.jpg 200w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0405-300x210.jpg 300w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0405-400x280.jpg 400w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0405-600x420.jpg 600w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0405-768x537.jpg 768w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0405-800x560.jpg 800w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Peças-Fáceis_Milo-Rau_Foto-Guto-Muniz_0405.jpg 886w" sizes="(max-width: 886px) 100vw, 886px" /></p>
<p>A partir de entrevistas, depoimentos e comentários que introduzem e por vezes atravessam a narrativa central, lembramos que não se deve pensar a infância e a adolescência segundo pressupostos como a ignorância e a ingenuidade. Estamos, como espectadores e cidadãos, diante de indivíduos que, como nós, têm acesso a experiências de vida, às notícias e à história. Indivíduos que têm consciência sobre a fragilidade da existência humana, a perspectiva da velhice e também sobre a violência que, em maior ou menor medida, nos forma e nos ronda. Consciência sobre as armas e sua letalidade, sobre a lógica de punições e recompensas que nos rege e, ainda, sobre as múltiplas expectativas sociais que, desde cedo, nos assombram. O que nos separa, então, talvez seja somente a oportunidade de se posicionar e discutir essas questões, participando efetivamente da problemática e exclusivista sociedade política que nos cabe, sempre, buscar ampliar e curar. E esse parece ser um dos exercícios &#8211; nada fáceis &#8211; a que se propõe o espetáculo.</p>
<p>É também a presença de crianças e adolescentes no palco, justaposta a atores e atrizes adultos em vídeo, que parece renovar, em certo sentido, os efeitos do uso intensivo de equipamentos de cinema no teatro, recurso bastante comum na obra de Milo Rau e na produção teatral contemporânea. Dando vida, quase sempre, a personagens adultos, tais quais um líder revolucionário, um rei, um velho, um policial e os pais de uma das vítimas de Dutroux, os jovens atores e atrizes que conduzem a obra evidenciam, aos nossos olhos, a persistência, na vida adulta, de traços geralmente associados à infância, tais quais fantasias, caprichos, fragilidades e ingenuidades. &#8220;Agora vem o tempo de justiça e liberdade&#8221;, afirma a atriz que, de modo comovente, discursa como o líder anti-colonial congolês Patrice Lumumba, em passagem que antecede a encenação de seu assassinato.</p>
<p>Ao investigar ainda a infância de Marc Dutroux, por circunstâncias familiares vivida em meio à violenta e desumana realidade colonial do antigo Congo Belga, <em>Cinco Peças Fáceis</em> parece indicar algumas pistas sobre as raízes inconscientes de sua infeliz e condenável trajetória. É na brutalidade dos colonizadores e do mundo colonial, afinal, que repousam as origens da violência contemporânea e de suas múltiplas redistribuições, seja no Norte Global ou, mais recorrentemente, no Sul do qual, como os congoleses, também fazemos parte.</p>
<p>&#8220;Gostaria de mudar algumas coisas, mas, como aconteceu assim, não é possível&#8221;, lamenta, já nos momentos finais do espetáculo, a atriz que conduz um dos momentos mais perturbadores da obra, único em que, não por acaso, a personagem a ser representada, uma das vítimas de Dutroux, é uma criança tão viva e consciente quanto ela.</p>
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		<title>Por uma dialética do olharPor Julia Guimarães</title>
		<link>https://mitsp.org/2019/por-uma-dialetica-do-olharpor-julia-guimaraes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[maducato_admin]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Mar 2019 15:54:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[Cinco Peças Fáceis.]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por uma dialética do olhar Crítica do espetáculo Cinco Peças Fáceis Por Julia Guimarães Na proposta do diretor suíço Milo Rau, o teatro poderia ser pensado como um dispositivo para se “olhar concentradamente” aquilo que muitas vezes é ignorado ou banalizado no cotidiano. Em Cinco Peças Fáceis, uma das três obras de Rau na programação [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por uma dialética do olhar</h3>
<h4>Crítica do espetáculo <strong><em>Cinco Peças Fáceis</em></strong></h4>
<p>Por Julia Guimarães</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-4714" src="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344.jpg" alt="Cinco Peças Fáceis" width="886" height="620" srcset="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344-200x140.jpg 200w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344-300x210.jpg 300w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344-400x280.jpg 400w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344-600x420.jpg 600w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344-768x537.jpg 768w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344-800x560.jpg 800w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344.jpg 886w" sizes="(max-width: 886px) 100vw, 886px" /></p>
<p>Na proposta do diretor suíço Milo Rau, o teatro poderia ser pensado como um dispositivo para se “olhar concentradamente” aquilo que muitas vezes é ignorado ou banalizado no cotidiano. Em <em>Cinco Peças Fáceis</em>, uma das três obras de Rau na programação da MITsp, esse olhar se volta ao cruzamento entre um episódio violento, o modo de representa-lo e as leituras da sociedade por ele favorecidas. No centro do acontecimento cênico, está a história de violência que chocou profundamente a sociedade belga nos anos 1990, relacionada aos crimes cometidos por Marc Dutroux, condenado em 2004 por violência sexual e assassinato. Para tratar desse caso no teatro, o diretor suíço elege enquadramentos e pontos de vista muito distintos daqueles observados nas notícias e documentários sobre o episódio usualmente encontradas na internet.</p>
<p>O primeiro desses enquadramentos diz respeito à opção por trabalhar com um elenco formado por (pré-)adolescentes de 11 a 14 anos (há apenas um adulto em cena e outros que aparecem em vídeos). Ao lado dos efeitos de autenticidade/veracidade, empatia e simultâneo estranhamento que aquelas presenças projetam à obra, o que se destaca no trabalho é o modo como atuam e o contexto dramatúrgico no qual são envolvidos. Logo na primeira cena – que refaz o momento de ensaios e seleção de elenco – respondem a perguntas filosóficas como: “o que é a liberdade?”, “o que significa atuar?” ou “do que você tem medo?”. Nas entrelinhas desse procedimento, haveria o pressuposto de que os jovens integrantes do elenco possuem autonomia para refletir sobre temas usualmente vetados a essa faixa etária, cuja emancipação intelectual e emocional tem sido histórica e socialmente subestimada pelos adultos.</p>
<p>É também esse pressuposto o que parece legitimar Milo Rau a trabalhar com adolescentes para recriar em cena uma história de violência sexual. Divididas por títulos que fazem lembrar os recursos épicos brechtianos, as ironicamente batizadas “peças fáceis” abordam depoimentos de pessoas envolvidas nessa história, como o pai do assassino, uma das vítimas, os pais de outra e um policial. A qualidade cotidiana da atuação – viabilizada por dispositivos tecnológicos de reprodução e ampliação como vídeo e microfone – ajuda a construir essa distância sobre o fato, o que é ressaltado pelo jogo no qual crianças no palco refazem as ações dos adultos no vídeo. Não há lugar para os tratamentos sentimentais e moralistas usualmente explorados pela mídia em torno de um caso como esse.</p>
<p>O fato de que são crianças reencenando um crime que teve como vítimas pessoas da mesma idade ajuda a projetar a ideia/pergunta (presente em uma mesa do eixo Olhares Críticos) de que a “manutenção de uma posição de ignorância” estaria relacionada a uma “cultura facilitadora da violência na infância”. Provavelmente a cena mais impactante da peça é aquela em uma das atrizes refaz o relato de uma vítima sobre o que ocorria no cativeiro de Dutroux. Ali, o que parece estar em jogo é também a reflexão sobre como recriar no palco uma cena de pedofilia com recursos que, aos olhos de uma sociedade moralista e pedófila, corre o risco de ser visto como reforço daquilo que se deseja denunciar. Ou ainda, a problematização sobre o grau de autonomia das crianças/adolescentes para lidar com fatos usualmente censurados para sua faixa etária – embora digam respeito a uma violência imputada a esse grupo. Nesse caso, o mecanismo da distância ganha extrema relevância justamente porque tem o potencial de suscitar a reflexão acerca do modo mesmo como olhamos. E aí estaria outra importante chave relacionada ao teatro como esse dispositivo para <em>mirar detidamente</em> histórias por vezes já bastante conhecidas e banalizadas.</p>
<p><img class="size-full wp-image-4715 aligncenter" src="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0307.jpg" alt="Cinco Peças Fáceis" width="591" height="915" srcset="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0307-194x300.jpg 194w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0307-200x310.jpg 200w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0307-400x619.jpg 400w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/Cinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0307.jpg 591w" sizes="(max-width: 591px) 100vw, 591px" /></p>
<p>Por outro lado, <em>Cinco Peças Fáceis</em> busca também propor relações entre o caso Dutroux e a herança colonial belga. Rau já chegou a dizer que o episódio poderia ser visto como uma “alegoria do declínio das potências coloniais e industriais ocidentais”, o que se evidencia sobretudo pelo depoimento do pai do assassino, Victor Dutroux, representado com toda a revelação dos artifícios teatrais por um dos adolescentes do elenco. Nele, aparecem marcas do privilégio e do viés opressor de quem viveu na antiga colônia belga do Congo até sua independência em 1960. Ao mesmo tempo, o pai declara que atualmente gostaria de ter o sobrenome substituído pelo de Patrice Lumumba, herói da independência congolesa fuzilado com apoio logístico da Bélgica. Nas entrelinhas dessa afirmação, há um vínculo entre o trauma coletivo projetado pelo crime de Dutroux e a constatação de certa decadência moral de um país em aspectos muito mais amplos.</p>
<p>No entanto, esse último enquadramento mais político da história não parece ser, de fato, aquilo que se destaca na obra. Sobretudo quando apresentado no Brasil, onde uma série de informações contextuais são por nós desconhecidas, o que ocorre é certo esvaziamento de alguns sentidos da obra. Soma-se a isso o fato de que a própria projeção social do psicopata se enquadra (embora de modo mais problematizado) naquilo que Maria Rita Kehl chamou, em debate após espetáculo, de “personagem sem dialética”, que “encarna o que nos conforta” justamente porque facilita projeções sobre uma ideia de mal absoluto que estaria sempre fora de nós.</p>
<p>Embora os dois enquadramentos aqui analisados ofereçam ao conhecido episódio traumático outras leituras – e o jogo com a representação e a reflexão metateatral construa a necessária chave do distanciamento – ainda assim se trata de uma história que, ao contrário daquela retratada em <em>A repetição</em> (outro espetáculo de Rau presente na MITsp), parece ser menos emblemática para se pensar as contradições políticas do nosso tempo, justamente porque remete a um crime que tem um forte componente associado a uma patologia e não tanto aos aspectos da pedofilia e da violência que se conectam às heranças do colonialismo patriarcal – eixo vinculado ao capitalismo desde a sua formação. E é nesse sentido que parece mais difícil criar pontes de fato justas entre a história contada e os contextos políticos, éticos e morais que se deseja abordar.</p>
<p>Numa comparação com <em>A Repetição</em>, surgem desdobramentos distintos de uma mesma pesquisa &#8211; que envolve tanto aspectos como a revelação de um processo de criação, da vida dos atores, passando pela pergunta sobre como levar episódios violentos e traumáticos para a cena, até a tentativa de relacioná-los a uma dimensão política/contextual. No entanto, em <em>A repetição</em>, tanto a provocação sobre o ato de olhar – materializado sobretudo na cena de 20 minutos que encena o assassinato de um jovem homossexual na Bélgica – como também a exploração de um episódio chocante para tecer um retrato sociológico de uma cidade e de um país parecem ter mais eficácia justamente porque a história talvez seja mais favorável para se construir tais conexões.</p>
<p>Vale ressaltar que o fato de Milo Rau estar nesta MITsp com três espetáculos – é o artista com maior repertório da história da mostra, numa acertada opção curatorial – colabora para uma compreensão sobre o projeto do diretor. Ao lado dos aspectos analisados aqui, o que talvez tenha feito dele um nome a cada ano mais popular (e também controverso) na cena teatral contemporânea é que o diretor não deixa de situar a emoção como o ponto mais relevante de suas obras. Embora possa parecer um pressuposto questionável, é justamente essaa carga de afetividade, posta lado a lado ao distanciamento e às questões contextuais, o que confere aos seus trabalhos alta relevância tanto política quanto estética.</p>
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