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Vladimir Safatle: “Ninguém aqui pediu perdão pelos crimes da ditadura militar”

Após a estreia do espetáculo Ubu e a Comissão da Verdade na MITsp, ontem (15), o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle conversou com o público sobre as questões levantadas pelo trabalho. Em sua fala, Safatle traçou paralelos entre o apartheid na África do Sul e a ditadura militar no Brasil, além de usar dois aspectos da montagem como eixo para sua discussão.

“O primeiro deles seria qual preço pagamos por uma reconciliação que não pune a partir de seus mecanismos tradicionais, cuja exposição é uma das virtudes da peça. Já o outro é por que focar todo esse processo na caracterização dos agentes repressivos no interior de uma quase farsa, ou seja, utilizar um personagem burlesco como o Ubu para caracterizar aqueles que, em última instância, estão na linha de frente no processo de tortura e de violência do Estado”, aponta o filósofo.

O professor então refletiu sobre a importância do reconhecimento do crime e do pedido de perdão por parte dos criminosos em processos políticos traumáticos como o apartheid e a ditadura militar. Ele também explicitou sua indignação pelo fato do nosso país ser um dos poucos que nunca colocou torturadores na cadeia. “Ninguém aqui nunca chegou perto da vítima e pediu perdão pelos crimes da ditadura militar. Pois, afinal, não é possível perdoar aquilo que não é reconhecido como crime. E como não existe processo público de culpabilização coletiva, isso permite a uma classe que favoreceu a ditadura continuar no poder. É como se você nunca conseguisse atravessar esse passado”, avalia.

Safatle analisou também a opção do diretor William Kentridge de aproximar Ubu e o processo do apartheid. “Ao centrar toda história no agente repressivo, a peça mostra seu caráter comezinho, banal. E daí talvez surja essa ideia de usar essa figura do Ubu, que não só representa a comicidade do poder, mas também nos mostra de maneira muito clara como o poder é mais violento quanto menos ele se leva a sério ou procura se justificar, que ele é mais violento quanto mais deixa clara a natureza banal das suas ações. Ou como diria Saint-Just, ‘aquele que brinca no centro do governo tende à tirania’. E isso mostra que não é necessário nenhum sistema forte de adesão para que a barbárie seja feita”.

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