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Suely Rolnik discute o espetáculo Eu não sou bonita

A apresentação de estreia de Eu não sou bonita na noite de ontem (13) deve ficar marcada como um dos momentos mais calorosos desta primeira edição da MITsp. De um lado, pela radicalidade expressiva da performer Angélica Liddell em cena. De outro,  pelo tumulto causado no teatro Cacilda Becker devido à intervenção de ativistas dos diretos dos animais, que subiram no palco durante a apresentação para protestar contra o uso de um cavalo no espetáculo. E ainda, pela análise contundente e apaixonada proferida pela psicanalista Suely Rolnik após a apresentação. Nas entrelinhas desses acontecimentos, a reafirmação do teatro como arte viva, relacionada ao aqui-agora do convívio entre as pessoas reunidas no evento cênico.

Em sua fala, Suely Rolnik fez uma leitura do trabalho ancorada pelas diferentes categorias da percepção que sustentam nosso modo de apreender o mundo. Para a psicanalista, a potência do espetáculo residiria em uma camada perceptiva que historicamente foi “recalcada” pela cultura ocidental moderna: a decifração estético-clínica, relacionada à apreensão das forças do mundo e de seus efeitos sobre os nossos corpos.

Para Suely, Eu não sou bonita estaria centrado na tensão entre dois planos: o primeiro ligado ao caráter representativo das formas e das imagens e sustentado pelos clichês do feminismo – por meio das figuras da vítima e a da irada que Angélica assume em cena; e outro, relacionado à potência do “saber do corpo” de Liddell.

“Minha primeira reação sobre o espetáculo é uma irritação, uma raiva por ver colocados em cena estereótipos com os quais estamos totalmente trancafiados. No entanto, paralelamente, num outro plano invisível e inaudível, atua na cena uma força poética do que está por trás das palavras e das imagens (e aqui começam as decifrações estético-clínicas), aquém ou além de suas formas e conteúdos exclusivamente marcados pela rebeldia, seja da vítima ou da irada. Seu corpo, com seus movimentos e posturas, os vários timbres de sua voz e sua relação com os objetos, consegue por em cena forças que se digladiam como num campo de batalha”, pontua Suely.

“A cena então converte-se nesse campo de batalha de forças díspares que habitam seu corpo e invadem o espaço. Por trás de seu discurso beligerante ou de vítima, provocador do público, a verdadeira luta não se dá entre ela e o público, mas entre ela e ela mesma, uma luta na qual quem é provocado é a própria realidade”, completa.

* Em breve, o texto de Suely Rolnik apresentado ontem (13) na ação Diálogos Transversais será disponibilizado na íntegra no site da MITsp, dentro da seção Notícias. 

 

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