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Metacrítica – Cineastas

Revisitando Cineastas ou dois frames de críticas gerando um quadro (crítico)
Por Ana Carolina Marinho, da Antro Positivo, em diálogo com o Coletivo de Críticos (*)

 Sendo a criação esse território da instabilidade e do desassossego, o criador busca ordenar as formas para delas subtrair instantes de arrebatamento. E cada instante desse capturado é enquadrado, o que retira dele uma possibilidade outra de existir, na medida em que se exclui do plano um universo para, quem sabe, libertar o plano dele mesmo. Em Cineastas, o enquadramento é claro e bem definido, um retângulo no meio do palco conduz o olhar do espectador, ora pra ficção, ora pra ficção da ficção. Tudo está restrito ao que cabe naquele retângulo e, com isso, a questão: quais são os recortes que fazemos da realidade priorizando este ou aquele viés? Não se trata do que aconteceu ou do que poderia acontecer, mas do que está acontecendo. Assim como na tela de cinema, o espetáculo de Mariano Pensotti é a sobreposição de dois frames justapostos, como se fossem duas vidas paralelas acontecendo simultaneamente, mas sem conseguirmos identificá-las. E, sendo assim, essa reflexão é também fruto desse raciocínio – alguns frames de crítica sobrepostos, em busca de tornar-se uma terceira dimensão crítica. Aqui, os frames são as escritas dos integrantes do Coletivo de Críticos, em especial Ana Carolina Marinho, Pollyana Diniz, Daniele Ávila e Luciana Eastwood, e das conversas com o Olhares Críticos, em especial Fernando Villar, que estimularam a prática do pensamento durante a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp . Aqui, o exercício é justapor as vozes e construir um percurso reflexivo a partir delas.

Os atores em Cineastas migram entre os variados registros que compõem a encenação, ora são narradores, ora personagens e ora personagens construídos pelos próprios personagens. Mas não há um esforço de desempenho para realizar essas mudanças. Os personagens não ganham uma composição, eles são aproximados do ator/narrador e apresentados de maneira quase – quase – esquemática. Um exemplo disso é a cena em que três ou quatro personagens estão transando, mas os atores nem tiram a roupa – uma forma de comentar o registro de atuação, de apontar de forma bem-humorada essa escolha de linguagem. É preciso esclarecer que isso não faz com que a atuação seja algo “menor”. Pelo contrário, é um trabalho difícil e sofisticado (e deve-se levar em consideração o volume de textos e ações e deslocamentos, bem como o acúmulo de demandas ao longo da duração do espetáculo, que deixa rastros nos personagens e nas narrações), que se aproxima dos registros escolhidos para Bem-vindo a casa, de Roberto Suárez, também apresentado na Mostra. Ambos os espetáculos nos provocam com registros entre ficção e realidade, presente e passado, representação e representação da representação, que refletem nos atores – o quanto eles mesmos não são influenciados pelos registros que migram durante a cena? O quanto o narrador em Cineastas não carrega a intensidade do personagem que acaba de fazer? O quanto Luisa em Bem-vindo a casa reverbera no episódio 2 o estado que acabou de construir no episódio 1? Suárez, por se ater mais à qualidade de estado dos atores, aprofunda a intensidade dos registros, enquanto Pensotti parece insistir no que o cineasta Robert Bresson dizia sobre os seus atores “o importante não é o que eles me mostram, mas o que eles escondem de mim e, sobretudo, o que eles não suspeitam que está dentro deles”. Há, ainda, outra aproximação entre os espetáculos. Ambos enquadram essa dialética do quadro formado por dois frames; o argentino com o cenário em formato de dois retângulos que operam num enquadramento visível ao público, e o uruguaio com os dois frames sendo sobrepostos para o público do episódio 2, que compreende a sobreposição dos planos, formando uma terceira dimensão, enquanto o público do episódio 1 não apreende tal construção.

Em Cineastas, revela-se que a insatisfação reside tanto na imagem pré-fabricada – a película – quanto na imagem imediata – a realidade. Ambas querem servir-se uma da outra para, quem sabe, gerar uma dimensão terceira, intraduzível e arrebatadora. Não há a possibilidade de reconstruir a experiência sem deformá-la, por isso, a cena escapa do domínio do real ou da ficção. O espetáculo consegue, através da simultaneidade das cenas, esgarçar os contornos e propor novas relações, sendo a legenda suporte para tal operação. Projetada no espaço do meio, que separa os dois lugares da narrativa na cenografia, mas que também os conecta, a legenda constrói a terceira dimensão. Vale ressaltar que a legenda pode, muitas vezes, ser uma força de imposição do discurso, ao antecipar o pensamento e retirar do espectador a ilusão de que as coisas estão acontecendo pela primeira vez ali, de que o próximo segundo é desconhecido por mim espectadora e por eles atuadores. Nesse espetáculo, diferentemente, isso torna-se linguagem à medida em que a legenda se personifica e é o suporte para que as duas imagens se colidam. Como a peça foi criada sabendo-se que a estreia seria fora de Buenos Aires, a antecipação da necessidade da legenda fez com que esse elemento fosse incorporado à poética do espetáculo. Numa espécie de tela projetada, a cena se desenrola em duas projeções com a presença da legenda entre elas. E, assim, passa a não interessar de qual projeção a legenda pertence, mas sim o atrito que gera a legenda pertencer às duas simultaneamente. Como se, sendo ou não capazes de lidar com a realidade ou com suas representações, o teatro sempre fosse um refúgio possível.

(*) O Coletivo de Críticos é um ajuntamento temporário de críticos, com presença na internet e atuação em rede. Inclui integrantes dos sites-blogs-revistas eletrônicas Antro Positivo (SP), Horizonte da Cena (MG), Questão de Crítica (RJ), Satisfeita, Yolanda? (PE) e Teatrojornal (SP).

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