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Metacrítica – Bem-vindo a casa

A realidade do fracasso como discurso estético
Ruy Filho, da Antro Positivo, em diálogo com o Coletivo de Críticos (*)

A maior dificuldade ao determinar um contexto ao teatro refere-se à sua qualidade em convencer o espectador de uma verdade real. Processo esse que atrai para dentro de paradigmas toda sorte de instrumentais e revisões. Como estabelecer a certeza àquilo, desde o início oferecido como representação, portanto invenção? O dilema percorre os espetáculos em duas partes, Bem-vindo a casa, em muitas instâncias, enquanto expõe a fragilidade de suas tentativas. Não se trata de querer solucionar, mas do exibir a tentativa como verdade de sua falência. Ou, mais amplamente, da falência do teatro em ser verdadeiro.

A necessidade de convencionar a ficção como realidade se esvai a cada impossibilidade, restando ao espectador o conviver da representação da representação. Mais do que um metateatro, a sobreposição provocada por Roberto Suárez narra pela perspectiva do fracasso, tanto cênico quanto humano. Do outro lado, na plateia, fracassa igualmente o espectador naquilo que se refere a uma narrativa sobre a realidade. Esse distanciamento estruturado pela consciência do jogo, no entanto, não impede que outras aproximações sejam oferecidas. Agora, o espectador pode adentrar ao universo revelado, e dividir o fracasso mediante uma espécie de convívio cúmplice.

Determinante ao reencontro com o outro, a espacialidade se desdobra, tanto em narrativa quanto mobilidade real. Essa geografia cênica afetiva, como traduziu Valmir Santos em sua resenha, refere-se à construção de um espaço emotivo pelo qual o convívio com o fracasso fortalece o próprio encontro. A narrativa bipartida expõe a necessidade de angulações diversas ao assistido anteriormente, permitindo ao espectador transitar entre o espectar e o pertencer. No entanto, um e outro colidem com o desejo, pelo assumir como real a experiência. Ainda que o espaço instaure uma presença naquele que nele está, o distanciamento do espectador gera exatamente seu oposto. A soma inevitável das experiências leva a incapacidade de uma solução. Fracassa-se também na sustentação de um público, se tentado entendê-lo como alguém específico. Este deixa de ser meramente o ocupante das poltronas para ampliar sua dimensão cenográfica ao espetáculo. Portanto, não há mais público, apenas e somente parte estendida de uma narrativa que explode a cena e configura o real como ficção de sua própria manifestação.

O processo aproxima a teatralidade ao intuito do cinema, ainda que trabalhe verticalmente com a materialidade teatral. Essa capacidade em tornar o convívio o fracasso de uma experiência real está nas salas de projeções e não necessariamente na de espetáculos. Comumente, o público de teatro é parte coletiva de algo destacado daquilo existente sobre o palco, principalmente se pensado no palco italiano, o que é o caso dos espetáculos de Bem-vindo a casa. A frontalidade típica pode ou não determinar deslocamentos. Os espetáculos os apropria bem, no sentido de não serem manipulações banais de um hipernaturalismo, cuja função é mais forçar o contexto à sua quebra. Nele ocorre o inverso. Mesmo quando se aproxima desse processo, tornam-se paradigmáticos ao se fazerem por variações que vão do grotesco ao farsesco.

Novamente, cabe ao espaço determinar sua potência de instauração do real, enquanto a subjetividade impede seu cristalizar. Fracassa-se propositadamente, oferecendo o subtexto ao lugar do texto, admitindo-se luz e som como ambiência de sustentação do espaço, portanto teatralizando ainda mais, a partir do movimento de supostamente apresentar o real, deixando evidente a fragilidade da materialidade teatral através da construção da beleza pela precariedade.

Percorrido o díptico, principalmente em sua sequência lógica de primeira e segunda partes, o público perde-se entre a relação de espectador e observador, passa a ser mais um presentificador do teatro como tentativa, aquele que justifica a pertinência ao presente de sua instalação.

Todavia, se invertido o percurso das partes oferecidas, certamente a experiência será um tanto mais contraditória. A segunda parte necessita da vivência da primeira para trazer a experiência ao cerne da nova narrativa. Sem ela, fracassa-se também ao entendimento mais profundo, pois, ao ser assistida a parte inicial depois, esta ocupará o lugar da ilustração explicativa, e isso de fato é muito pouco.

Bem-vindo a casa se coloca, ao fim, como um dilema sobre o convívio entre teatro e realidade e também entre público e espetáculo. Ora possibilitando entradas, ora destruindo acessos, o importante é o quanto a engenharia teatral configura estratégias narrativas certeiras à experiência. Se o fracasso é inevitável ao entendimento do real, se o teatro é fadado a fracassar como representação da realidade e do homem, tudo pode ser considerado válido no instante em que fracassar se faz artifício e linguagem. Então, tanto quanto buscam os espetáculos, fracassa também o fracasso, visto tornar a complexidade de sua manifestação, a mentira pertinente ao mais possível de representação real.

(*) O Coletivo de Críticos é um ajuntamento temporário de críticos, com presença na internet e atuação em rede. Inclui integrantes dos sites-blogs-revistas eletrônicas Antro Positivo (SP), Horizonte da Cena (MG), Questão de Crítica (RJ), Satisfeita, Yolanda? (PE) e Teatrojornal (SP).

 

 

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