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Dois olhares sobre Gólgota Picnic

Quem acompanhou as ações da MITsp ontem (14) encontrou pelo menos dois olhares distintos sobre um dos espetáculos mais polêmicos da mostra: Gólgota Picnic. Enquanto à tarde, o diretor Rodrigo García conversou com o público sobre os contornos da obra, à noite foi a vez do professor de filosofia Peter Pál Pelbart tecer sua leitura sobre o espetáculo. E na saída do teatro, o público ainda tinha à disposição críticas feitas sobre Gólgota Picnic por integrantes do Coletivo de Críticos, que podem ser lidas no blog deste site. Cruzamentos de olhares que estão no coração da cartografia desta primeira MITsp.

No Itaú Cultural, Rodrigo García apontou proximidades e distanciamentos entre Gólgota Picnic e outros trabalhos de sua trajetória como diretor, ao enxergar um caráter mais clássico em sua recente criação. “Penso que meus trabalhos dos últimos 20 anos eram mais modernos. Considero Gólgota uma obra clássica pelo uso do teatro excessivamente apoiado na literatura, porque, mesmo sendo escritor, sempre busquei investigar como a literatura podia servir à cena”, conta o diretor, nascido na Argentina e radicado na Espanha.

García relatou que a ideia de fazer o espetáculo veio do encontro dele com o pianista Marino Formenti (que não pode participar das apresentações da MITsp), após uma conversa sobre a peça de  Joseph Haydn, As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz, executada em Gólgota Picnic. “Trata-se de uma obra singular, estranha e tranquila, que foi encomendada a Haydn por padres que queriam uma peça mais parada para que pudessem falar entre seus movimentos. Pensei que essa música poderia dar ao espectador um tempo de calma para que ele pudesse rebobinar o filme do espetáculo na mente. Então ela pode ser vista como uma tortura ou um presente: depende da curiosidade das pessoas”, opina García.

O diretor falou também sobre o lugar pouco cômodo que o teatro, em seus contornos mais tradicionais, ocupa na sua vida. “Tenho problemas para escrever diálogos, só consigo escrever em primeira pessoa. Além disso, não consigo fazer cenas longas, por isso elas saem sempre fragmentadas. E não gosto muito de ensaiar, pois prefiro ficar só. O que é uma contradição, pois sou uma pessoa de tendência solitária que decidiu fazer uma arte que é coletiva”, refletiu o diretor, em tom bem-humorado.

Já na palestra de Peter Pál Pelbart após a segunda apresentação de Gólgota Picnic, o professor de filosofia estabeleceu comparações entre a criação de Rodrigo García e o espetáculo Sobre o conceito de rosto no filho de Deus, também apresentado na MITsp. “Intriga-me que ambas se desdobrem ao mesmo tempo numa chave iconoclasta e numa chave iconólatra que, como mostrou Laymert Garcia, o que implica numa estranha reversibilidade na qual o ataque ao cristo só reitera sua eficácia e sua prevalência”, aponta.

O aspecto polêmico e corrosivo da obra de Rodrigo García foi analisado como resposta para um estado de profunda desolação sobre aquilo que nos rodeia. “Quanta provocação, quanta profanação, quanta destruição é preciso por em cena para dar a ver o estado das coisas?”, pergunta o Pelbart. “Golgota Picnic é um caótico panorama sobre o estado degradado. Um afresco vertiginosos sobre a contemporaneidade”.

  

 

 

 

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