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Metacrítica – Hamlet

Quero a desconfiança de Hamlet
Ivana Moura, do Satisfeita, Yolanda?, com Maria Eugênia e Coletivo de Críticos (*)

“O mundo está fora dos eixos. Oh! Maldita sorte! Por que nasci para colocá-lo em ordem?”, lamenta o príncipe da Dinamarca. Hamlet, do lituano Oskaras Koršunovas, reverbera a angústia do personagem, fraturado entre os deveres de herdeiro real e as aspirações do indivíduo, projetada contra o mundo contemporâneo. O protagonista de Koršunovas desequilibra as certezas (ilusórias) desse nosso tempo habitado por visões totalitaristas do consumo de toda espécie: de pensamento, artefatos, religião.

Elsinore (um reino manchado de sangue) pode estar em qualquer lugar e desta vez ocupa o espaço onde são realizadas as transfigurações dos atores. Nesse ambiente instala-se uma cascata de simulações, com os atores prontos, “concentrados” em seus personagens, mas ainda aguardando o terceiro toque para iniciar a sessão.

A montagem da OKT – Oskaras Koršunovas Theater – principia com nove atores de costas para o público. Os espelhos de uma bancada (de camarim) revelam parte de seus rostos e também parcela da plateia. “Quem é você?”, é a tradução para a frase de William Shakespeare “Who’s there?”, dita pelos atores do sussurro à explosão do grito.

O espelho é o elemento por excelência. O que devolve a imagem não real. Nessa potência óptica, são clamadas as grandes questões da existência.

O encenador lituano reposiciona essas problemáticas, contaminando-as de presente. Entre simulações de loucura, reflexões filosóficas e explosões de sentimentos, Hamlet desconfia. De tudo. De todos. De si mesmo. Está só no universo e, para prosseguir suas investigações, ele precisa renunciar ao amor e encarar sua tragédia.

Vivemos em um mundo em constante ameaça, parece insistir o diretor. Ele impregna sua montagem da ideia de experiência humana exclusiva saturada pela natureza do teatro. Se a realidade não existe mais, o que captamos são fragmentos refletidos em espelhos.

A posição de Hamlet em relação aos outros personagens é que eles permanecem em suas certezas. Ophelia é inundada pela crença do amor do príncipe. Gertrude prefere a ignorância a ter o coração partido em dois. Laertes cria a imagem do Hamlet vilão, aquele ser sanguinário e cruel que aniquilou sua família, e não puxa nenhuma responsabilidade para si mesmo pelos acontecimentos.

Koršunovas criou a cenografia de Hamlet em parceria com a figurinista Agne Kuzmickaitė. E a encenação está repleta de soluções poéticas. Uma delas é quando o espectro do pai de Hamlet (ator Dainius Gavenonis) se mira no espelho e enxerga Claudius dentro de si. Um enorme rato branco, que mostra a cabeça e pousa a cauda nas mesas de maquiagem, pode remeter à podridão da política onde houver ser humano e, portanto, luta por poder. O roedor volta a aparecer em vários momentos com a desmontagem do próprio ator, que tira e coloca a cabeça/máscara do roedor branco. Uma caveira pode ser tanto o cadáver de Yorick, o bobo da corte, quanto a taça de onde a rainha sorverá o veneno mortal.

O amor é também uma armadilha. Se há um beijo verdadeiro entre Hamlet e Ophelia, outros elementos aguardam para desmascarar o príncipe. Quando ele descobre a cilada, o afeto é transformado em violência contra o objeto de desejo. Seu coração não suporta mais essa falsidade.

Além das ótimas atuações do elenco: Darius Meškauskas (Hamlet), Nele Savičenko (Gertrude), Rasa Samuolytė (Ophelia), Vaidotas Martinaitis (Polônio), Julius Žalakevičius (Horatio), Tomas Žaibus (Rosencrantz), Giedrius Savickas (Guildenstern), além dos outros intérpretes, a encenação conta com uma música potente de Antanas Jasenka, que funciona como descarga de alta tensão.

O famoso “Ser ou não ser” é dito duas vezes por Hamlet. A primeira vez em estado melancólico e salienta “ser” e, pela segunda vez, furioso com o triunfo do “não ser”. Horatio, na função de fingidor de bobo da corte, com seu nariz vermelho de palhaço brilhando, fecha os olhos de Hamlet e sorri sarcasticamente após dizer: “O resto é silêncio”.

(*) O Coletivo de Críticos é um ajuntamento temporário de críticos, com presença na internet e atuação em rede. Inclui integrantes dos sites-blogs-revistas eletrônicas Antro Positivo (SP), Horizonte da Cena (MG), Questão de Crítica (RJ), Satisfeita, Yolanda? (PE) e Teatrojornal (SP).

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