O Brasil visto através do teatro, com André Dahmer

--O Brasil visto através do teatro, com André Dahmer

Por João Martins

A tendência cíclica da história é um assunto já amplamente explorado. A invariabilidade e a rigidez deste fenômeno, porém, continuam discutíveis. Para André Dahmer, que não se considera um pessimista, “a humanidade parece um cachorro amarrado correndo atrás do próprio rabo”.

Na última seção de Diálogos Transversais da 5ª MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, o quadrinista abordou, além desse, temas como privilégios e consciência de classe, o caminho dos movimentos populares e o estado de coisas no Brasil.

A estranheza e as contradições da realidade brasileira — assim como as de mais quatro países — são os temas nos quais se fundamenta a peça que antecedeu o debate, País Clandestino. Concebida após o encontro de cinco estrangeiros em Nova York, “solo neutro”, o espetáculo aborda questões político-sociais contemporâneas das terras natais de seus idealizadores através de uma ótica pessoal e documental. “São cinco jovens se deparando com o presente a partir de uma herança de vivência em outros países e de relações entre si”, disse Dahmer. “É um espetáculo no qual o passado e o futuro se encontram”.

Para o quadrinista, as origens da crise pela qual o Brasil atravessa se encontram na política de conciliação de classes, que foi incapaz de reduzir a desigualdade social ao mesmo tempo em que ampliou o consumo. Após a perda de fôlego da economia, “situações que eram inimagináveis cinco anos atrás se tornaram possíveis”.

André, que aponta paras as urnas como a única alternativa possível para o impasse atual, lamenta o país ter se tornado “uma ditadura da ignorância, do ódio e da burrice”.

Um paralelo entre as vidas dos personagens, europeus e latino-americanos com o poder de arcar financeiramente com estudos no exterior, e a do própria convidado também foi feito. André, oriundo de uma família de professores, ressaltou o papel que a educação formal tem na redução da desigualdade.

Ao final do diálogo, houve uma intervenção da curadora Daniele Avila, que concluiu que “o teatro demora um pouco pra acompanhar as questões sociais que são mais urgentes” ao mesmo tempo em que apontava, ironicamente, que a última fala na 5ª MITsp coube a um homem branco, hétero e cis.

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2018-03-14T16:05:07+00:0014 de março de 2018|Não categorizado|