A fantasia é necessária, mesmo ao tratar do real

--A fantasia é necessária, mesmo ao tratar do real

Por Victor Henrique

A importância da crítica e a relação com o público dos espetáculo foram os principais assuntos tratados na mesa-redonda Cena Contemporânea: Panoramas Críticos, parte da programação de Olhares Críticos da 5ª MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, no último sábado (10), no Itaú Cultural. O debate teve a presença dos sete críticos que, diariamente, produziram textos sobre os espetáculos apresentados na 5ª MITsp.

Três eixos marcaram as discussões: a crise da ficção, o lugar do espectador e o diálogo com a curadoria. Para o crítico Juliano Gomes “o teatro tem uma obrigação com a fantasia”, referindo-se ao caráter fictício que as peças têm mesmo ao retratar de questões concretas do cotidiano e da sociedade.

Também foi ressaltada no debate a importância do corpo e da identidade. Na peça sal., por exemplo, “o personagem não poderia ser representado por outro corpo”, afirmou Michele Rolim, pois “caso isso acontecesse toda a ideia em torno da trama da peça perderia boa parte da sua força, principalmente de sua crítica”.

Clóvis Domingos, crítico que teve grande participação no debate, usou o espetáculo Campo Minado como exemplo para explicar as tensões entre os atores envolvidos e como isso era representado para o público para “apresentar a questão da produção e da tradução da mensagem para o público”, segundo o próprio Clóvis.

A crítica Julia Guimarães expôs sua opinião sobre a relação da crítica após espetáculo: “A crítica gera um debate na esfera pública, algo muito importante que pode ajudar os espectadores a entenderem melhor qual a mensagem da peça e a reflexão que ela gostaria de provocar”.

Michele Rolim seguiu na defesa da crítica no teatro, afirmando que “a crítica é um documento vivo, um arquivo histórico”. Para ela, o papel da crítica ultrapassa o presente, ressaltando ainda mais sua importância não só para as gerações  atuais, mas para toda uma geração futura de apreciadores do teatro.

As críticas tomaram outro rumo quando Laís Machado ampliou o debate para fora do Brasil.  “Não conhecemos a produção do nosso país”, fazendo referência assim aos lugares que ficam fora do eixo Rio-São Paulo, onde existe um investimento muito maior do que em praticamente qualquer outro estado do Brasil.

Ela ainda criticou a falta de atenção de patrocinadores e dos órgãos públicos em relação a produções e produtores de outros estados. Clóvis Domingos foi igualmente enfático nessa questão, levando para um lado mais artístico e igualmente social do assunto. Ele indagou: “Até que ponto os eventos artísticos dialogam com a cidade”, criticando a falta de identificação que a cidade-sede do evento pode ter em relação as diversas apresentações. Em São Paulo, por exemplo, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, recheada das mais variadas culturas e com uma imensa diversidade étnicas, durante a 5ª MITsp o público paulista pode ter se sentido mal representado, pois a diversidade étnica era majoritariamente branca. Portanto, a diversidade do público fica como uma questão a ser pensada para as próximas edições.

 

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2018-03-14T16:06:16+00:0014 de março de 2018|Não categorizado|