{"id":9869,"date":"2020-03-11T12:25:13","date_gmt":"2020-03-11T15:25:13","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=9869"},"modified":"2020-03-11T15:31:03","modified_gmt":"2020-03-11T18:31:03","slug":"by-heart-abracou-beleza-e-o-risco-da-memoria-por-rodrigo-nascimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/by-heart-abracou-beleza-e-o-risco-da-memoria-por-rodrigo-nascimento\/","title":{"rendered":"<em>By Heart<\/em> abra\u00e7ou a beleza e o risco da mem\u00f3ria? <h6>por Rodrigo Nascimento<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3><em>By Heart<\/em> abra\u00e7ou a beleza e o risco da mem\u00f3ria?<\/h3>\n<h6>por Rodrigo Nascimento<\/h6>\n<p><img class=\"alignnone wp-image-9852 size-full\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o.jpg\" alt=\"By Heart @Guto Muniz\" width=\"2400\" height=\"1680\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-1536x1075.jpg 1536w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o.jpg 2400w\" sizes=\"(max-width: 2400px) 100vw, 2400px\" \/><\/p>\n<p>\u201cMusa, reconta-me os feitos do her\u00f3i astucioso que muito peregrinou&#8230;\u201d. Assim na Gr\u00e9cia Antiga os contadores de hist\u00f3rias, ou aedos, cantavam as aventuras de Ulisses. <em>A Odisseia<\/em>, um dos textos fundantes do c\u00e2none europeu, n\u00e3o nasceu escrito. Veio do esfor\u00e7o imemorial desses rapsodos de decorar os mais de 12 mil versos que mais tarde Homero fixaria na escrita. Esses cantadores viviam ent\u00e3o sob a corda tensa da beleza e do risco: da\u00ed invocarem j\u00e1 de in\u00edcio os aux\u00edlios da Musa Mnemosine, a deusa da Mem\u00f3ria. Mais tarde, com a normaliza\u00e7\u00e3o da cultura escrita, S\u00f3crates lamentaria que Fedro n\u00e3o relembrasse a fala de L\u00edsias sobre o amor e que por isso dependesse das palavras registradas no papel para diz\u00ea-lo. Lamentava, talvez, a indisposi\u00e7\u00e3o de Fedro ao risco. A mem\u00f3ria poderia falhar, mas o fasc\u00ednio estava nisso: na disposi\u00e7\u00e3o \u00e0 aventura da lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre esse risco que se lan\u00e7a o espet\u00e1culo <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/by-heart\/\"><em>By Heart<\/em><\/a>, que tem texto, encena\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas Tiago Rodrigues. A partir de uma mem\u00f3ria afetiva, o diretor se prop\u00f5e a tornar um epis\u00f3dio pessoal uma aventura coletiva. Sua av\u00f3 C\u00e2ndida, que lia e decorava textos quase compulsivamente, recebeu o diagn\u00f3stico de que estava prestes a ficar cega. Seu desejo: que o neto indicasse o \u00faltimo livro a ser lido e decorado. Tiago seleciona ent\u00e3o Os Sonetos de William Shakespeare. A\u00ed est\u00e1 a base dessa performance-risco na qual dez pessoas da plateia s\u00e3o convidadas a decorar no palco o Soneto 30 do bardo ingl\u00eas: \u201cQuando em meu mudo e doce pensamento\/ Chamo \u00e0 lembran\u00e7a as coisas que passaram\u201d. Um soneto sobre a vis\u00e3o que se vai e a mem\u00f3ria que fica.<\/p>\n<p>O risco parece estar em sugerir que o p\u00fablico de hoje \u2013 t\u00e3o afeito \u00e0s tecnologias do registro, \u00e0 palavra impressa, ao v\u00eddeo e ao \u00e1udio \u2013 memorize em duas horas hex\u00e2metros com um vocabul\u00e1rio j\u00e1 distante. N\u00e3o se trata da representa\u00e7\u00e3o de algo. Temos na verdade um jogo, no qual um roteiro pr\u00e9vio se abre ao risco do momento. A dramaturgia se constr\u00f3i no palco e \u00e9 sempre provis\u00f3ria, pois o espectador traz sua disposi\u00e7\u00e3o e sua capacidade de interfer\u00eancia. Nessa cena limpa, feita de dez cadeiras de mesma altura uma ao lado da outra, temos o impulso do acaso de uma assembleia, em que Tiago Rodrigues parece desejar que as pessoas se sintam \u00e0 vontade para errar, para mostrar sua vulnerabilidade e a expor a m\u00e1quina falha e fascinante que aciona a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Na medida em que mobiliza t\u00e9cnicas de memoriza\u00e7\u00e3o, a plateia tamb\u00e9m entra no jogo t\u00edmido de repetir tudo a meia-voz, escondendo os erros com um riso. Liga-se assim palco e audi\u00eancia, mas liga-se tamb\u00e9m o gesto local ao gesto daqueles que o int\u00e9rprete recorda: a Nadi\u00eajda Mandelstam, que decorou os poemas do marido \u00d3ssip Madelstam, censurado e morto pelo aparato stalinista; ou a Boris Pasternak, que durante o Congresso de escritores sovi\u00e9ticos mobilizou a plateia para recitar em un\u00edssono o Soneto 30 de Shakespeare, livrando-se provisoriamente da morte. Lembrar para n\u00e3o morrer. E assim de algum modo nos deparamos com a pergunta: qual seria meu \u00faltimo texto a decorar em vida? Que mem\u00f3rias trago comigo que nenhuma viol\u00eancia ou tortura poder\u00e1 tirar? A essa altura, o jogo j\u00e1 possui fei\u00e7\u00e3o inevitavelmente pol\u00edtica. <em>By Heart<\/em> cala fundo em um pa\u00eds no qual a hist\u00f3ria oficial \u00e9 feita do aniquilamento de toda uma cultura oral na qual se baseavam povos africanos escravizados ou ind\u00edgenas massacrados. <em>By Heart<\/em> se abre assim para ser n\u00e3o s\u00f3 um jogo sobre o passado, mas uma provoca\u00e7\u00e3o potente do presente.<\/p>\n<p>Contudo, o jogo potencial se choca com o jogo real. Rodrigues n\u00e3o parece se abrir de todo \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o do presente.<em> By Heart<\/em> \u2013 \u201cde cor\u201d, em ingl\u00eas \u2013 remete ao gesto de lembran\u00e7a feita com o cora\u00e7\u00e3o. Da\u00ed a h\u00f3stia laica entregue aos participantes. Nela est\u00e1 impresso o poema de Shakespeare. Comer aquele corpo e ressuscitar as palavras dentro de si. Mas, em determinados, as pessoas no palco parecem estar em uma chamada oral de uma escola conservadora. Uns chegam ao ponto de n\u00e3o comer a h\u00f3stia para relembrar o trecho j\u00e1 esquecido do poema. N\u00e3o s\u00e3o provocadas a se perguntar como os versos de Shakespeare calam em seus \u00edntimos. Ser\u00e1 que isso se d\u00e1 porque <em>By Heart<\/em> sup\u00f5e uma universalidade da literatura que n\u00e3o est\u00e1 mais dada? Afinal, quando interpelado por uma das participantes sobre o porqu\u00ea de n\u00e3o haver mulheres escritoras em todo o seu arsenal liter\u00e1rio, Rodrigues responde com uma normaliza\u00e7\u00e3o do c\u00e2none do s\u00e9culo XX. Sim, \u00e9 um c\u00e2none patriarcal. Mas a participante acusa: se n\u00e3o lembrarmos dessas mulheres, ser\u00e3o esquecidas. Ali, quando ele mobiliza um \u201cEste \u00e9 o meu espet\u00e1culo\u201d, quebra-se o encantamento e o jogo desliza para o solo eg\u00f3ico. Afinal, a mem\u00f3ria \u00e9 feita de escolhas: inconscientes, \u00edntimas, pol\u00edticas. E de uma proposta radicalmente polif\u00f4nica, <em>By Heart<\/em> acabou por um momento incapaz de se abrir \u00e0 beleza do risco. Ao fim e ao cabo, a participante parecia pedir para que o gesto de rememora\u00e7\u00e3o fosse tamb\u00e9m um pouco mais feminino, negro, ind\u00edgena, brasileiro ou latino-americano. Pedia para que fosse um pouco mais nosso. Talvez assim as pessoas se sentissem mais irmanadas a mergulhar \u201cde cora\u00e7\u00e3o\u201d na incr\u00edvel aventura da mem\u00f3ria de que somos feitos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>By Heart abra\u00e7ou a beleza e o risco da mem\u00f3ria? por Rodrigo Nascimento \u201cMusa, reconta-me [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":9852,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[8],"tags":[100],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9869"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9869"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9869\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9852"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9869"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9869"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=9869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}