{"id":9667,"date":"2020-03-08T12:20:39","date_gmt":"2020-03-08T15:20:39","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=9667"},"modified":"2020-03-08T12:20:39","modified_gmt":"2020-03-08T15:20:39","slug":"o-veneno-e-o-antidoto-por-daniel-toledo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/o-veneno-e-o-antidoto-por-daniel-toledo\/","title":{"rendered":"O veneno e o ant\u00eddoto <h6>por Daniel Toledo<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>O veneno e o ant\u00eddoto<\/h3>\n<h6>por Daniel Toledo<\/h6>\n<p><img class=\"alignnone wp-image-9666 size-full\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o.jpg\" alt=\"Orlando @Guto Muniz\" width=\"2400\" height=\"1680\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-1536x1075.jpg 1536w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o.jpg 2400w\" sizes=\"(max-width: 2400px) 100vw, 2400px\" \/><\/p>\n<p>Foi somente em meados do s\u00e9culo XVIII, conforme destaca a antrop\u00f3loga, escritora e educadora surinamesa Gloria Wekker, que a dita Europa Ocidental, capitaneada pela ostensiva cultura vitoriana e sua ampla influ\u00eancia sobre o sistema-mundo colonial, concebeu a diferen\u00e7a de g\u00eanero como um eficiente instrumento de perpetua\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica patriarcal necess\u00e1ria \u00e0 expans\u00e3o do capitalismo ultramarino. Como um conceito, nos lembra Gloria, a ideia de g\u00eanero n\u00e3o existia entre muitos povos negros e ind\u00edgenas: at\u00e9 a coloniza\u00e7\u00e3o, o mundo n\u00e3o-europeu experimentava entendimentos mais fluidos e m\u00faltiplos sobre a exist\u00eancia humana. Ap\u00f3s a invas\u00e3o de Abya Yala, entretanto, a n\u00e3o-exist\u00eancia do g\u00eanero conduziu \u00e0 categoriza\u00e7\u00e3o dos povos colonizados como animalescos e n\u00e3o-humanos.<\/p>\n<p>Visando problematizar binarismos sempre redutores, assim como evidenciar indefini\u00e7\u00f5es, inadequa\u00e7\u00f5es e imprecis\u00f5es de g\u00eanero que, conscientemente ou n\u00e3o, pairam sobre cada um de n\u00f3s, a obra <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/orlando\/\"><em>ORLANDO<\/em><\/a>, realizada pela artista su\u00ed\u00e7a Julie Beauvais e pelo franc\u00eas Horace Lundd, apresenta como refer\u00eancia central o livro hom\u00f4nimo da escritora inglesa Virginia Woolf. Reunindo performers de diferentes origens, dentre os quais uma argentina, um brasileiro e uma congolesa, o trabalho se apresenta, portanto, como poss\u00edvel ant\u00eddoto a um pernicioso veneno disseminado mundo afora pela a\u00e7\u00e3o colonial cujas origens remontam ao mesmo continente que agora vem nos &#8220;iluminar&#8221;.<\/p>\n<p>Ao entrarmos no teatro, acessamos o palco e n\u00e3o o espa\u00e7o geralmente destinado \u00e0 plateia. Ali nos deparamos com uma grande videoinstala\u00e7\u00e3o imersiva constitu\u00edda por uma estrutura heptagonal em que filmes de curta dura\u00e7\u00e3o se alternam em cada uma das sete telas. Cada filme destaca um personagem diferente, situado em paisagens distintas, mas igualmente esvaziadas, a partir de um enquadramento que se repete e coloca em destaque o corpo humano. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos diante de espantalhos ao contr\u00e1rio, \u00e0 medida em que tais corpos, posicionados sempre de frente para a c\u00e2mera, com bra\u00e7os livres e p\u00e9s fincados no ch\u00e3o, convocam sem tr\u00e9gua o olhar ativo e atento daqueles que os observam.<\/p>\n<p>Filmadas sempre no alvorecer do dia, as imagens trazem corpos \u00e0 frente de variadas paisagens naturais e urbanas, frequentemente afetadas por fios e rajadas de vento que parecem querer mov\u00ea-los, torn\u00e1-los fluidos, quem sabe transform\u00e1-los. Testemunhamos, al\u00e9m dos corpos, ondas que v\u00eam e v\u00e3o, nuvens que continuamente se movem, plantas que se agitam com o vento, p\u00e1ssaros que vez ou outra atravessam o c\u00e9u. Por que n\u00e3o se moveriam, ent\u00e3o, tamb\u00e9m os corpos humanos que vemos dentro e fora das telas? Quais seriam os efeitos desses movimentos internos e externos sobre a percep\u00e7\u00e3o que temos a partir de cada um dos corpos ali posicionados para nos espantar? Haver\u00e1 de fato algum espanto pelas bandas de c\u00e1?<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos p\u00e9s enraizados, das m\u00e3os e bra\u00e7os abertos ao espa\u00e7o, podemos perceber que os corpos nas telas t\u00eam os olhos fechados, como se olhassem para dentro e recusassem o nosso olhar. Enquanto mergulham em si, experimentam movimentos lentos: m\u00e3os que se abrem, bra\u00e7os que se movem, rostos que giram, queixos que se pronunciam. S\u00e3o corpos em expans\u00e3o e contra\u00e7\u00e3o, em relaxamento e tens\u00e3o. S\u00e3o rostos que se modificam a partir do \u00e2ngulo que desenham em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 c\u00e2mera, bra\u00e7os que por vezes escondem os rostos, revelando certa indefini\u00e7\u00e3o que profundamente permeia, em maior ou menor medida, de modos mais ou menos vis\u00edveis, as apar\u00eancias e profundezas de cada um deles \u2013 e tamb\u00e9m, a quem interessar possa, de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O veneno e o ant\u00eddoto por Daniel Toledo Foi somente em meados do s\u00e9culo XVIII, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":9666,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[8],"tags":[108],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9667"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9667"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9667\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9666"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9667"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9667"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9667"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=9667"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}