{"id":9621,"date":"2020-03-07T12:55:36","date_gmt":"2020-03-07T15:55:36","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=9621"},"modified":"2020-03-12T14:26:46","modified_gmt":"2020-03-12T17:26:46","slug":"em-busca-de-outros-refugios-por-daniel-toledo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/em-busca-de-outros-refugios-por-daniel-toledo\/","title":{"rendered":"Em busca de outros ref\u00fagios <h6>por Daniel Toledo<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Em busca de outros ref\u00fagios<\/h3>\n<h6>por Daniel Toledo<\/h6>\n<p><img class=\"alignnone wp-image-6021 size-full\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault.jpg\" alt=\"Contos Imorais \u2013 Parte 1: Casa M\u00e3e \u00a9\ufe0fJean Luc Beaujault\" width=\"1200\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-200x117.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-300x175.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-400x233.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-600x350.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-768x448.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-800x467.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-1024x597.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p>Constru\u00eddo h\u00e1 mais de dois mil\u00eanios, a partir do uso de materiais violentamente retirados das profundezas da terra, o Partenon de Atenas talvez seja um dos monumentos mais conhecidos do mundo, at\u00e9 hoje associado aos tempos \u00e1ureos da civiliza\u00e7\u00e3o grega, \u00e0 funda\u00e7\u00e3o da democracia e \u00e0s bases da dita cultura ocidental. Passados tantos s\u00e9culos, entretanto, o nobre edif\u00edcio originalmente feito de m\u00e1rmore, com detalhes em ouro e marfim, se encontra j\u00e1 h\u00e1 algum tempo em ru\u00ednas, ocasionadas tanto por a\u00e7\u00f5es da natureza quanto por saques do aparentemente eterno Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, que ainda hoje ostenta pe\u00e7as do Partenon em um de seus principais museus nacionais.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Carregado, portanto, de ampla simbologia, o Partenon de Atenas serve como refer\u00eancia para a obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/contos-imorais-parte-1-casa-mae\/\">Contos Imorais \u2013 Parte 1: Casa M\u00e3e<\/a> (Contes Immoraux &#8211; Partie 1: Maison M\u00e8re)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, realizada pela artista francesa Phia M\u00e9nard. Encomendado pela Documenta de Kassel de 2017, o herc\u00faleo trabalho surge a partir da seguinte quest\u00e3o: &#8220;O que podemos aprender com Atenas?&#8221;. Referindo-se tanto \u00e0 capital grega, \u00e0quela altura j\u00e1 convertida em periferia europeia e eixo de entrada de milhares de refugiados afeg\u00e3os, iraquianos e s\u00edrios, quanto tamb\u00e9m \u00e0 deusa que supostamente protege a cidade. A obra n\u00e3o se apresenta propriamente como espet\u00e1culo, mas a partir da performatividade de uma a\u00e7\u00e3o real: construir, em pouco mais de uma hora, sem truques ou grandes efeitos, uma r\u00e9plica de papel\u00e3o do not\u00f3rio edif\u00edcio ateniense.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao entrarmos no teatro, nos deparamos com uma hero\u00edna punk mascarada que observa atentamente a chegada do p\u00fablico, como se f\u00f4ssemos, quem sabe, refugiados em busca de abrigo. Ela est\u00e1 sob luz fixa, diante de um grande ret\u00e2ngulo de papel\u00e3o recortado em peda\u00e7os, perto ainda de algumas hastes-lan\u00e7as dispostas em um vaso situado no fundo do palco. Al\u00e9m desses elementos, surgem mais adiante alguns rolos de fita crepe e uma serra el\u00e9trica que emprestar\u00e1 alguma dramaticidade \u00e0 constru\u00e7\u00e3o. Parecendo cansada e sem paci\u00eancia, a hero\u00edna demonstra certa falta de modos, al\u00e9m de pouco entusiasmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa chegada e \u00e0 atividade que est\u00e1 prestes a iniciar. Sem palavras, fechada em si e no imperativo da constru\u00e7\u00e3o, toma a primeira lan\u00e7a nas m\u00e3os e se entrega \u00e0 a\u00e7\u00e3o, com passos ritmados e entremeados por uma trilha sutil que remete a ecos e vazios. Percebemos, aos poucos, que ela parece j\u00e1 conhecer o projeto, ainda que por vezes enfrente imprevistos e recorra a improvisos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com a ajuda de uma haste-lan\u00e7a, recolhe os primeiros fragmentos do ret\u00e2ngulo de papel\u00e3o e coloca-os sobre os ombros, fazendo lembrar uma catadora de papel\u00e3o que facilmente poder\u00edamos ver em alguma rua brasileira. A cada ida e vinda, cria diferentes imagens de um corpo n\u00f4made, migrante e andarilho, instituindo ainda um territ\u00f3rio de entulho para onde v\u00e3o os res\u00edduos da constru\u00e7\u00e3o que em primeiro plano se d\u00e1. Nossa hero\u00edna punk corta a fita com a boca, fixa as pe\u00e7as sem apuro, cuidado ou capricho. Por vezes desaparece atr\u00e1s ou embaixo da estrutura, fazendo da casa trincheira, muro, fronteira e esconderijo. N\u00e3o h\u00e1 tempo para hesita\u00e7\u00e3o, mas nitidamente alguma desconfian\u00e7a sobre a efic\u00e1cia do projeto e a estabilidade da estrutura que poderia, quem sabe, nos abrigar.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao passo do tempo, a precariedade da constru\u00e7\u00e3o e dos procedimentos provoca riso e cumplicidade da plateia, por ventura fazendo lembrar de algum embrulho improvisado, de alguma gambiarra inventada. O que impressiona, em cena, n\u00e3o s\u00e3o propriamente os procedimentos, bastante simples, mas talvez a escala da a\u00e7\u00e3o, chamando aten\u00e7\u00e3o ao atrevimento do gesto humano sobre um mundo que em muito nos ultrapassa. Como de costume, a estrutura humanamente constru\u00edda se revela ao mesmo tempo pris\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o, jaula e monumento.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando a natureza age, entretanto, somos convocados a refletir sobre a fragilidade e as contradi\u00e7\u00f5es de todo o edif\u00edcio ocidental, quem sabe tamb\u00e9m sobre a derrocada da democracia, da racionalidade eurocentrada, do projeto civilizat\u00f3rio capitalista-colonialista-patrimonialista-patriarcal e de uma vis\u00e3o que enxerga a natureza como mero canteiro de obras, entulho, constru\u00e7\u00f5es e escava\u00e7\u00f5es. Um tanto perplexa e quase pat\u00e9tica, \u00e9 como andarilha, ao apagar das luzes, que deixa o palco nossa fragilizada hero\u00edna ocidental. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em busca de outros ref\u00fagios por Daniel Toledo Constru\u00eddo h\u00e1 mais de dois mil\u00eanios, a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":6021,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[8],"tags":[99],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9621"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9621"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9621\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6021"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9621"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9621"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9621"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=9621"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}