{"id":9614,"date":"2020-03-07T12:11:55","date_gmt":"2020-03-07T15:11:55","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=9614"},"modified":"2020-03-12T14:31:42","modified_gmt":"2020-03-12T17:31:42","slug":"fratura-espectral-por-guilherme-diniz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/fratura-espectral-por-guilherme-diniz\/","title":{"rendered":"Fratura espectral <h6>por Guilherme Diniz<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Fratura espectral<\/h3>\n<h6>por Guilherme Diniz<\/h6>\n<p><img class=\"alignnone wp-image-9608 size-full\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o.jpg\" alt=\"S\u00e1bado Descontra\u00eddo @Guto Muniz\" width=\"2400\" height=\"1680\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-1536x1075.jpg 1536w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o.jpg 2400w\" sizes=\"(max-width: 2400px) 100vw, 2400px\" \/><\/p>\n<p>Em <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/sabado-descontraido\/\"><em>S\u00e1bado Descontra\u00eddo<\/em><\/a> (<em>Samedi D\u00e9tente<\/em>), concebido por Doroth\u00e9e Munyaneza, assiste-se ao dilema de uma mem\u00f3ria que tenta dimensionar a dor e o exterm\u00ednio produzidos no terr\u00edfico Genoc\u00eddio em Ruanda (1994), a partir de uma perspectiva poeticamente testemunhal que lida com as consequ\u00eancias hist\u00f3ricas de tal acontecimento nas consci\u00eancias individuais e coletivas de um povo \u00e0 beira de seu mais profundo abismo. Ao revisitar o passado, ainda vivo como uma ferida aberta, a encena\u00e7\u00e3o desenvolve uma postura \u00e9tica implicada na reflex\u00e3o sobre a heran\u00e7a hist\u00f3rica que matiza os seus processos identit\u00e1rios e est\u00e9ticos.<\/p>\n<p>A dramaturgia aqui encara n\u00e3o apenas o mortic\u00ednio avassalador, mas tamb\u00e9m os fantasmas que da\u00ed surgem. Assim como na poesia da santomense Concei\u00e7\u00e3o Lima, Doroth\u00e9e enfrenta os muitos e aflitivos fantasmas que habitam sua mem\u00f3ria hist\u00f3rica. Narrar as hist\u00f3rias dos fantasmas \u00e9 uma tentativa de evocar os ausentes corpos insepultos para de alguma maneira fabular, esteticamente, possibilidades de dar sentido ao caos. Em sua presen\u00e7a invis\u00edvel (ou aus\u00eancia sens\u00edvel) o fantasma \u00e9 aquele ou aquilo que perturba o presente, pois recusa-se a ser esquecido.<\/p>\n<p>A narrativa de Doroth\u00e9e \u00e9 vertiginosa, apresentando o seu drama em crescer em meio ao aniquilamento; constituir-se como sujeito a partir dos rastros da destrui\u00e7\u00e3o. Naquela realidade extremada, a morte se converte em um modo de vida. Historicamente, o genoc\u00eddio em Ruanda foi alimentado por na\u00e7\u00f5es europeias que, ao instituir separa\u00e7\u00f5es e hierarquias entre os grupos humanos daquele pa\u00eds, desenvolveu uma malha colonialista a instigar e a se aproveitar de conflitos. \u201cO que me levou a matar meu amigo?\u201d, questiona-se algu\u00e9m ao dar-se conta da hecatombe concretizada pelas din\u00e2micas de separa\u00e7\u00e3o e\/ou pelas &#8220;pol\u00edticas de inimizade&#8221;, para usar uma express\u00e3o do fil\u00f3sofo camaron\u00eas Achille Mbembe. No frenesi sanguinolento e an\u00f3dino outra t\u00edmida e crucial quest\u00e3o surge ap\u00f3s tanta viol\u00eancia: \u201cQuem \u00e9 o inimigo\u201d? Uma vez mais o cinismo europeu que estimulou o \u00f3dio entre pares deu as costas ao sangue derramado.<\/p>\n<p>Cenograficamente, os objetos, em sua concretude, s\u00e3o elementos determinantes na encena\u00e7\u00e3o, pois possuem um car\u00e1ter residual dos eventos b\u00e9licos; a guerra passada se insinua nas roupas, na mesa, no r\u00e1dio, que evidenciam rastros de uma humanidade em colapso. O programa radiof\u00f4nico (cujo nome d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 pe\u00e7a) que Doroth\u00e9e ouvia quando crian\u00e7a \u00e9 a express\u00e3o do trauma, pois ouvir aquelas can\u00e7\u00f5es \u00e9 reconectar-se \u00e0 dor. Logo, o r\u00e1dio se projeta como sin\u00e9doque de um processo brutal de fragmenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em <em>S\u00e1bado Descontra\u00eddo<\/em> os corpos em cena s\u00e3o portais de mem\u00f3rias, para pensarmos com Leda Maria Martins. O potencial est\u00e9tico-cultural do corpo em reatualizar as afeta\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria, conferindo outros e novos sentidos para a experi\u00eancia. Uma corporeidade que, na sinestesia de sua a\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, ritualiza e reinscreve figura\u00e7\u00f5es do vivido e do imaginado. Articular hist\u00f3ria e mem\u00f3ria, como fabula\u00e7\u00e3o, torna-se um processo de reflex\u00e3o sobre o passado para compreender seus ecos no presente.<\/p>\n<p>Os artif\u00edcios sonoros de <em>S\u00e1bado Descontra\u00eddo<\/em> constituem uma polifonia disruptiva. A massa sonora difusa e multifacetada, amplificada por sintetizadores, gera ecos que povoam o palco com numerosas vozes e prantos clamando, angustiadamente, por justi\u00e7a. A vocalidade de Doroth\u00e9e \u00e9 um forte vetor de sentido; evocando c\u00e2nticos como atos de expurga\u00e7\u00e3o, conjura\u00e7\u00e3o e express\u00e3o mesma da dor e da consci\u00eancia cindida.<\/p>\n<p>Narrar aqui pode ser pensado como um gesto que revisita um momento hist\u00f3rico para deix\u00e1-lo simbolicamente em suspens\u00e3o, dilatando sua dimens\u00e3o temporal a fim de costurar um sentido novo para a vida a partir dos retalhos do aniquilamento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fratura espectral por Guilherme Diniz Em S\u00e1bado Descontra\u00eddo (Samedi D\u00e9tente), concebido por Doroth\u00e9e Munyaneza, assiste-se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":9608,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[8],"tags":[105],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9614"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9614"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9614\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9608"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9614"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9614"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9614"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=9614"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}