{"id":9518,"date":"2020-03-06T15:56:14","date_gmt":"2020-03-06T18:56:14","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=9518"},"modified":"2020-03-07T17:35:21","modified_gmt":"2020-03-07T20:35:21","slug":"corpos-em-combustao-por-clovis-domingos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/corpos-em-combustao-por-clovis-domingos\/","title":{"rendered":"Corpos em combust\u00e3o <h6>por Cl\u00f3vis Domingos<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Corpos em combust\u00e3o<\/h3>\n<h6>por Cl\u00f3vis Domingos<\/h6>\n<p><img class=\"alignnone wp-image-9599 size-large\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49625711822_e01e88562d_o-1024x717.jpg\" alt=\"Multud\u00e3o (Crowd) @Silvia Machado\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49625711822_e01e88562d_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49625711822_e01e88562d_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49625711822_e01e88562d_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49625711822_e01e88562d_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49625711822_e01e88562d_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49625711822_e01e88562d_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49625711822_e01e88562d_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49625711822_e01e88562d_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49625711822_e01e88562d_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/multidao\/\"><i>Multid\u00e3o (Crowd)<\/i><\/a>, pe\u00e7a da artista franco-austr\u00edaca Gis\u00e8le Vienne, que abriu a 7\u00aa\u00a0MITsp no Audit\u00f3rio do Ibirapuera, \u00e9 um trabalho hipn\u00f3tico e instigante, que prop\u00f5e aos espectadores uma s\u00e9rie de jogos de percep\u00e7\u00e3o pela subvers\u00e3o do real. O palco, que aos poucos ser\u00e1 tomado pela presen\u00e7a e estranha agita\u00e7\u00e3o corporal de um grupo de 15 jovens, encontra-se no in\u00edcio do espet\u00e1culo timidamente iluminado feito uma plan\u00edcie abandonada e forrada apenas de terra e garrafas pl\u00e1sticas. Numa dimens\u00e3o fantasmag\u00f3rica, h\u00e1 algo de ins\u00f3lito que se prenuncia a cada apari\u00e7\u00e3o dos bailarinos ao adentrar esse espa\u00e7o trazendo consigo suas bebidas para a realiza\u00e7\u00e3o de uma festa <i>techno<\/i>.<\/p>\n<p>Esse evento festivo \u00e9 marcado pela estiliza\u00e7\u00e3o dos movimentos dos dan\u00e7arinos que ocorre por lentid\u00f5es, acelera\u00e7\u00f5es, fragmenta\u00e7\u00f5es, repeti\u00e7\u00f5es, dispers\u00f5es, composi\u00e7\u00f5es e contraposi\u00e7\u00f5es entre gestos e trilha sonora. Como se fossem marionetes, os corpos reagem conforme os est\u00edmulos sonoros propostos e, por vezes, os desobedecem atrav\u00e9s de pausas incisivas, o que causa significativas interrup\u00e7\u00f5es. Nessa deforma\u00e7\u00e3o, tempo e espa\u00e7o se alteram e podem ganhar mais densidade. Como espectadores vivenciamos a dura\u00e7\u00e3o de uma festa com seus momentos de pico e euforia alternados com cansa\u00e7o e repouso. H\u00e1 tamb\u00e9m algumas partes nas quais os atuantes congelam como se transformassem em esculturas para que alguma outra singularidade pudesse assim se manifestar e, dessa forma, contrastar com a imobilidade conjunta estabelecida. O mecanismo escolhido pela encenadora parece priorizar a irrup\u00e7\u00e3o de um certo estranhamento e inc\u00f4modo destinados aos espectadores, ao mesmo tempo que os convida a se inserir numa outra din\u00e2mica na qual eles possam completar as a\u00e7\u00f5es que ficaram suspensas.<\/p>\n<p>Nesse espet\u00e1culo, a festa rave se configura como uma esp\u00e9cie de efervesc\u00eancia coletiva que oscila entre prazer, sensualidade, viol\u00eancia e \u00eaxtase espiritual numa dan\u00e7a sempre cont\u00ednua e que parece n\u00e3o ter fim. Apresentado a partir de <i>tableaux vivants <\/i>(quadros vivos), o trabalho provoca deslizamentos perceptivos, isto \u00e9, ora invade nossos sentidos, ora abre possibilidades de cria\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de imagens simb\u00f3licas potentes. Seria <i>Multid\u00e3o (Crowd)<\/i> um trabalho para se experienciar e se deixar afetar de diferentes modos ou haveria algo ali a ser decodificado? Ou seriam as duas coisas? A coreografia desse ritual festivo pag\u00e3o segue um rigoroso desenho em sua execu\u00e7\u00e3o, como uma tela que vai sendo pintada minuciosamente ao vivo, e que nos convoca pelas batidas das m\u00fasicas eletr\u00f4nicas e a celebra\u00e7\u00e3o efusiva dos corpos. O largo tempo destinado a contemplar o que se passava em cena de alguma maneira me aproximava e distanciava dali, abrindo vazios num movimento de vaiv\u00e9m. Imposs\u00edvel ficar imune a esse cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Um ponto a ser destacado nesse espet\u00e1culo \u00e9 sua capacidade de abstra\u00e7\u00e3o e com ela a liberdade de se poder construir diferentes narrativas, isso num momento no qual nosso teatro tem primado pelo discurso direto como forma de arte pol\u00edtica. Mas a possibilidade oferecida por esse trabalho de se conviver com as imagens em aberto e de se dar tempo para ouvi-las e elabor\u00e1-las, de acordo com sua vontade, n\u00e3o seria uma pol\u00edtica da imagina\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Ainda que em alguns momentos a nossa aten\u00e7\u00e3o possa se prender a algum bailarino espec\u00edfico, a pulsa\u00e7\u00e3o coletiva parece ser a t\u00f4nica mais forte, da\u00ed podemos pensar na ideia de uma multid\u00e3o, isto \u00e9, a aus\u00eancia de um rosto ou subjetividade. Para mim seriam for\u00e7as em ebuli\u00e7\u00e3o, formas an\u00f4nimas animadas que explodiriam em desejos por conex\u00f5es ef\u00eameras. Corpos em combust\u00e3o, lentid\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o. Uma multid\u00e3o capaz de mobilizar afetos, garantir participa\u00e7\u00f5es e renovar energias a partir de um vetor em comum.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s desse espet\u00e1culo \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m pensar a festa como disp\u00eandio e gesto de resist\u00eancia numa sociedade pautada pela excessiva produ\u00e7\u00e3o, pela l\u00f3gica do consumo e da utilidade. Na contram\u00e3o disso tudo, em seu aspecto l\u00fadico e agon\u00edstico, a festa prezaria pelo \u00f3cio, pela alegria e pelo sacrif\u00edcio. Aqui se ganha pela perda. Seria a festa hoje uma necessidade vital para as sociedades contempor\u00e2neas deprimidas por tanto esfor\u00e7o, cansa\u00e7o e explora\u00e7\u00e3o? E se os DJs pudessem ser considerados como os novos xam\u00e3s a nos seduzirem com seus mantras eletr\u00f4nicos? Para muitos de n\u00f3s, diferente de um instrumento de aliena\u00e7\u00e3o, a festa se revela como uma busca nost\u00e1lgica e ancestral de uma experi\u00eancia num tempo m\u00edtico e numa vida tribal. Em <i>Multid\u00e3o (Crowd)<\/i>, esse horizonte parece estar n\u00e3o apenas apontado, mas corporificado. Nessa dan\u00e7a pict\u00f3rica, os corpos ardem e queimam. Mas ser\u00e1 que ainda que dancem juntos, se beijem, se enfrentem, estabele\u00e7am aproxima\u00e7\u00f5es e afastamentos, esses jovens de fato se re\u00fanem? Na rave, ainda que todos estejam juntos, cada um parece dan\u00e7ar do seu jeito e o que embala, talvez seja a solid\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Corpos em combust\u00e3o por Cl\u00f3vis Domingos Multid\u00e3o (Crowd), pe\u00e7a da artista franco-austr\u00edaca Gis\u00e8le Vienne, que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":9599,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[8],"tags":[167],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9518"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9518"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9518\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9599"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9518"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9518"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9518"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=9518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}