{"id":9515,"date":"2020-03-06T15:56:55","date_gmt":"2020-03-06T18:56:55","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=9515"},"modified":"2020-03-07T10:55:02","modified_gmt":"2020-03-07T13:55:02","slug":"potencia-da-solidao-na-multidao-por-nathalia-catharina-alves-oliveira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/potencia-da-solidao-na-multidao-por-nathalia-catharina-alves-oliveira\/","title":{"rendered":"A pot\u00eancia da solid\u00e3o na multid\u00e3o <h6>por Nathalia Catharina Alves Oliveira<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>A pot\u00eancia da solid\u00e3o na multid\u00e3o<\/h3>\n<h6>por Nathalia Catharina Alves Oliveira<\/h6>\n<p><img class=\"alignnone wp-image-9596 size-large\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-1024x717.jpg\" alt=\"Multud\u00e3o (Crowd) @Silvia Machado\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Aguardo o in\u00edcio de <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/multidao\/\"><i>Multid\u00e3o (Crowd)<\/i><\/a>, dirigido pela franco-austr\u00edaca Gis\u00e8le Vienne. Ao fundo do palco, recebendo apenas a luz indireta que vem da plateia, podemos ver os rastros de alguma cena ou evento. Ind\u00edcios da passagem de alguma civiliza\u00e7\u00e3o por ali. Depois de algum tempo percebo que s\u00e3o os rastros de <i>Multid\u00e3o (Crowd)<\/i>. A m\u00fasica techno inicia e esses rastros reluzem sob a luz que come\u00e7a a iluminar a cena. O techno \u00e9 marcadamente um g\u00eanero musical urbano pr\u00f3prio a um contexto industrial e desenvolvido a partir de sintetizadores. Ningu\u00e9m \u00e0 vista. Uma mancha ao fundo do palco come\u00e7a a se mover devagar e percebo que se trata de um corpo. Daqueles detritos surge um corpo. Humano. Em seguida os corpos de uma multid\u00e3o de bailarinas e bailarinos tamb\u00e9m adentram a cena.<\/p>\n<p>A montagem se constr\u00f3i a partir de um processo de decupagem do movimento, nos revelando os pr\u00f3prios dispositivos de composi\u00e7\u00e3o coreogr\u00e1fica marcada pela articula\u00e7\u00e3o precisa das partituras corporais. Esses corpos, tal como a m\u00fasica, tamb\u00e9m parecem ser operados por sintetizadores. A cin\u00e9tica em slow motion (c\u00e2mera lenta) nos leva a um certo grau de estranhamento de uma cena trivial: uma festa ou balada entre jovens. Esse estranhamento de uma cena comum, em princ\u00edpio reconhec\u00edvel em praticamente qualquer territ\u00f3rio urbano, se faz, sobretudo, a partir do recurso da distens\u00e3o do tempo dos movimentos. A tens\u00e3o dos corpos e o tensionamento entre esses e a arquitetura do som e da luz constroem a contund\u00eancia da corporeidade dramat\u00fargica de <i>Multid\u00e3o (Crowd)<\/i>. Os m\u00fasculos dos bailarinos s\u00e3o como cordas de instrumentos orquestrados por uma maestrina, por\u00e9m no lugar de som, produzem tens\u00f5es. A virtuos\u00edstica orquestra\u00e7\u00e3o dessas tens\u00f5es nos faz ver esses corpos quase como extra-humanos em um territ\u00f3rio dist\u00f3pico. Al\u00e9m de um sutil l\u00edquido vermelho que escorre, s\u00e3o as figuras solit\u00e1rias que de vez em quando se destacam da multid\u00e3o \u2013 rompendo com essa temporalidade dist\u00f3pica \u2013 que nos fazem lembrar de que ainda somos humanos.<\/p>\n<p>A tens\u00e3o do espa\u00e7o entre os corpos traz \u00e0 tona a ang\u00fastia insond\u00e1vel que os habita. A lat\u00eancia de movimento \u2013 constante tens\u00e3o muscular \u2013 parece instaurar a pot\u00eancia subversiva face a um esvaziamento das rela\u00e7\u00f5es humanas e da solid\u00e3o desses corpos em meio \u00e0 multid\u00e3o. A contradi\u00e7\u00e3o entre o ritmo da m\u00fasica e dos deslocamentos nos leva a duvidar do \u201creal\u201d e do automatismo do comportamento humano. As pausas criam uma suspens\u00e3o no tempo, nos conduzindo igualmente a estranhar esse \u201creal\u201d, nos convidando a ver a aparente trivialidade da cena festiva como um ritual tr\u00e1gico, revelador de uma aus\u00eancia de contato humano, de um apagamento subjetivo constru\u00eddo por um sistema econ\u00f4mico e social calcado na fantasia do sucesso. Ao mesmo tempo que <i>Multid\u00e3o (Crowd)<\/i> evidencia uma fal\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es de um ritual social europeu e ocidental, a precis\u00e3o da movimenta\u00e7\u00e3o e fisicalidade parece ser capaz de ressacralizar esses mesmos corpos, sendo a dan\u00e7a o pr\u00f3prio ant\u00eddoto ritual contra uma apatia social sufocante. A cr\u00edtica de Gis\u00e8le parece se ancorar na epiciza\u00e7\u00e3o desses corpos, desmontando sua movimenta\u00e7\u00e3o pela altera\u00e7\u00e3o temporal e revelando as m\u00e1scaras sociais que os comp\u00f5em, como maquiagens definitivas pregadas ao rosto. Os corpos deflagram os c\u00f3digos sociais sob os quais est\u00e3o submetidos, sem espa\u00e7o para o tr\u00e1gico, para a dor. A partir da dilata\u00e7\u00e3o temporal, tensionando ao limite a \u201cmusculatura de uma representa\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o sociais\u201d, a obra parece desconstruir sua pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pausa. Suspens\u00e3o. A continuidade do tempo hist\u00f3rico \u00e9 interrompida: uma figura se destaca do bando im\u00f3vel e dan\u00e7a sua solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Em alus\u00e3o \u00e0 perspectiva do l\u00edder ind\u00edgena Ailton Krenak, poderia a explos\u00e3o dessa tens\u00e3o adiar o fim do mundo? N\u00e3o seria sem raz\u00e3o, me parece, relembrarmos o trabalho da core\u00f3grafa brasileira Lia Rodrigues com sua companhia da favela da Mar\u00e9 (RJ). Inspirado na obra a <i>A Queda do C\u00e9u<\/i>, do antrop\u00f3logo Bruce Albert e do xam\u00e3 Yanomami Davi Kopenawa, o espet\u00e1culo <i>Para que o C\u00e9u N\u00e3o Caia<\/i> (apresentado em 2017 na 4\u00aa edi\u00e7\u00e3o da MITsp) tamb\u00e9m tem sua coreografia baseada em um jogo compositivo instaurado por um coro de bailarinos em cena e talvez, tal como os bailarinos de <i>Multid\u00e3o (Crowd)<\/i>, tamb\u00e9m dancem para que o c\u00e9u n\u00e3o caia sobre n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pot\u00eancia da solid\u00e3o na multid\u00e3o por Nathalia Catharina Alves Oliveira Aguardo o in\u00edcio de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":9596,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[8],"tags":[167],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9515"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9515"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9515\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9596"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9515"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9515"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9515"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=9515"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}