{"id":9361,"date":"2020-03-05T20:09:36","date_gmt":"2020-03-05T23:09:36","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=9361"},"modified":"2020-03-12T18:22:49","modified_gmt":"2020-03-12T21:22:49","slug":"entrevista-com-janaina-leite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/entrevista-com-janaina-leite\/","title":{"rendered":"Entrevista com Janaina leite"},"content":{"rendered":"<h6>Pesquisadora em foco<\/h6>\n<h5><em><span style=\"font-weight: 400;\">por Daniele Avila Small, Luciana Eastwood Romagnolli e S\u00edlvia Fernandes<\/span><\/em><\/h5>\n<p><b><img class=\"size-fusion-400 wp-image-6384 alignright\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Desmontagem-Stabat-Mater-400x266.jpg\" alt=\"Desmontagem de Stabat Mater\" width=\"400\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Desmontagem-Stabat-Mater-200x133.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Desmontagem-Stabat-Mater-300x200.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Desmontagem-Stabat-Mater-400x266.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Desmontagem-Stabat-Mater-600x400.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Desmontagem-Stabat-Mater-768x511.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Desmontagem-Stabat-Mater-800x533.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Desmontagem-Stabat-Mater.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/>Ao menos desde Hysteria, com o Grupo XIX, os tabus em torno da sexualidade feminina fazem parte do seu trabalho. Em <\/b><b><i>Conversas com Meu Pai<\/i><\/b><b>, isso ganha uma pessoalidade, como um processo de elabora\u00e7\u00e3o e ressignifica\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias. Como o projeto <\/b><b><i>Feminino Abjeto<\/i><\/b><b> radicaliza essa perspectiva e prepara o caminho at\u00e9 <\/b><b><i>Stabat Mater<\/i><\/b><b>?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tem mudan\u00e7as importantes a\u00ed. O feminino que eu abordava em Hysteria (digo eu para n\u00e3o falar pelas outras, acho que cada processo ali foi bastante pessoal) era de certa forma um feminino <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">em terceira pessoa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, abstrato, sem me ver completamente implicada. Eu era muito jovem. Tinha 19 anos! A pe\u00e7a era para mim, naquele momento, uma tese, uma defesa, uma causa. E tamb\u00e9m, sobretudo, um encantamento com a hist\u00f3ria daquelas mulheres. O que vai acontecer depois \u00e9 uma curva de implica\u00e7\u00e3o total. Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Conversas com Meu Pai<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> certamente, em termos biogr\u00e1ficos, mas n\u00e3o ainda sobre a quest\u00e3o do feminino. O feminino ali est\u00e1 no avesso, est\u00e1 em negativo. Eu n\u00e3o fui capaz de perceber o seu significado. N\u00e3o percebi porque ainda n\u00e3o era capaz. Foram os movimentos pessoais, virar m\u00e3e, revisitar quest\u00f5es do passado \u00e0 luz do feminino que eu descobria em mim, que me fizeram perceber essa lacuna, esse ato falho. E todo o processo de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Feminino Abjeto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, o 1 e o 2, at\u00e9 chegar no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Stabat<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, foi essa busca: trazer, l\u00e1 das sombras, esse feminino.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>O que uma equipe formada por mulheres trouxe para a sua experi\u00eancia de processo criativo?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa necessidade foi se revelando aos poucos. Comecei com duas parceiras, a Lara Duarte e a Ramilla Souza. Querendo, precisando de novas interlocu\u00e7\u00f5es. E nesse momento foi o interesse pela maneira como elas viam a cena, o teatro, que me atraiu, mas com o caminhar da hist\u00f3ria fui sentindo muita necessidade de que fosse uma conversa, uma troca entre mulheres. E a\u00ed os encontros foram se dando: coincid\u00eancias, sintonias. Elas foram chegando aos poucos e cada uma contribuindo n\u00e3o s\u00f3 nas suas fun\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, mas com seus pontos de vista como mulheres, contribui\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas. Fl\u00e1via Maria, por exemplo, que seria uma preparadora de voz, foi na verdade quem primeiro abra\u00e7ou minha m\u00e3e no processo a partir das aulas de canto. Essas aulas logo prescindiram da minha presen\u00e7a\u00a0 \u2013 na verdade, a Fl\u00e1via me expulsou! (risos) \u2013 para que minha m\u00e3e fosse criando um espa\u00e7o dela! As m\u00fasicas que ela canta na pe\u00e7a surgiram ali, das longas conversas entre as duas. Penso na Lillah tamb\u00e9m que, mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia \u2013 ela estava em Berlim \u2013, foi uma interlocutora fundamental da dramaturgia como um todo. Uma provocadora super precisa, cr\u00edtica. Eu estava colada demais ao material. Olhares como o dela, delas, me davam dist\u00e2ncia para enxergar v\u00e1rias coisas. Me lembro com emo\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios momentos com todas. Experi\u00eancias importantes que elas testemunharam. Quero registrar o nome de todas aqui: Paula Hemsi, La\u00edza Dantas, Lana Scott, Luiza Moreira Salles, Carla Estefan, K\u00eania Dias, Jhenny Santine, Maria Am\u00e9lia Farah, Melina Schleder, Wilssa Esser, Ju Piesco. Sou muito grata a elas pela cumplicidade e contribui\u00e7\u00f5es art\u00edsticas.<\/span><\/p>\n<p><b><i>Stabat Mater <\/i><\/b><b>tem um poder de afeta\u00e7\u00e3o principalmente das espectadoras mulheres, que testemunham, relatam e escrevem sobre a experi\u00eancia como um acontecimento que transformou suas vidas. Como voc\u00ea explica essa intensa resson\u00e2ncia de afetos?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fico muito tocada com as mensagens que recebo, relatos, sonhos, uma reverbera\u00e7\u00e3o muito forte mesmo. Existe um movimento feminino, feminista muito intenso hoje. A pe\u00e7a tem isso tamb\u00e9m, mas acho que seu lugar \u00e9 mais o do inconsciente, das sombras, do n\u00e3o dito. Acho que para al\u00e9m dos discursos, daquilo que n\u00f3s j\u00e1 sabemos sobre n\u00f3s, tem tudo aquilo que n\u00f3s <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o sabemos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Eu acho que no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Stabat<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> tem um curto-circuito desses saberes e n\u00e3o saberes. Talvez seja por a\u00ed que a pe\u00e7a crie essa identifica\u00e7\u00e3o, essa \u201cafeta\u00e7\u00e3o\u201d como voc\u00ea disse.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>H\u00e1 uma cultura de silenciamento da mulher acerca das viol\u00eancias sexuais, que aparece explicitamente em <\/b><b><i>Stabat Mater<\/i><\/b><b>, por exemplo, quando voc\u00ea informa que uma den\u00fancia antes considerada &#8220;tentativa&#8221; de estupro passa a ser entendida como &#8220;estupro&#8221; e ponto. Como tem sido para voc\u00ea o processo de enfrentamento disso e que estrat\u00e9gias t\u00eam encontrado diante das institui\u00e7\u00f5es patriarcais?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Me lembro de uma situa\u00e7\u00e3o com umas seis amigas na qual come\u00e7amos a falar de abuso. TODAS tinham passado por alguma situa\u00e7\u00e3o s\u00e9ria de abuso e em mais de quinze anos de amizade NUNCA hav\u00edamos falado sobre isso. Pra gente perceber que durante muito tempo a regra era guardar para si, superar. \u00c9 uma nega\u00e7\u00e3o total. Uma n\u00e3o permiss\u00e3o. A gente n\u00e3o falava sobre isso. Assim como n\u00e3o fala sobre aborto. Vamos empurrando tudo para baixo do tapete. Para mim, por exemplo, foi muito dif\u00edcil dizer: fui estuprada. No dia seguinte do estupro, eu acordei, vesti a mesma roupa do dia anterior e fui para a escola. Eu tinha 15 anos. Passei anos sem falar com ningu\u00e9m sobre isso. Uma tentativa de passar por cima, \u201cser forte\u201d, seguir a vida. Era esse o modelo de mulher que eu tinha: ser forte, aguentar tudo. O pre\u00e7o \u00e9 alto&#8230; Foi muito bom revisitar tudo isso com a minha m\u00e3e. N\u00f3s nunca mais t\u00ednhamos falado sobre e s\u00f3 voltamos a falar no processo da pe\u00e7a. \u00c9 um passo pessoal, mas n\u00e3o s\u00f3. Existe um movimento enorme \u2013 uma onda! \u2013 desse trazer \u00e0 tona, dialogar, reivindicar. Nesses anos, muita coisa aconteceu. A partir de 2012, o &#8220;abuso&#8221; que eu sofri passa a ser visto como &#8220;estupro&#8221;. O que \u00e9 muito importante como avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o ao entendimento sobre a viol\u00eancia contra a mulher.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sobre as \u201cestrat\u00e9gias\u201d que voc\u00eas perguntam\u2026 Bom, eu, por enquanto, tenho encontrado na arte e na academia esse lugar de \u201cenfrentamento\u201d. Meu caminho at\u00e9 aqui tem sido esse: primeiro, de uma visita\u00e7\u00e3o dessas sombras e fantasmas, segundo, uma elabora\u00e7\u00e3o art\u00edstica, reflexiva e te\u00f3rica que tem me acompanhado desde o processo do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Conversas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e, por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, os encontros. Desde que comecei a pensar em tudo isso, encontrei muita gente, centenas de pessoas: nos n\u00facleos de pesquisa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Feminino Abjeto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> 1 e 2, nas oficinas que coordeno, mesas, palestras e a cada apresenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Essa troca com as pessoas, troca art\u00edstica e pessoal, gerou uma rede incr\u00edvel. Muita gente pensando esses temas, essas quest\u00f5es, mas sob uma \u00f3tica que n\u00e3o \u00e9 manique\u00edsta, simplificadora. A gente precisa suportar as contradi\u00e7\u00f5es, as nossas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es sobretudo! Do contr\u00e1rio, a gente fica fazendo discursos m\u00e1gicos que pouco dizem desse territ\u00f3rio sombrio por onde se movem nossos desejos e puls\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><b>O experimento \u00e9 uma performance cr\u00edtica das representa\u00e7\u00f5es do feminino que mant\u00e9m o tensionamento na transmiss\u00e3o da feminilidade de m\u00e3e para filha. No processo de trabalho, como e quando surgiu a ideia de dividir a cena com sua m\u00e3e e de incluir a imagem do parto reverso de seu filho?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu tenho dificuldade de lembrar em que ordem as coisas acontecem no processo! Mas lembro, por exemplo, que no primeiro encontro em 2017 do n\u00facleo de pesquisa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Feminino Abjeto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (que naquela altura n\u00e3o sabia ainda que seria o 1) propus que cada participante procurasse saber e contasse ao grupo sobre seu nascimento. Naquele dia, eu tamb\u00e9m contei sobre meu nascimento, mas mostrando as imagens do parto do meu segundo filho. Ali, j\u00e1 havia essa rela\u00e7\u00e3o entre ter me tornado m\u00e3e, mas precisar voltar ao meu nascimento, ou \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com minha m\u00e3e. Eu ainda n\u00e3o rebobinava tecnicamente a imagem, mas j\u00e1 estava fazendo isso de certa forma conceitualmente, autobiograficamente. J\u00e1 a minha m\u00e3e\u2026 Nossa, n\u00e3o tenho a menor ideia de quando isso ficou claro! Mas o fato \u00e9 que eu s\u00f3 tive coragem de fazer o convite pra ela muito tempo depois de pensar isso \u201cno papel\u201d. Passei meses ensaiando com as minhas parceiras Lara e Ramilla \u201cfazendo\u201d a minha m\u00e3e. Certamente, convid\u00e1-la foi o passo mais dif\u00edcil de todo o processo.<\/span><\/p>\n<p><b>Como a psican\u00e1lise e a arte se relacionam, para voc\u00ea, na elabora\u00e7\u00e3o de traumas relacionados ao feminino e na subvers\u00e3o dos enquadramentos de g\u00eanero?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu sou apaixonada por psican\u00e1lise desde o processo do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Conversas com Meu Pai<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Mas lia muito Freud, Lacan, Winnicott, Gilberto Safra. Foi incr\u00edvel. Meu mestrado, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Conversas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e minhas quest\u00f5es pessoais se misturaram completamente nessas leituras! (risos). Mas a\u00ed descobri a Julia Kristeva, a Melanie Klein, a Maria Rita Kehl, mulheres psicanalistas\u2026 N\u00e3o \u00e0 toa. Tem a ver com esse feminino que foi saindo das sombras e procurando uma interlocu\u00e7\u00e3o mais pessoal, por um lado, e por outro, social, na perspectiva de g\u00eanero. A psican\u00e1lise, em geral, ao contr\u00e1rio do que se pensa de forma muito preconceituosa, n\u00e3o trabalha com o fechamento, mas com a abertura. N\u00e3o trabalha com a positiva\u00e7\u00e3o, mas com a negatividade, ou seja, aquilo que permanece como \u201cn\u00e3o-ligado\u201d no simb\u00f3lico. Foi a psican\u00e1lise que me abriu a perspectiva de pensar o feminino via o abjeto. Em suas zonas de fronteira, de hesita\u00e7\u00e3o, de crise.<\/span><\/p>\n<p><b>Em <\/b><b><i>Stabat Mater<\/i><\/b><b>, ao mesmo tempo em que h\u00e1 a abordagem anal\u00edtica e discursiva, vemos tamb\u00e9m a for\u00e7a do corpo em nudez, do corpo em a\u00e7\u00e3o. Para voc\u00ea, como essas duas dimens\u00f5es, da linguagem e da materialidade da carne, se complementam ou contrap\u00f5em?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acho que \u00e9 as duas coisas mesmo: complemento e contraponto. E a\u00ed volto para a psican\u00e1lise tomando as no\u00e7\u00f5es de simb\u00f3lico e semi\u00f3tico que a Kristeva desenvolve brilhantemente. Em todo o processo de simboliza\u00e7\u00e3o permanece essa \u201cmargem\u201d, aquilo que n\u00e3o consegue ser domado pelo regime simb\u00f3lico. Essa press\u00e3o na linguagem \u00e9 feita pelo \u201creal\u201d, ou pelo semi\u00f3tico como prop\u00f5e a Kristeva. O real do corpo, da experi\u00eancia do corpo, n\u00e3o totalmente leg\u00edvel, ou pass\u00edvel de elabora\u00e7\u00e3o pela linguagem entra a\u00ed. Eu tenho interesse justamente nessa tens\u00e3o: a tentativa \u2013 desesperada \u2013 de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">entender<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, ao mesmo tempo, a no\u00e7\u00e3o desse fracasso quando as experi\u00eancias do corpo, no corpo, geram consequ\u00eancias que o saber racional n\u00e3o acessa diretamente.<\/span><\/p>\n<p><b>Aparentemente, a intensifica\u00e7\u00e3o da teatralidade no jogo com o real autobiogr\u00e1fico opera um certo deslocamento dos document\u00e1rios c\u00eanicos que voc\u00ea realiza desde 2008. Se essa impress\u00e3o \u00e9 verdadeira, a que se deve essa mudan\u00e7a?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acho que se deve justamente ao ponto da quest\u00e3o anterior: o embate entre corpo e experi\u00eancia versus elabora\u00e7\u00e3o intelectual, formal. Digamos que eu fui passando de um real \u201cdocumental\u201d, mais pr\u00f3ximo da ideia de \u201cmem\u00f3ria\u201d, do narrar, do registro, para um real \u201cabjeto\u201d ou o \u201creal do trauma\u201d como prop\u00f5e o Lacan, que precisa encontrar uma forma de irromper, vazar, emergir, mas n\u00e3o se deixar organizar completamente pela via da narra\u00e7\u00e3o ou teoriza\u00e7\u00e3o. O <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Conversas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> j\u00e1 anunciava isso, mas no plano liter\u00e1rio. No <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Stabat<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> a tentativa foi trazer para a materialidade c\u00eanica, corporal, esse transbordamento.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><b>Como voc\u00ea v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o de <\/b><b><i>Stabat Mater<\/i><\/b><b> com as pe\u00e7as da Ang\u00e9lica Liddell? Pode-se dizer que ela \u00e9 uma refer\u00eancia para o seu trabalho? Que artistas de teatro voc\u00ea tem como refer\u00eancia neste momento?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Refer\u00eancia total! Eu estava a um m\u00eas de estrear o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Conversas com Meu Pai<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e assisti <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Eu N\u00e3o Sou Bonita<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> na MITsp. Foi um divisor de \u00e1guas. Nem sei dizer o impacto que aquilo teve em mim. A Ang\u00e9lica faz essa opera\u00e7\u00e3o de unir o simb\u00f3lico e o semi\u00f3tico de forma magistral. Um trabalho quase barroco na linguagem, hiper constru\u00eddo, quase pict\u00f3rico como cena e liter\u00e1rio como dramaturgia, ao mesmo tempo que enfrenta o real do corpo, do encontro com o espectador, de forma muito arriscada. Violenta mesmo. Passei a estudar a Liddell dentro de um projeto de doutorado que, aos poucos, foi virando muito mais essa interlocu\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Escrevo essas palavras aqui na Fran\u00e7a, para onde vim, com apoio da Fapesp, para ver os rec\u00e9m estreados <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">As Costelas Sobre a Mesa: Padre<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">As Costelas Sobre a Mesa: Madre<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Um d\u00edptico sobre seu pai e sua m\u00e3e! Sobre outras refer\u00eancias, me v\u00eam Regina Galindo, Elfriede Jelinek, Romeo Castellucci, Christoph Schlingensief.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><b>Como se d\u00e1 na sua metodologia de trabalho a rela\u00e7\u00e3o entre pesquisa acad\u00eamica e realiza\u00e7\u00e3o art\u00edstica?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Felizmente para mim \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de muita organicidade. S\u00f3 escolho, academicamente, temas que est\u00e3o estreitamente relacionados com a pr\u00e1tica. Na verdade, nem sei dizer o que puxa o qu\u00ea! Eu tenho catarses e epifanias pessoais lendo teoria. J\u00e1 chorei que nem crian\u00e7a assistindo palestra do Juliano Pessanha, por exemplo. Desenho cora\u00e7\u00e3o e repetidas exclama\u00e7\u00f5es o tempo todo nos meus livros te\u00f3ricos! (risos). J\u00e1 tive pudor dessa mistura toda. Hoje aceito que \u00e9 meu jeito de ir para a cena, para a dramaturgia: misturando coisas \u201cpornograficamente\u201d pessoais (citando Ang\u00e9lica aqui) e teoria pesada. Agora sobre metodologia\u2026 N\u00e3o sei dizer. Nos femininos abjetos, trabalhei muito a ideia de \u201csemin\u00e1rio c\u00eanico\u201d e tamb\u00e9m \u201cmuseus pessoais\u201d. Da\u00ed surgiu a maioria das cenas. E de certa forma apliquei essas bases no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Stabat<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Mas \u00e9 bem ca\u00f3tico, na verdade. Tenho cadernos e cadernos nos quais vou anotando imagens, frases, sonhos, e depois essas coisas v\u00e3o decantando, saturando, e come\u00e7am a encontrar uma estrutura poss\u00edvel. Mas nunca sei exatamente como cheguei ali. \u00c9 bastante intuitivo no final e depende demais do processo. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadora em foco por Daniele Avila Small, Luciana Eastwood Romagnolli e S\u00edlvia Fernandes Ao menos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6384,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[40],"tags":[163],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9361"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9361"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9361\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6384"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9361"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=9361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}